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À primeira vista pode parecer sem relevância a importância dada ao que chamamos de mediação em museus, pois é praticamente impossível hoje imaginarmos a criação de uma instituição sem a presença de seu setor educativo ou de ação cultural. No entanto, esse tema não esteve sempre em pauta. O caráter pedagógico dos museus é tomado como objetivo central das instituições no fim da década de 1950. Nos anos 1930, a cidade de São Paulo contava apenas com o Museu Paulista, cujo perfil histórico somente foi delineado a partir de 1919, sob a direção de Afonso Taunay, seguido pelo de Sérgio Buarque de Holanda; e com a Pinacoteca do Estado, fundada em 1905, mas enfrentando períodos de fechamento e reabertura. A exceção eram os museus vinculados às instituições de pesquisa, com acesso restrito, como o do Instituto Biológico aberto em 1930. Guarnieri (2010) ressalta como novidade, na época, a criação de um Museu do Folclore junto à Discoteca Pública Municipal, no qual a coleção era composta principalmente pelos resultados das pesquisas do Departamento de Cultura, com destaque para a Missão de Pesquisas Folclóricas de 1938.

A incorporação de um objeto a um museu passa por procedimentos de escolha que definem sua importância; os critérios podem ser os mais variados e vão representar sempre um recorte daqueles que participam da seleção em um determinado momento histórico. Isso significa também que, de tempos em tempos, estabelecem-se conflitos sobre a constituição e manutenção de uma coleção. Partindo desse pressuposto, é possível compreender a valorização de certos conjuntos em detrimento de outros. As coleções tratadas nesta pesquisa simbolizam claramente o movimento de destaque ou desprezo que sofrem alguns conjuntos, em função do lugar ocupado por seus idealizadores ou dos princípios que nortearam sua formação.

Segundo Pomian (1984) os objetos, quando escolhidos para integrar uma coleção, adquirem outra função que os distancia de seus usos originários e os dota de um valor simbólico, e este, por sua vez, aproxima-os de outra utilidade, seja como

testemunho de um momento histórico, científico ou cultural, ressignificando até seu valor de mercado.

Os objetos protegidos, mantidos fora do circuito de atividades econômicas, desempenham o papel de intermediários entre o visível e o invisível, o que só se concretiza quando eles são expostos ao olhar. Nessa condição encontram-se os objetos sagrados e as relíquias religiosas, os despojos ou troféus de guerra e os tesouros principescos; todos formadores das primeiras coleções do homem. Ao longo da história ocidental, outros elementos foram determinantes na atribuição de significado às peças colecionadas, desde os artefatos que adquirem status de testemunho material da história quando relacionados aos textos antigos, aos objetos trazidos por viajantes representando a curiosidade pelo desconhecido, até as obras artísticas e os instrumentos científicos que traduzem o poder de criação e conhecimento humanos (POMIAN, 1984).

O invisível é, portanto, compreendido como o que está longe: seja no sentido de espaço, de tempo ou metafórico, estabelecendo um contato com diferentes dimensões, seja do sagrado, do passado histórico, do futuro incerto, de mundos longínquos e ou desconhecidos. Objetos que, dotados de um significado, são destituídos de seu valor utilitário, tornam-se semióforos e representam o invisível. Quanto maior o sentido atribuído a um objeto, menor o interesse por sua utilidade, mas, paradoxalmente, maior será seu valor de troca (POMIAN, 1984).

[...] Este mecanismo faz apenas com que se procurem sempre novos; sendo uma ou outra categoria de objetos privilegiada pela evolução dos conhecimentos históricos e científicos e também pelos pressupostos ideológicos. É neste contexto que se formam novas disciplinas que elaboram as técnicas de uma investigação destinada a descobrir novos objetos e que constroem, para este fim, as teorias que permitem classificá-los, datá-los, e tirar deles informações de toda a espécie: a arqueologia com os seus múltiplos ramos, a paleontologia, a história de arte, a etnografia (POMIAN, 1984, p. 81).

Segundo Pomian (1984), após a Idade Média – período no qual os acervos pertenciam à igreja e aos tesouros reais – é possível detectar quatro categorias de coleções: as criadas pelos estudiosos da Antiguidade; as de curiosidades, resultantes dos estudos e interesses pelo outro distante e desconhecido; as das obras de arte; e as dos instrumentos científicos. A constituição de coleções está sempre associada ao desejo do conhecimento ou à apreensão de um universo distante ou carregado de sentido para aqueles que as organizam, e que, não por acaso, pertencem aos grupos

