De acordo com Cavalcanti (1998), discutindo o reducionismo religioso da pós- modernidade, afirma que a separação entre atividade teológica e fé, entre a reflexão intelectual e ação do espírito, e entre a análise crítica dos fatos e a revelação de Deus, gera pólos de retorno integral à realidade religiosa medieval sombria, obscura, supersticiosa, inquisitorial, levando à perda da individualidade e liberdade da subjetividade psicológica. Com o imediatismo religioso herético, surgem os desvios teológicos de dissimulação, o discurso simplista e a ditadura profético-milenarista.
Para o autor, constata-se uma ambivalência e paradoxo na relação com o Sagrado: liberdade versus imposição ético-moral, espiritual, ideológica, condicionante e redutora. Sendo assim, Deus/Divindade torna-se “... aquele que se faz presente por detrás da evidência da ausência” (Cavalcanti, 1998: 123), enquanto a fé pode ser discutida nos seguintes termos:
Assim, o valor da ausência será captado e percebido não pela ‘visão’, pois ‘bem- aventurados os que não viram e creram’, mas pelo ‘credulidade despojada’ e ‘irresponsável’ dos que jogam, sem reservas, nesse ‘espaço’ vazio e pleno; nesse que não está, mas está, neste que não é, mas é! (Ibid.: 123-124)
No que se refere ao Espírito como a ação não programada ou dirigida pelo homem, Cavalcanti (1998) aponta o paradoxo: dá sentido à existência e tem autoridade de se desfazer da mesma. Para o autor, a Pós-modernidade constitui tempo de brutal relativismo,
cujo um dos poucos valores absolutistas é a superficialidade. Tudo é efêmero, transitório, irrelevante, nega significados, gera desconfiança, decorrente do fracasso da ingenuidade do otimismo humanista em relação ao pressuposto de que o conhecimento objetivo possa ser alcançado pelo ser humano.
Para Cavalcanti (1998), a religião na Pós-modernidade é proliferação da experiência espiritual como característica da secularização: individualização da religião, multiplicação de agentes e expressões religiosas, carência de tom crítico-social (alienação), busca pelo imediatismo objetivo tecnológico papel terapêutico e tranqüilizante, fabricação da “... experiência do sagrado em condições virtuais, estéticas, fenomênicas” (Ibid.: 182). Conclui que:
Assim, as angústias, que o modelo vigente produz por seu corte materialista, consumista, sem valores reais de transcendência, sem ética, competitivo, são aliviados pelas formas religiosas oferecidas. Elas devolvem ânimo às pessoas para que superem a decepção e o ceticismo, tão presentes na pós-modernidade (Ibid.: 128)
De acordo com Weiss (2002), em seu estudo sobre a múltipla pertença religiosa de mulheres católicas, a insatisfação com a religião leva mulheres católicas ao trânsito religioso. Porém, em sua pesquisa, a autora percebeu que a maior parte de suas entrevistadas não abandonaram o catolicismo, mas somente a relação com a Igreja Católica, abraçando novas crenças presentes no universo religioso da Nova Era.
Baseada nos dados do IBGE, Weiss (2002) aponta que o campo religioso brasileiro está em estado de mutação, com significativas mudanças devido ao trânsito religioso do catolicismo para o protestantismo ou para a categoria “sem religião”. Afirma que o catolicismo não responde as indagações das mulheres entrevistadas, que buscam fora dele uma complementação religiosa. Mas não estando totalmente insatisfeitas com a religião, mantém-se como católicas. Para a pesquisadora, existe uma relação particular com o Sagrado entre sua amostra, onde há uma busca por liberdade e sabedoria para solucionarem seus problemas para os quais as respostas católicas são consideradas insuficientes. Sendo assim, ao fim de sua dissertação, Rosa (2002) questiona até que ponto são mesmo católicas estas mulheres, se estão centradas em si e tão distantes dos valores cristãos de transformação do mundo.
Em sua pesquisa de mestrado, Nicolau (2002) investigou o percurso pelo qual passaram três gerações de mulheres batistas para construir sua sexualidade, com análises intergeracionais. Seu objetivo era detectar qual o percurso da construção da sexualidade da mulher batista, a influência da religião neste processo, quais são os aspectos incorporados dos movimentos sociais na prática cotidiana dessas mulheres, bem como o modo pelo qual as mulheres organizam sua mundo social, sexual e religioso a partir da nova realidade cotidiana.
