As práticas de acesso propiciadas pelos dispositivos móveis estão fazendo emergir um novo espaço social de misturas entre o virtual (o ciberespaço) e os ambientes físicos em que nosso corpo circula (SANTAELLA, 2010).
Para Santaella (2010, p. 78), “se a convergência em si mesma significa ação ou processo baseado no movimento em direção a um ponto comum, a convergência é inseparável da mobilidade”.
Esta é uma palavra-chave evocativa das sociedades contemporâneas nas quais fluxos, mobilidades e hibridações se configuram como dimensões centrais de um novo paradigma. Não faltam exemplos de como a convergência e a mobilidade caminham de mãos dadas. A distinção entre tecnologias móveis e fixas tende a borrar-se porque os padrões de uso envolvem tanto a mobilidade quanto a estabilidade (SANTAELLA, 2010, p. 78).
A autora considera que a ubiquidade convergente tem no celular o exemplo-mestre pela
disponibilidade constante que ele torna possível: “Estar aqui e lá, desempenhar múltiplas tarefas
ao mesmo tempo, distribuir nossa atenção entre diferentes mídias e rotinas de comunicação é uma
experiência cotidiana para um número crescente de pessoas” (SANTAELLA, 2010, p. 78).
Segundo a Pesquisa Brasileira de Mídia 201516, o uso de aparelhos celulares como forma de acesso a internet já compete com o uso de computadores ou notebooks, 66% e 71%, respectivamente. O estudo mostra que o uso de redes sociais influencia esse resultado. Entre os internautas, 92% estão conectados por meio de redes sociais, sendo as mais utilizadas o Facebook (83%), o WhatsApp (58%) e o Youtube (17%).
Santaella (2010, p.151) trabalha com os conceitos de mídias móveis e mídias locativas como expressões sinônimas, referindo-se a um “conjunto de tecnologias que se constituem em
16 Disponível em http://www.secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-de-pesquisas-quantitativas-e-qualitativas-de-
um sistema aberto e dinâmico com todas as características dos sistemas complexos: fluxos caóticos, turbulência, instabilidade, mas também emergência, adaptação e auto-organização”.
Essas mídias são os palmtops e os celulares multifuncionais de terceira geração que, de acordo com Lemos (2004b), transformaram-se em um teletudo para a gestão móvel e informacional do cotidiano, verdadeiros controles remotos no comando da vida diária. Conectados à internet por meio de redes sem fio (Wi-fi, Wi-Max e Bluetooth), à TV digital por meio da tecnologia HSPA (high speed packet access), às redes de satélites por meio de dispositivos como GPS e as etiquetas de identificação por radiofrequência (RFID) e sensores, os celulares passaram a ser, como quer Lemos (2007, pp.25-26), “os dispositivos híbridos móveis de conexão multirredes”. Aliam, assim, “a potência comunicativa (voz, texto, foto, vídeos), a conexão em rede, a mobilidade por territórios informacionais”, ou seja, áreas de controle do fluxo informacional entre o ciberespaço e o espaço urbano “reconfigurando as práticas sociais de mobilidade informacionais pelos espaços físicos da cidade” (SANTAELLA, 2010, p. 151).
O uso cada vez mais popular das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), seja como captador, seja como reprodutor de informação, afeta o campo do jornalismo, provocando situações que inovam, modificam e questionam o fazer jornalístico (MIELNICZUK, 2013). Na visão de Silva (2013a), “a introdução das tecnologias da mobilidade caracteriza no âmbito das rotinas produtivas contemporâneas interferência no sentido de redimensionamento das funções exercidas, da dinâmica das narrativas construídas sob a égide da mobilidade e o surgimento de novos meios e modos de emissão ou de distribuição das notícias de forma expandida” (SILVA, 2013a, p. 35).
Ao longo da história das reportagens jornalísticas, principalmente de guerras e conflitos bélicos, as inovações tecnológicas têm colaborado na divulgação das narrativas. Desde a Guerra Civil Americana no século XIX, com o uso do telégrafo, até os conflitos mais atuais, com o uso do videofone na Guerra do Afeganistão, em 2001, e Guerra do Iraque, em 2003, passando pela transmissão em streaming por celular de manifestações políticas, atentados e acidentes com a utilização da tecnologia 3G, a comunicação móvel está em destaque e ganha plena visibilidade (SILVA, 2013a, p. 40).