economicamente dominantes. O que viabilizou a criação de instituições públicas para guarda e exibição de coleções, antes reservadas a seus proprietários e a alguns eleitos, foi o aparecimento de estratos sociais intermediários. Estes, sem recursos econômicos acessavam pelos estudos, informações artísticas e intelectuais, tornando-se espectadores virtuais que demandavam a entrada e consulta às coleções, de arte, científicas ou literárias. Assim, as primeiras bibliotecas e museus surgiram ligados às instituições de ensino, como a Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Suscintamente podemos assinalar momentos essenciais e determinantes para a historiografia dos Museus35. No século III a.C. a criação do Museu de Alexandria é considerada por muitos estudiosos o cerne da universidade. Ele integrava um complexo composto por biblioteca, arquivo e museu para a convivência da intelectualidade. O acervo aqui pode ser entendido como um ambicioso conjunto de documentos que viabilizavam a pesquisa, o convívio e a discussão de filósofos e estudiosos da época, cujas proposições detinham importância política e cultural no período de sua existência.

O Renascimento, entre os fins do século XIV e início do século XVII, foi o período de alteração significativa nos parâmetros para construção do conhecimento até então adotados, onde a racionalidade passa a ocupar o lugar dos dogmas dominantes no período da Idade Média. A ideia de “museu” ganha consistência e concretude, assim como acontecem os primeiros passos para delimitação do que viria a se compreender como acervo museológico, no que diz respeito à ideia de seleção e representatividade dos objetos, documentos ou obras de arte. Segundo Guarnieri há também a organização dos museus em dois campos, ou seja, os de arte e os de ciência. Como conceito quase estruturante e cultivado, o humanismo dava as justificativas para a racionalização e centralização do homem e a revalorização da investigação científica e da arte, recuperando os fundamentos da Antiguidade, momento de criação de Galerias de Arte (GUARNIERI, 2010)

Nos períodos do Iluminismo e do Romantismo, recupera-se e consagra-se o termo “museu”, além de se delinear a perspectiva de um espaço aberto à visitação geral. O palácio do atual Museu do Louvre, onde os salões de arte eram promovidos, conta em 1749 com galeria pública. A constituição de museu parte inicialmente da

35 Momentos considerados relevantes por Waldisa Rússio Camargo Guarnieri, excluindo o Museion grego entendendo-o com significado semântico (GUARNIERI, 2010).

ideia de enciclopedismo e de universalismo, até chegar, sob a atmosfera do Romantismo, ao interesse pelo exótico e pelo culto ao passado. Guarnieri destaca neste período a coleta de objetos arqueológicos, contendo os primeiros indícios da preocupação de preservação dos objetos não artísticos. Surgem os museus históricos e arqueológicos, com ênfase na construção da imagem de nação.

É, sem dúvida, após a grande revolução romântica que surgem os museus de caráter nacional e regional e, aos poucos, pari passu com eles, a ideia dos museus comunitários e especializados (incluindo nestes as coleções arqueológicas e antropológicas).

São instalados, então, com essa inspiração, inúmeros museus europeus e, principalmente, norte-americanos, as casas de homens ilustres transformadas em museus etc.

As principais características desses museus são as seguintes: a. constituem um acervo nacional, mesmo quando se trata

de museus ecléticos;

b. constituem recintos abertos ao público;

c. o ecletismo de alguns museus não pretende atingir o universalismo;

d. a seletividade da coleção é mais importante do que a sua simples expressão numérica (GUARNIERI, 2010, pág. 49,grifo da autora).

Excetuando os museus de arte, até fins do século XIX, os demais estavam praticamente a serviço das ciências naturais, portanto, sua principal razão de existência era a intensa atividade de coleta, para constituição de coleções que permitissem aos cientistas a classificação e ordenação do mundo, sua compreensão a partir da comparação analítica

Manuelina Maria Duarte Cândido cita a avaliação de Peter Van Mensch sobre duas grandes revoluções ocorridas no mundo dos museus, como essenciais ao pensamento museológico contemporâneo.

A primeira, no final do século XIX, trouxe, entre outros elementos, a organização profissional, os códigos de ética e notáveis transformações nas exposições, p. ex., com a primazia da quantidade dando lugar à oportunização do diálogo do público com os objetos expostos. A segunda, nos anos 70, foi chamada New Museology, quando a base da organização das instituições museológicas passou das coleções para as funções, além da introdução de um novo aparato conceitual, do qual destaca o museu integrado. Esta chamada Nova Museologia é hoje compreendida mais como um movimento renovador que como outra Museologia, e já tem, no mínimo, 30 anos (CÂNDIDO, 2003).

Essas mudanças ocorridas internamente nos museus, contribuíram para a construção e autonomia da Museologia enquanto um saber específico a serviço da salvaguarda da memória, do patrimônio cultural, histórico e natural da humanidade. Alterações que vão desde a reestruturação de diretrizes organizacionais, ética e, inclusive, posicionamento político-social de seus profissionais, até chegar à inserção do museu no universo do mercado cultural e do turismo, com a proliferação de museus temáticos.