Entrevistou 28 mulheres batistas, ativas nas práticas dos princípios religiosos, aglutinando-as para análise em grupos segundo suas idades (20/39; 40/59, 60 a 80 anos), e analisou os números do O jornal Batista, que apresentaram textos sobre sexualidade. A autora percebeu que a construção da sexualidade das mulheres batistas baseia-se no processo de transformação da mulher na sociedade, que deixam de apoiarem-se e dirigirem suas vidas a partir somente dos relatos bíblicos e da tradição religiosa. Em sua pesquisa, as entrevistadas não vincularam prazer à obrigatoriedade da procriação. A geração mais jovem demonstrou uma insatisfação com a limitada capacidade de realização sexual, buscando prazer dentro do casamento e maternidade. Para a autora, esta geração, que é fruto da geração que conquistou liberdade sexual, não desfruta dos ganhos dessa conquista. Aponta que quanto o discurso educativo, “... não há diferença entre as gerações pré e pós movimento para a liberdade sexual feminina” (Nicolau, 2001: 170). Esse grupo apresentou o questionamento sobre a figura do homem na igreja e a possibilidade da mulher em assumir cargo de liderança: desafio às noções convencionais de família e de papéis sexuais. Elas requerem participação mais ativa dos maridos no lar, reformando a dinâmica da nova família; todavia, enfrentam o conflito em conciliar seus papéis profissionais com o papel de mãe.
Para a geração entre 40 e 59 anos, a noção de prazer está centrada na relação a dois. Quanto ao papel da mulher, esse grupo reflete a postura imposta pela tradição batista: ser mulher são ser mãe e doméstica. Já a geração de pessoas entre 60 e 80 anos demonstrou gerenciar o próprio prazer, apropriando-se das “bem venturas do cotidiano”, segundo a autora. Nicolau (2002) aponta que, para essas mulheres, prazer não está vinculado à noção de sexo propriamente dito, mas à sexualidade como lazer, intimidade, afetividade e relação a dois.
De modo geral, a pesquisa revela que as mulheres entrevistadas assumem a educação como elemento essencial à emancipação e à não subordinação ao gênero masculino. Nicolau (2002) sugere que, quanto maior o nível de escolaridade da mulher, maior sua autonomia e insubordinação. No discurso oficial batista, o corpo feminino está recluso à esfera doméstica, com função sexual associada à reprodução. Mas, na prática, a pesquisadora constatou que
essas mulheres não sentem tal obrigatoriedade, utilizando métodos anticonceptivos para evitar filhos. Notou uma abstenção sobre a discussão do aborto; as mulheres que se colocaram contra tal prática provocada, basearam suas argumentações em relatos bíblicos e padrões religiosos; as que se colocaram a favor, refletem tal possibilidade em casos restritos. A pesquisadora conclui que, nessa categoria temática, permearam os valores religiosos para o posicionamento das mulheres.
Na discussão sobre casamento, entre as entrevistadas o evento deve ser firmado em laços de amor e cooperação mútua, e é objeto de satisfação sexual e realização pessoal. Todavia, para elas o divórcio cabe em casos de violência, maus tratos e adultério, embora tenham afirmado que o casamento é instituído por Deus, e que não deve ser dissolvido. Houve o levantamento do questionamento sobre o privilégio aos casados dentro da igreja, em que os programas privilegiam pais, mães e filhos, excluindo mulheres solteiras e divorciadas. Nesse aspecto, Nicolau (2002) sugere que não haja espaço para novos modelos familiares dentro dos modelos religiosos batistas.
Por fim, a pesquisadora aponta que nas três gerações são percebidos comportamentos conflituosos e ambigüidades, ainda que com adequações e remodelamentos à modernidade. Percebeu que essas mulheres buscam aproximar o ideal de mulher batista imposto pela Igreja ao seu real cotidiano: visto as lacunas entre discurso oficial religioso batista e a vivência cotidiana, há um esforço em conciliar doutrina, fé e prática, “... apontando para a construção de uma sexualidade que se desenvolve dentro deste campo de reconciliação ou de conciliação entre as partes integrantes do universo religioso” (IDEM, 2001: 176).