Em outro trabalho, Silva (2008) aponta que a prática jornalística se reconfigura com as novas ferramentas, na medida em que um repórter não precisa retornar à redação para entregar o resultado da pauta. Ele pode utilizar um celular ou um notebook, capturar imagens e vídeos, editá-los e enviá-los do local do acontecimento para a redação ou diretamente para um site ou portal, bem como realizar transmissões ao vivo de um celular.
Entre estas tecnologias da mobilidade estão smartphones, palmtops, notebooks, mini- latops, celulares, PDA‟s, gravadores e câmeras digitais, aplicativos portáteis como pen drive e similares; enquanto que as conexões sem fio são formadas por Wi-Fi, WiMax, Bluetooth e tecnologia de terceira geração 3G. Deste conjunto de aplicações surgem novas práticas e configurações relacionadas às rotinas produtivas dos jornalistas, às formas de produção e distribuição de conteúdos por multi-plataformas, principalmente via celulares como dispositivos híbridos (LEMOS, 2007; LEVINSON, 2004; GOGGIN, 2006) que reúnem uma série de funções e ferramentas como câmeras embutidas, browser de internet, editores de texto, áudio, vídeo e múltiplas conexões (SILVA, 2008, p. 2).
A esse tipo de jornalismo, Silva (2013a) adota a nomenclatura “jornalismo móvel digital”:
(...) especifica a utilização de tecnologias móveis digitais e de conexão de rede sem fio na prática jornalística contemporânea visando o desenvolvimento das etapas de apuração, produção e distribuição de conteúdos de campo. Nesta instância o conceito dialoga com os processos de convergência jornalística em curso nas organizações e com a expansão da mobilidade e sua natureza física e informacional proporcionada aos repórteres. Grosso modo, jornalismo móvel digital incorpora o “móvel” de mobilidade e o “digital” da digitalização do aparato técnico utilizado para conferir uma nova dinâmica nas rotinas produtivas do jornalismo (SILVA, 2013a, p. 42).
O jornalismo móvel não é característica própria dos tempos atuais, visto que a relação entre jornalismo e mobilidade, relembra Silva (2008), existe desde a própria existência do jornalismo como prática de coleta e transmissão de informação. Chama a atenção, no entanto, o fato de que a configuração atual, movida pela estrutura móvel de comunicação, rompe com um sistema tradicional porque pela primeira vez permite a emissão de conteúdo em mobilidade, a partir de um dispositivo móvel, portátil e com conexão online. Esse fenômeno propicia uma reconfiguração do jornalismo, principalmente com mudanças no deadline, nas rotinas de trabalho e, como consequência, com reflexos no perfil profissional e nos produtos jornalísticos gerados sob essas novas condições (SILVA, 2008).
Para Nunes e Silva (2012, p.3), “a aderência do jornalismo ao campo do digital e da mobilidade expandida é a confirmação de que novas configurações aportam com alterações nos modos de fazer e de receber conteúdos”. Os autores destacam que “a práxis do jornalismo digital ganhou estímulo e complexidade com as infinitas possibilidades de gerir e gerar as informações na era da mobilidade”. Desse modo, os dispositivos móveis se tornam aliados essenciais na rotina laboral e na vida dos jornalistas, especialmente naqueles que atuam com o perfil polivalente, apresentando habilidades necessárias à adaptação móvel e convergente (NUNES E SILVA, 2012, p.4).
A convergência jornalística opera no espaço dinâmico da ubiquidade na medida em que os meios de tráfego pertencentes ao registro in loco de um fato é a condição comunicativa que garante a operação modernizada do exercício jornalístico. Na composição dessa atividade, é adquirido um desempenho de improvisação que conduz o jornalista a um patamar de narração instantânea da notícia, com o domínio tanto das ferramentas de tecnologia em conexão móvel como as características peculiares inerentes a essa nova modalidade comunicativa como conglomerados informativos (NUNES E SILVA, 2012, p.5).
Barbosa e Seixas (2013, p. 60-61) registram algumas experiências de jornalismo móvel no Brasil: o jornal Extra, do Rio de Janeiro, com o chamado “Repórter 3G”; o portal
www.oglobo.com.br que incorporou práticas do jornalismo móvel na seção “Eu-repórter” e
também incentiva o uso do celular na rotina dos repórteres para que possam dar as primeiras informações sobre os assuntos que estão apurando; e o jornal A Tarde, da Bahia, que lançou em
2009 o “Mobi a Tarde”, montando equipe exclusiva, tendo como apelo forte a informação de
serviço. Também o Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, de Pernambuco, adotou alguns produtos com estratégia voltada para a área Mobi, como sites e aplicativos.
