Os tipos de filmes produzidos pelo GPO Film Unit variavam muito. Na verdade, a grande maioria era composta por filmes instrucionais de poucos minutos realizados em uma semana ou menos. Esses filmes foram produzidos às centenas durante a existência da Unidade.
“Production at the Post Office fell essentially into three categories. Most of the unit’s output consisted of simple and often blandly titled silent instructional films such as The New Operator, The Coming of the Dial, and How to Tie a Parcel. In addition, each year, the unit lavished a large part of its budget on just two or three larger-scale productions. And finally, the unit constantly spent small amounts of money, by a considerable amount of its time, upon various “experimental” projects such as Len Lye’s A Colour Box (1936).”56
A primeira categoria, a dos filmes instrucionais, servia para os propósitos imediatos da unidade e também ajudava no aprendizado e treinamento dos recrutas de Grierson, sem que para isso se gastasse grandes quantidades de dinheiro. Os assuntos eram os mais variados e giravam em torno da vida cotidiana das pessoas, desde saúde, noções de higiene, moradia, uso de objetos e tecnologias diversas, trabalho, transportes, etc. Uma questão importante é que o orçamento da Unidade era pequeno e isso, somado à falta de experiência dos aprendizes, fazia com que esses filmes não tivessem a melhor das qualidades.
“I joined Grierson for a short time in April 1931 (...). I was working mainly on what we called at the time the poster films, which were, I suppose you can say, the predecessors of the TV commercial. Basil Wright and I were making these. We had to make a film a week. We had fifteen pounds to make a film with – not fifteen hundred or fifteen thousand, but fifteen quid – and we were given a subject.” 57
(Paul Rotha)
Os salários não eram bons também. Havia, na verdade, uma grande dose de idealismo por parte de todos os integrantes do GPO Film Unit sobre o tipo de trabalho que estavam realizando e qual era a contribuição de cada um para o sucesso do Movimento:
“ I was living at home and I had a slight private income, and I could get by. But the pay in documentary was never good. You accepted the pay for the privilege of working in documentary and getting creative freedom. And it was a double freedom because we were most of us politically conscious, and we felt there was a social contribution to be made.”58
(Basil Wright)
Os recrutas de Grierson ganhavam em média quatro pounds por semana. O salário de Cavalcanti era de 7 pounds por semana. Elizabeth Sussex demonstrou esta situação:
“Compared with most professional salaries, 4 pounds in 1930 was near the bottom end of the scale. (...) An engine driver could bring in as much as 4.10 pounds and an able seaman 9 pounds weekly. On the other hand, most skilled workers had to get by on less than 4 pounds. Cabinetmakers, carpenters, upholsterers, stonemasons, plumbers earned around 3.10 pounds. Building labourers got less than 3 pounds. (...) Grierson´s earning were roughly on a par with those of an inspector for schools (...).”59
Como apontou Wright, era a liberdade de criação que movia esses cineastas. E essa liberdade vinha com as outras categorias de filmes produzidos pela Unidade, na qual buscava-se melhor qualidade artística. Muitos desses filmes deram prestígio ao GPO Film
57
SUSSEX, Elizabeth. The Rise and Fall of British Documentary. Op. Cit. p. 14.
58 SUSSEX, Elizabeth. The Rise and Fall of British Documentary. Op. Cit. p. 21. 59 SUSSEX, Elizabeth. The Rise and Fall of British Documentary. Op. Cit. p. 21-22.
Unit. Alguns deles, são os filmes listados no item 1.7. Apesar de serem trabalhos melhores, esses filmes também tinham orçamentos apertados.
“Each year the GPO Film Unit made a small number of “prestige” films. This was deliberate policy (...). Even the prestige films had budgets that, by the standards of the feature film industry, were very small indeed. In 1935, for example, Tallents noted that the total annual budget for the film unit was less than 13,000 pounds. As he pointed out, this was less than the average cost of any one of the 189 British ‘long films’ (...) in 1933. Night Mail, most famous of all British documentary films, was made for 2,000 pounds.”60
Com isso, as produções tinham que se adaptar aos recursos disponíveis. Uso de locações ao invés de cenários, uso do comentários, uso de não-atores, filmagens nas mais diversas condições. Tais obstáculos foram superados com criatividade e determinação pelo grupo. São essas mesmas características que marcaram o Movimento e influenciaram outras escolas realistas futuras.
Em resumo, o Movimento do Documentário Britânico foi possível graças à união de diversos fatores: a ação do governo, o trabalho de pessoas como Sir Stephen Tallents e John Grierson e a presença de cineastas importantes como Flaherty e Cavalcanti. A base teórica dos filmes era uma mistura de propaganda com exercício cinematográfico que acabou marcando toda uma geração e injetando um sopro na indústria de cinema do Reino Unido. Seus filmes fazem hoje parte da história do cinema mundial. A influência dos cineastas russos e de Robert Flaherty são muito evidentes e explicitadas em todos os livros sobre o Movimento. Alberto Cavalcanti foi, com certeza, ao lado de seu colega americano e de seus colegas russos, uma terceira e importante influência para o seu desenvolvimento. Os recentes estudos sobre esta época apontam neste caminho.
Para ilustrar o que foi exposto, vamos à análise de um dos emblemas do Movimento: Coal Face.