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Como já foi defendido na seção anterior, para a “reprodução social da reprodução do capitalismo”, é necessário o engajamento pessoal dos indivíduos. Dessa forma, é pertinente a essa perspectiva o conceito de sociabilidade defendida por Simmel (1983) compreendido como um processo interacional dos indivíduos com a estrutura social, ao ser partilhado em processos distintos. Isso ocorre na medida em que os sujeitos dividem ações e valores baseados no convívio, na interação que se concretizam nas condições similares nas quais se encontram. Boltanski e Chiapello (2009) acreditam que esses fatores consolidam o “espírito ao capitalismo” ao ampliar a voracidade à competição em busca do lucro, ao se transformar em fenômeno sociocultural desejado, compartilhado e socializado.

Contudo, cabe a advertência de Han (2015), em que os homens nessa modalidade se tornaram empresários de si mesmos, como sujeitos de desempenho e de produção exigido diuturnamente pela “sociedade da performance”. Boltanski e Chiapello sublinham ainda o caráter da profissão e de crença, pelas quais o capitalismo forja o espírito na criação de um conjunto articulado de justificações pacíficas que são adotadas por seus seguidores na busca do lucro, sejam eles dominadores ou dominados.

O espírito do capitalismo é justamente o conjunto de crenças associadas à ordem capitalista que contribuem para justificar e sustentar essa ordem, legitimando os modos de ação e as disposições coerentes com ela. Essas justificações, sejam elas gerais ou práticas, locais ou globais, expressas em

86 termos de virtude ou em termos de justiça, dão respaldo ao cumprimento de tarefas mais ou menos penosas e, de modo mais geral, à adesão a um estilo de vida, em sentido favorável à ordem capitalista. Nesse caso, pode- se falar de ideologia dominante, contanto que se renuncie a ver nela apenas um subterfúgio dos dominadores para garantir o consentimento dos dominados e que se reconheça que a maioria dos participantes no processo, tanto, os fortes como os fracos, apoiam-se nos mesmos esquemas para representar o funcionamento, as vantagens e as servidões da ordem na qual estão mergulhados. (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009, p. 42).

Wood (2001) compreende que a competição pelo domínio do mercado não é oportunidade e nem escolha, mas é compulsão, pois há um lado em que o imperativo da reprodução do capitalismo é determinado pelo mercado, do outro, a maioria dos indivíduos, cujos meios de vida estejam monetarizados devem entrar nas relações do mercado para obter, inclusive, os meios imediatos de subsistência. A constância desse fenômeno vai paulatinamente transformando as mentalidades, a cultura, os modos de vida e os comportamentos sociais. Significa dizer que suas influências atuam além da fronteira estritamente produtiva e econômica ao se constituírem em uma força moral, e penetram na família, na religião e no Estado (SANTOS; MENESES, 2010).

A ideologia dominante do capitalismo influência vários campos da vida cotidiana e faz emergir os desejos atomizadores das necessidades dos indivíduos. Ramose (2010) anota que a competição, nesses moldes, faz com que a dignidade humana esteja cada vez mais subordinada e comprometida aos impulsos influentes na busca de lucros ilimitados. Beckert (2012) acrescenta que a economia capitalista é uma ordem social que acena com recompensas da ação cotidiana baseadas na competição, criatividade, mercantilização e na disponibilização de crédito, que na moderna economia simula a antecipação dos desejos, mesmo que isso não represente a real capacidade de provimento.

A clássica contribuição sociológica de Simmel (2006) encontra espaço nessa perspectiva, ao tratar da constituição da individualidade e das condições de liberdade expressas no universo microssocial de temas que fazem sentido para a constituição da sociedade, e das motivações para que os indivíduos ajam e interajam entre si. Há razões explícitas para acreditar que os indivíduos exerçam muitas influências definitivas na constituição da sociedade. E é a partir do cruzamento dos valores macro e microssociológicos abstratos e concretos que se fundem e formam os elementos interacionais basais para a constituição da sociabilidade, e tornam a sociedade minimamente possível. Mesmo autônomos, os indivíduos apontam para alguma forma de engajamento, cujas interações são partilhadas pelos contínuos encontros sociais sintetizados por meio da noção da sociação.