Em outro trabalho, Silva (2013b) destaca que a questão da mobilidade dentro do jornalismo móvel tem relação direta com o processo de convergência jornalística nas redações com a produção multi-suporte. Nesse contexto, “(...) as tecnologias móveis digitais ocupam um importante papel como plataformas de produção e para o fluxo informacional, essencialmente nas redações integradas com o exercício da multitarefa ou polivalência identificadas nas atividades
dos repórteres” (SILVA, 2013b, p.99).
Sant‟anna (2008) explora os desdobramentos sobre a qualidade da notícia quando da
prática do jornalismo em mobilidade, a partir do conjunto de tecnologias locativas que equipam os repórteres em suas rotinas:
No campo mais específico do ofício de jornalista, a possível combinação de ferramentas de apuração também produz um inquietante desafio. Os novos meios convergentes demandam notícias em forma de texto, fotografia, vídeo e áudio. A digitalização de gravadores e câmeras permite a mescla dessas linguagens no ato da apuração pelo repórter. A prática de alguns meios digitais de encarregar seus repórteres de voltar para a redação com conteúdos em mais de uma linguagem deu origem à expressão “jornalista de mochila”, e a questionamentos sobre a possível queda de qualidade na apuração jornalística, dada a sobrecarga de tarefas e de preocupação com aspectos técnicos, por mais simplificadas que sejam a operação dos novos aparelhos digitais (SANT‟ANNA, 2008, n. p.).
No próximo capítulo, após termos visto a apresentação do fenômeno da convergência de mídias (e, notadamente, da convergência jornalística, com seus reflexos nas empresas e na práxis
dos profissionais da comunicação), iremos detalhar a construção metodológica do nosso objeto empírico.
2 OS CAMINHOS DA PESQUISA
Neste capítulo, apresentamos o trajeto percorrido ao longo desta pesquisa, com explanação do percurso metodológico adotado. Além de uma revisão bibliográfica, foi realizada uma escolha de objeto empírico que contempla a Rede Paraíba de Comunicação, como parte da observação da atividade jornalística convergente (meio impresso, online e TV) na prática.
Muitas vezes relegado a segundo plano na pesquisa em jornalismo – “o que é um paradoxo se levarmos em consideração que o mesmo ainda luta para consolidar-se como um
campo específico da ciência”, conforme avalia Strelow (2010, p. 21) – o método é definidor dos
rumos e do resultado da investigação científica. Para a autora, quando transformados em objeto de pesquisa, os produtos jornalísticos, aparentemente tão definitivos e estanques, revelam-se vivos e repletos de histórias a serem descobertas por detrás da palavra enunciada (STRELOW, 2010, p. 12).
Objeto multifacetado que é, o jornalismo exige um arsenal qualificado de ferramentas para sua análise. A metodologia mais adequada para o trabalho diz respeito não somente ao veículo em si, mas também ao perfil do próprio pesquisado (STRELOW, 2010, p. 14).
Também Alsina (2009, p.24) compreende que é o objeto que determina o método mais conveniente para a pesquisa. O autor defende a tricotomia dos métodos nas ciências sociais e relaciona as teorias da comunicação ao emprego de três correntes metodológicas: positivista, interpretativa e crítica. Ele destaca que tais classificações não devem ser compreendidas como
barreiras intransponíveis e, sim, uma tentativa de organizar o conhecimento: “Isso quer dizer que,
em certas ocasiões, entre as diversas metodologias existem pontos em comum e semelhanças ou as diferenças são simplesmente um problema de intensidade da característica” (ALSINA, 2009, p.26).
Fundamentada no determinismo, a metodologia positivista é a mais próxima das ciências naturais, pois pretende estabelecer uma série de hipóteses que devem ser confrontadas de forma empírica. Não se trata, no entanto, de apenas verificar as hipóteses para descrever ou explicar a realidade analisada, uma vez que existe uma intenção antevista. É como a própria máxima
positivista estabelece: “Saber para prever, prever para poder”. “Ou seja, em último caso, existe
técnicas usuais da metodologia positivista são os testes, os estudos de laboratório, as enquetes, a observação sistemática e a análise de conteúdo (ALSINA, 2009, p.26).