Ryan (1999), questionando-se sobre o modo pelo qual alguém pode ser um “bom” católico no mundo contemporâneo, tendo em vista as divergências entre os ensinamentos transmitidos pela igreja Católica e a realidade das pessoas que são católicas, aponta para o conflito interno e externo que tal desacordo gera. Em seu texto, a autora lembra de sua avó como uma brilhante mulher de negócios, positiva e forte, e justifica isso com o fato dela ser uma boa católica. Uma vez que era imigrante, sua fé ofereceu-lhe estabilidade e esperança na nova terra, dando unidade não apenas à ela, mas a toda comunidade estrangeira, através das reuniões sociais e religiosas. Descreve um mundo simbólico e comportamental que no passado remetiam à identidade católica. Mas aponta as modificações do mundo contemporâneo desde a geração de sua avó até os dias atuais, e as reformas pelas quais a Igreja passou após o Concílio Vaticano II, concluindo que as práticas e ritos católicos desapareceram ou se transformaram, não mais podendo ser utilizadas como instrumento de
reconhecimento de um bom católico. Aponta para a nova ordem daquilo que significa ser católico nos dias atuais.
Para Ryan (1999), as principais virtudes almejadas pelo católico são a fé, a esperança e caridade, seguidas pela pureza e virgindade. Mas quanto ao que identifica o católico no mundo moderno, a autora apresenta novas virtudes, como a prática social da fé e a justiça.
Entretanto, a autora revela que sofreu em sua experiência pessoal ao deparar-se com o conservadorismo da Igreja, quanto às crenças e práticas do católico, ao que questiona sobre a possibilidade de alguém ser divergente da doutrina e ensinamentos católicos e, ainda assim, ser um católico praticante. O texto preocupa-se com a definição do que significa ser católico, remetendo aos santos e mártires como modelos de pessoas que divergiram da Igreja em certo momento, mas que tornaram o mundo melhor.
A autora remete ao fato do distanciamento entre a Igreja e muitos católicos, dada a realidade moderna e as posições da instituição frente a ela. É apontado o sentimento de abandono vivido pelos fiéis, a insegurança sobre a identidade de católico, e o conflito de consciência frente às diferenças entre o que ensina a Igreja e o que pensam as pessoas. Por fim, ressalta as dificuldades para buscar apoio em membros do clero, por que o católico se sente distante da igreja, e a dificuldade para a leitura da Bíblia, enfrentada pelos fiéis que desconhecem o contexto em que os livros foram escritos, bem como as camadas de significações do Livro Sagrado Católico. Em sua conclusão, afirma que são várias as mudanças da doutrina da Igreja motivadas por novas concepções sociológicas. Há a necessidade de mudança frente o auto-conhecimento do ser humano contemporâneo, sem a perda dos princípios e valores evangélicos fundamentais. Questões sobre sexualidade e distribuição de poder entre homem e mulher pedem mudanças, mas a igreja divide-se em grupos de progressistas, moderados e conservadores em relação a elas, dividindo-se e dificultando acordos. O texto destaca como fundamental para ser um bom católico: amar o próximo, não buscar vingança, ser humilde e pacificador, e perdoar. Não se deve destacar práticas e doutrinas sem considerações das conseqüências para a vida de toda a Igreja.
Rodrigues (2003), em tese de mestrado observa um hiato entre o discurso e comportamento sexual de mulheres católicas e as orientações doutrinárias da Igreja, salientando conflitos entre a crença religiosa ensinada sobre sexualidade e o desejo das mulheres em experimentarem outra dinâmica no que se refere à sexualidade. No entanto, essas pessoas não manifestavam insatisfação com a Igreja no que se referem à fé, ritos e
valores. Motivada a compreender os processos envolvidos na integração da sexualidade à personalidade da mulher católica moderna e o modo como se dá a formação da identidade sexual e religiosa no contexto moderno, pesquisou a questão da identidade religiosa da mulher contemporânea. Apresenta a hipótese de que a mulher católica moderna realiza uma releitura da fé, criando novos paradigmas de crenças firmados em valores cristãos aproximados aos da modernidade, a fim de legitimar a própria sexualidade e integrá-la à personalidade de modo psiquicamente saudável. Para compreender a relação entre identidade religiosa e sexualidade feminina na prática cotidiana de mulheres católicas modernas, Rodrigues (2003) pesquisou 22 mulheres católicas entre 20 e 60 anos, de classe média e nível médio superior de escolarização, residentes na cidade de São Paulo. Foram aplicados 22 questionários e 5 entrevistas semi dirigidas, que visavam investigar o histórico pessoal de experiências sexuais e crenças religiosas, bem como nível de conhecimento doutrinal da Igreja a respeito da sexualidade humana, opiniões, condutas e sentimentos por elas manifestados em suas experiências.