87 A sociação é, portanto, a forma (que se realiza de inúmeras maneiras distintas) na qual os indivíduos, em razão de seus interesses – sensoriais, ideais, momentâneos, duradouros ou teleologicamente determinados – se desenvolvem conjuntamente em direção a uma unidade no seio da qual esses interesses se realizam. (SIMMEL, 2006, p. 60).

Representam desse modo, as estratégias e as formas, que os indivíduos isolados encontram para se relacionar e agir conjuntamente, buscando um interesse comum de vida, e alguma forma de intercâmbio trivial que os identifiquem. A interação proporciona a manifestação do “[...] impulso de sociabilidade, em sua pura efetividade, se desvencilha das realidades da vida social e do mero processo de sociação como valor” (SIMMEL, 2006, p. 64). A sociabilidade, nesses termos, torna compreensível a relação estabelecida entre as esferas da vida cotidiana e do trabalho. Para Simmel (1983), a sociabilidade é abordada pela ótica do prazer proporcionado aos membros de uma mesma classe social, pois,

[...] através do veículo dos impulsos ou dos propósitos, forma e desenvolve os conteúdos e os interesses materiais ou individuais. As formas nas quais resulta esse processo ganham vida própria. São liberadas de todos os laços com os conteúdos; existem por si mesmas e pelo fascínio que difundem pela própria liberação destes laços. É isto precisamente o fenômeno a que chamamos sociabilidade. (SIMMEL, 1983, p. 168).

A constituição da sociabilidade é um processo lento e complexo, segundo as concepções de Simmel (1983, 2006). O agrupamento elaborado por Alves (2013) a partir das contribuições de Simmel se torna extremamente pedagógico, para delinear e explicitar a extensão de cada um deles, a começar pela: a) necessidade de autonomização interacional dos indivíduos, aqui compreendida como o ato de se liberar de determinados laços das realidades da vida cotidiana; b) os interesses, as necessidades individuais e os conteúdos podem fazer com que os indivíduos se unam por meio da sociação, mas para converter em sociabilidade, os indivíduos devem estar sociados por interesses específicos e conectados por sentimentos e satisfação mútua; c) a sociabilidade exige que os indivíduos simplesmente desejem estar sociados; d) a sociabilidade se desatrela da realidade da vida social e ao racionalismo, e ocupa uma posição figurada na vida dos indivíduos e poupam determinados conflitos; e) por meio da sociabilidade é possível chegar a uma solução de um conflito; f) a sociabilidade está sujeita às individualidades, entre os quais ela ocorre na busca do êxito da ocasião sociável no instante limitado às pessoas em sociação; g) o indivíduo deve desempenhar uma posição de auto-regulação; e ) na sociabilidade os significados individuais fora do âmbito da sociação não adentram na sociabilidade; i) as motivações são

88 elaboradas alternadamente de acordo a realidade social cotidiana, e j) a sociabilidade em relação aos outros indivíduos deve ser discreta e reservada.

Dessa forma, muitos dos elementos acima elencados se constituem em influências toleradas pelos indivíduos na busca em atender as necessidades subjetivas, que conduz a via do lucro econômico atomizado e individualizado. É o traço comum da sociabilidade predominantemente capitalista, ao se tornar parâmetro norteador da sociedade contemporânea. As concepções simmelianas expressam em forma e conteúdo, no âmbito da sociação, e põe em relevo o conteúdo ontológico do indivíduo traduzido sob os impulsos, interesses, finalidades e tendências. Esses elementos auxiliam a influir ou mediatizar os efeitos sobre o outro, ou então, receber as implicações dos outros indivíduos (SIMMEL, 2006). Podemos aventar que diante das inúmeras expressões de sociabilidade do mundo do capital, desponta uma nova reconfiguração ontológica dos indivíduos expressa por meio de um conjunto de relações nascidas em decorrência do intercâmbio múltiplo. A modelagem de reprodução da sociabilidade capitalista se expõe nos processos sociais relativamente autônomos, conduzida pela primazia ontológica do mundo econômico.

O principal espírito-guia e articulador da sobrevivência imediata ocorre por meio das transações mercantis pela via dos excedentes comercializáveis. Nesse caso, da venda do trabalho ou das mercadorias dele oriundo dirigidos na busca de produzir dinheiro, como elemento de reprodução social, tema que vai ser abordado na seção a seguir.