5. Bruk av de miljørettslige prinsippene (§ 7)
5.7 Konsekvenser av brudd på § 7
A crença de que somos um eu, uma unidade idêntica a si mesma, e, principalmente, uma unidade que é causa, que é origem do pensamento e da ação, é bastante recente. No modo de vida tribal, em que as sociedades ainda viviam em uma relação de continuidade com a natureza, a subjetividade se dava por meio de uma relação de pertencimento: os homens não concebiam a si mesmos senão como parte de uma comunidade, por isso não sofriam quando tinham que se sacrificar pelo grupo. Era como se, cada vez que um homem pensasse, ele o fizesse como grupo; cuidar do grupo, protegê-lo, era cuidar de si mesmo. A consciência de si aparece aqui não como individual, mas como um nó no tecido complexo das relações sociais. O eu é um lugar na comunidade, que existe para e pela comunidade (MOSÉ, 2012, p. 122).
O “self” é uma mistura de sentimentos, afinidades e comportamentos que raramente se encaixam de maneira perfeita; qualquer tentativa de unidade tribal reduz essa complexidade pessoal (SENNETT, 2012, p. 14).
Conforme aponta Mosé (2012), o uno (o sujeito) não existe fora da relação com os outros com os quais convive e a partir dos quais se individua. Não obstante, esse uno abriga, como indica Sennett (2012), uma multiplicidade de sentimentos, ideias, gostos, opiniões, interesses próprios etc. Do múltiplo se pode dizer, também, que é uma combinação de várias pessoas que se relacionam ou que se apresentam como “nós” no tecido complexo das relações sociais, cada uma com as suas idiossincrasias. O processo de projeto colaborativo em arquitetura depende da
tensão constante entre essas duas instâncias, o uno e o múltiplo, pois são as relações intensas entre os atores participantes que impulsionam o ato criador.
O que se observou no ESCRITÓRIO B foi o embate constante entre: a tentativa de imposição de um esquema advindo das ideias do arquiteto 1 (o líder) e do parceiro externo, de um lado, e as tentativas de negociação levadas a cabo pelos arquitetos 2, 3 e 4, do outro. Uma vez colocada no papel e deixada sob a responsabilidade dos liderados, a ideia desse esquema precisou ser transformada para que atendesse ao conjunto das demandas que deram origem ao projeto. Mesmo correndo o risco da negação do arquiteto 1 (o líder), mesmo com a consciência de que a última palavra em matéria de solução para o projeto seria a dele, os demais arquitetos mencionados negociavam, a todo momento, o que poderia ser feito a partir do que o líder desejava, de fato, que fosse feito. Estabeleceu-se, assim, uma relação de tensão entre a permanência de uma forma/esquema inicial, que se pretendia una, e as transformações promovidas pelos múltiplos agentes: arquitetos e condicionantes de projeto.
Se, no começo do processo de projeto da Escola de Medicina, havia a intenção particular do arquiteto 1 de dar um sentido pré-existente à forma arquitetônica através da adoção de um esquema, esse sentido foi recriado quando os arquitetos 2, 3 e 4 abordaram o problema de projeto a partir de suas próprias perspectivas: quando lançaram mão de uma malha estruturante. Se o esquema influenciou os desdobramentos do processo, mais influente se fez o jogo dos deslocamentos e tentativas de disposição dos espaços na malha, no interior desse invólucro esquemático definido a priori 30.
A integridade da ideia (ou esquema) utilizada como esteio para o processo de projeto se desfez na interação entre essa ideia e os arquitetos e os condicionantes com os quais trabalharam. Conforme afirma Brandão,
A ideia pode ser um fio condutor inicial, mas, tanto quanto ela, qualquer outro dado do projeto pode ser um fio condutor de desenvolvimentos não previstos. Porém, para que uma ideia atue como condicionante, é necessário que ela seja instrumentalizada, ou seja, desenhada, escrita, falada, etc. Enquanto existente no reino platônico das ideias, ela não é operante. Assim que ela deixa esse lugar, uma vez presente no mundo no qual as demais contingências (condicionantes da forma) também se encontram, ela está sujeita a moldar e se deixar moldar por elas (2008, p. 236-237).
30 Essas questões foram analisadas na subseção 4.2.2 – Momento 2: episódios colaborativos entre
A atitude tomada pelo arquiteto 1, líder do ESCRITÓRIO B, remete às posturas idealistas em projeto questionadas por Brandão (2008). Para os arquitetos idealistas, manter a integridade do propósito inicial (a materialização do insight) se torna mais decisivo do que a atividade sensível afeita ao risco, ao erro e a invenção. Essa postura objetiva a “eliminação do erro e a manutenção da suposta substância, para além dos acidentes da forma, no momento em que essa está sendo criada na mesa de trabalho” (SANTOS, 2013, p. 12). Ou seja, a “ideia geradora” é utilizada no processo de projeto como “motor e regra”, de modo a regular as tomadas de decisões durante todo o percurso criativo (PIÑÓN, 2006).
Todavia, durante o processo de projeto, cada nova tentativa de solução pode gerar novos problemas localizados não antevistos no início das atividades, uma vez que, assim como afirma Cross (1999), o processo é, sobretudo, uma atividade exploratória. Se, diante de um “território desconhecido” (CROSS, 1999) o arquiteto mobiliza ideias que, a princípio, sejam confortantes, porque se apresentam como um solo firme, nos primeiros passos essa firmeza pode começar a se desfazer. As soluções idealizadas, quando do início do processo, podem se tornar insustentáveis com o passar do tempo e com as negociações estabelecidas entre o(s) arquiteto(s). Cabe ao arquiteto escolher lidar ou não com o novo, com o imprevisível.
O caso do ESCRITÓRIO B mostrou que o processo de projeto colaborativo em arquitetura pode ser uma experiência de criação coletiva onde o que está em jogo não é a obediência a uma ideia, e sim as múltiplas relações entre os participantes que atuam na conformação do objeto demandado, dentro de um contexto específico. Essa visão é compatível com a de Corrêa (2014, p. 16), o qual afirma que “projetar é uma atividade corporal [...] uma atividade mais relacional e menos individual”. Durante o processo de projeto, todas as pessoas envolvidas, postas em relação umas com as outras, impregnam o gesto daquele que projeta. Da mesma forma, o desenho, seja na tela do computador ou no papel, está impregnado de todas as trocas e negociações realizadas entre as pessoas.