Em suas considerações finais, visualizando o contexto de crise de identidade, destradicionalização, insegurança e falta de confiança percebido na modernidade, Rodrigues (2003) afirma que a mulher católica atual realiza um processo de readaptação da religião, atribuindo novas interpretações aos valores cristãos, permitindo experiências no campo da sexualidade condizentes com sua realidade, e reelaborando sua identidade católica. No entanto, ainda que após reflexões pessoais tenham assumido conscientemente condutas sexuais diferentes daquelas orientadas pela doutrina católica, aproximando-se do contexto social da modernidade, em nível mais profundo esse processo revela-se conflituoso e ainda em construção.
Spenser-Arsenault (1999) analisa a construção do significado de ser “católica” para a mulher católica contemporânea, e os conflitos entre os ensinamentos da Igreja e a prática atual dessa mulher, apontando para a discrepância entre a “retórica” e “prática” no que se refere à sexualidade e maternidade. Assinala que isso não abala a identificação religiosa dessa mulher, mas que ela torna-se agente ativo na construção do significado atual da identidade da “mulher católica”.
Seu texto considera o interesse das Ciências Sociais na construção social da vida das mulheres, destacando a comunidade religiosa como instituição importante para compreensão da construção dos papéis sexuais. Particularmente para as mulheres católicas, o significado de ser uma boa integrante da sua Igreja concentra-se na análise de sua vida sexual. Destaca-se a
figura da Virgem Maria como forte influência. Todavia, salienta que o modo como são incorporados os ensinamentos da Igreja na vida da mulher contemporânea ocorrem de outro modo, onde existe o questionamento crítico sobre o ensinamento sem abandono da Igreja, agindo ativamente na construção de suas identidades religiosas e crenças.
Embora o modelo de sexualidade para a mulher católica baseia-se na Virgem Maria, a mulher católica contemporânea reconstrói a imagem mariana tornando-a compatível à realidade atual, sem comprometer sua identificação com a Igreja Católica. A discussão sobre Catolicismo, mulher, sexualidade e maternidade sofrem adaptações do ensinamento Católico.
Depoimentos sobre a sexualidade revelam sentimentos de culpa, conflito sobre ser ou não uma “boa” católica, confissão e associação de sexo à procriação. Mas estes não representam a experiência de todas as católicas, pois há uma diversidade que sugere que em algum ponto da vida dessas mulheres houve uma regulamentação da prática sexual transmitida à mulher católica. O texto traz alguns exemplos de diversidade de opiniões e práticas de diferentes mulheres católicas, em que a autora analisa e discute a rigidez de discurso e a realidade da prática da mulher católica, em que constata que a identidade atual não vincula o compromisso com o Catolicismo e o seguimento de todos os seus ensinamentos.
Alguns depoimentos indicam que “... estar conformada com os ensinamentos da Igreja sobre sexualidade não faz parte de como elas definem o significado de ser uma boa mulher católica” (Spenser-Arsenault, 1999: s.p.), e sugerem uma modernização dos mesmos. Além disso, a autora argumenta que a divergência entre ensinamento católico sobre sexualidade e prática da mulher católica não prejudica a identificação desta enquanto mulher católica confiante, o que sinaliza que ela não pratica o Catolicismo em todas as esferas de sua vida.
Baseando em outros autores, Spencer-Arsenault (1999)indica que a maternidade tem sido socialmente construída como o primeiro papel do feminino, e destaca o esforço da Igreja para a mulher católica reconhecer a importância em seu papel de mãe, contribuindo para a construção da maternidade da mulher católica, inclusive com a veneração à Virgem Maria. A autora discute que ter a Virgem Maria como exemplo de maternidade intensifica a crença de que a maternidade é essencial à vocação de mulher e dá um especial status às mães da igreja Católica. Sugere que como mãe, a mulher católica tem seu papel na instituição.
O texto conclui que quando questionadas sobre ensinamentos católicos e sexualidade e maternidade, as mulheres do estudo discordam da igreja sobre a contracepção, mas escolhem
incorporar os ensinamentos católicos sobre maternidade em suas vidas. Embora diferentes, suas escolhas não são problema para a construção do que lhes significa serem “boas mulheres católicas”, ou seja, que ela permanece na sua religião em seus termos pessoais, rejeitando a ética sexual da Igreja mas praticando sua fé católica.
Se considerarmos as pesquisas citadas, podemos observar que o campo religioso contemporâneo define-se por um emaranhado de concepções simbólicas, conceitos religiosos, tradições culturais, tecidos tal uma colcha de retalhos de diferentes tons e temas, mas que no conjunto faz algum sentido para o ser humano, solitário e desorientado, inseguro no caos urbano e na velocidade da realidade virtual. Contudo, nota-se uma constante em relação ao papel feminino, de modo bem integrado na psique feminina, na religião e na sociedade: a maternidade.