Em relação à metodologia interpretativa – que algumas vezes é chamada de hermenêutica
–, temos que sua fundamentação está baseada nas letras, ainda que também leve em consideração
a sociofenomenologia e a semiótica. De acordo com o que explica Alsina (2009, p. 27), esse tipo de metodologia procura descobrir o significado das ações sociais. “Ou seja, um acontecimento em si mesmo não é tão importante, o mais importante é o que os agentes sociais interpretam o que ele é”.
Na metodologia interpretativa, busca-se uma compreensão global dos fenômenos e das situações analisadas. O método utiliza a via indutiva, os conceitos e a compreensão da realidade.
Com base na informação, as interpretações são elaboradas e “cria-se um clima social adequado
para que as pessoas possam responder com fidelidade segundo suas experiências e vivências, levando em conta a idiossincrasia dos fenômenos e o contexto das situações (DEL RINCÓN et al, 1995, apud ALSINA, 2009, p.28). A metodologia interpretativa adota como principais técnicas, a observação participativa, os estudos laboratoriais, as histórias de vida, as entrevistas em profundidade e a análise discursiva.
Para Neuman, apud Alsina, a “aproximação interpretativa é a análise sistemática do
significado da ação social”, por meio da observação direta das pessoas no seu espaço natural com
vistas a compreender e interpretar como as pessoas criam e mantêm seus mundos sociais. Relacionando as teorias da comunicação à metodologia interpretativa, incluem-se a escola de Palo Alto17, o interacionismo simbólico, o construcionismo e a etnometodologia.
A principal crítica a essa metodologia, porém, é o seu caráter subjetivo:
Diz-se que o caráter de compilação da informação é pouco confiável, porque as pessoabs podem dar dados incompletos ou porque o pesquisador pode dar uma visão de viés da realidade. E embora a generalização não seja um dos objetivos da metodologia interpretativa, o positivismo considera que o particular não cria a ciência, e portanto
17 Nos anos 1940, um grupo de pesquisadores americanos oriundos de diferentes áreas do saber (antropologia,
linguística, sociologia psiquiatria etc) toma um rumo contrário aos dos estudos vigentes, ao propor que a comunicação deve se estudada a partir de um modelo próprio das ciências humanas. A ideia surge em oposição aos dois modelos predominantes na época: de um lado, o império dos meios de comunicação de massa sobre os indivíduos alienados em massas amorfas, elaborado pela teoria hipodérmica de Laswell e, do outro lado, o modelo circular e retroativo da cibernética de Wiener, concebida por engenheiros das telecomunicações. A escola de Palo Alto abandona o processo descritivo da comunicação, inserindo a informação no mundo vivido: a comunicação como processo permanente que integra múltiplos modos de comportamento como a fala, o gesto, o olhar, o espaço interindividual. Para a escola de Palo Alto, as linguagens informais - modos de amizade, negociação, acordos, modos de perceber o tempo e o espaço - estão na base das transformações culturais.
questiona a cientificidade dessa metodologia (ALSINA, 2009, p.28).
Para fechar o tripé de métodos enunciado anteriormente, a partir da proposição de Alsina, abordamos agora um pouco sobre a metodologia crítica, que é focada na ideologia. Esse método pretende ampliar a consciência crítica das pessoas face os interesses políticos particulares das
ideologias dominantes. “A metodologia crítica é basicamente uma reflexão racional que procura
trazer à tona a distorção que a ideologia, que é tida como falsa consciência, gera na concepção da realidade das pessoas” (ALSINA, 2009, p. 28).
As técnicas mais usadas para esse método, segundo Alsina (2009), são a observação da realidade social, as histórias de vida, as entrevistas em profundidade e a análise discursiva. Dentre as críticas feitas a essa metodologia, encontram-se: o fato de a mesma possuir tendências políticas; estar baseada em determinados valores; e que de fato é intervencionista na realidade social. Em resumo: tudo colabora para que esse método perca a objetividade e a neutralidade. Relacionando com as teorias da comunicação, temos a Escola de Frankfurt18, os estudos de economia política e os estudos culturais. Nesse último caso, também podem se enquadrar na metodologia interpretativa.