Laurie Frick é uma artista de dados (data artist) que explora seus próprios padrões automonitorados para criar instalações artesanais em três dimensões
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(FIG. 22). São obras que, segundo a artista, propõem a reflexão sobre privacidade, vigilância e principalmente sobre as transformações que os algoritmos vêm operando na vida em sociedade e na maneira como construímos nossas subjetividades. Em 2014, a artista lançou o FRICKbits103, um aplicativo móvel gratuito para iOS que transforma os dados de geolocalização registrados pelo celular do usuário em gráficos artísticos, semelhantes ao que ela produz artesanalmente, como forma de oferecer obras “bonitas e personalizadas” (FRICK, on-line)104.
Figura 22: “Walking”, obra da artista Laurie Frick baseada no monitoramento de atividades físicas105
Fonte: <http://www.lauriefrick.com/walking/>
O trabalho de Frick se torna interessante para compreendermos o fascínio que os dados monitorados exercem hoje em dia. Compreendemos esse
103 Disponível em <http://www.frickbits.com/>. Acesso em 15 jan 2016.
104 O sugestivo slogan do app –“Pegue de volta os seus dados e transforme-os em arte!” – traz
implícito a ambiguidade de que, mesmo obtendo uma obra de arte sobre nossos dados,
dificilmente teríamos eles “de volta”, já que o requisito básico para acessar e baixar esses
aplicativos móveis é justamente ceder dados pessoais diversos e aceitar os termos de uso e políticas de privacidade, que como já foi apontado em alguns estudos, quase ninguém lê (SILVA, LUCIANO, WIEDENHÖFT, 2014; SILVA, 2012).
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encantamento como um efeito de presença gerado pelo impacto visual dos dados, capaz de provocar o processo de “desfamiliarização” (defamiliarise)106 da vida (RETTBERG, 2014).
Segundo Rettberg, desfamiliarização é a noção proposta pelo teórico literário russo Victor Shklovsky para designar o estranhamento que as obras de literatura e de arte devem provocar nas formas de ver o mundo, já que, quanto mais nos habituamos com algo, nossa percepção tende a se tornar automatizada, o que acaba esvaziando a relação sujeito/objeto até deixá-la sem vida: “[... ] habitualização devora obras, roupas, móveis, uma esposa e o medo de guerra"107 (SHKLOVSKY apud RETTBERG, 2014, p. 26). A arte, então, defende Shklovsky, seria uma das maneiras de sairmos da percepção automática, “[...] tornando os objetos não familiares pela alteração da forma como os percebemos” (MATTAR, 2012, on-line).
O fato dos aplicativos móveis gerarem gráficos e outros esquemas visuais sobre atividades corriqueiras do cotidiano – comer, beber, dormir e andar por exemplo – pode fazer com que elas adquiram um novo significado em nossas vidas, por destacar aquilo que, de tão ordinário, passam muitas vezes despercebido. Assim, ver os dados em uma “moldura” – não só de um quadro, mas também das telas dos smartphones, tablets ou computador –, torna-se uma metáfora interessante para compreendermos esse processo, na medida em que as atividades adquirem novas formas pelas quais passamos a percebê-las.
Ter esses dados objetivados em uma apresentação visual, como em um gráfico ou uma tabela, ajuda-nos a ver o que está indo bem e o que é preciso melhorar. Serve como uma bússola para nos guiarmos em meio a imensidão de dado gerada atualmente. Dessa forma, argumentamos aqui que esses gráficos funcionam como filtros que destacam aquilo que, de tão ordinário, passa muitas vezes despercebidos aos nossos olhos.
Usando como exemplo os filtros que a maioria dos aplicativos de fotos dispõe, Rettberg (2015, p. 26) afirma que o fascínio que eles exercem sobre nós
106 Segundo Rettberg (2014), “ostranenie”, no original russo. Nos trabalhos em português,
também encontramos a tradução “estranhamento”.
107 Tradução nossa para “Habitualization devours works, clothes, furniture, one’s wife, and the
143 reside, justamente, na capacidade que têm em “desfamiliarizar” nossas vidas: “O filtro deixa claro que a imagem não é inteiramente nossa. A imagem filtrada nos mostra a nós mesmos, ou os nossos arredores, com a visão de uma máquina”108. Por esse motivo, os filtros podem servir como um termo analítico para entender a “cultura algorítmica”, à medida que funciona como metáfora para ilustra as maneiras pelas quais a tecnologia pode visibilizar, alterar, ocultar ou distorcer textos, imagens e dados (RETTBERG, 2015).
Por outro lado, mesmo que os dados filtrados distorçam a nossa imagem à sua própria maneira, como afirma Rettberg, compreender esses gráficos e tabelas abre a possibilidade de vermos uma parte de nosso corpo e do cotidiano de forma destacada e objetivada, o que permite mudar as ações de nossas condutas diárias. Afinal, uma vez compreendidos, esses dados possibilitam a adequação das nossas atividades cotidianas – como cuidar da hidratação caso a pessoa perceba que não costuma beber a quantidade recomendada de água por dia –, ou mesmo de situações mais pontuais, como no caso do estresse: há aplicativos que medem os batimentos cardíacos ao se colocar o dedo na lente da câmera e, cruzando esses dados com informações sobre sexo e idade, oferece sugestões imediatas para diminuir a tensão, que vão desde respirar profundamente até uma pausa no trabalho para fazer uma caminhada.
Da mesma forma que o olho mecânico de Galileu rompeu para sempre a barreira que se colocava entre homem e natureza, fazendo surgir um universo novo, até então desconhecido, os gráficos gerados pelos aplicativos móveis, nos fazem ver um corpo que não veríamos se não fosse os processos transorgânico operados pelos algoritmos. É nesse sentido que podemos compreender a atualização que esses dados promovem sobre o corpo como efeito de presentificação. Um corpo constantemente monitorado e permanentemente atualizado e, portanto, presentificado.
Essa objetivação do corpo, porém, não pode ser totalmente objetivada, pois estabelecemos uma relação de afetos com esses dados. Em outras
108Tradução nossa para: “The filter makes it clear that the image is not entirely ours. The filtered
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palavras, uma vez visualizados, os dados são capazes de gerar novos tipos de laços afetivos entre as pessoas e suas atividades diárias:
[...] automonitoramento não é apenas sobre a captura de fluxos de dados que transforma o corpo em informação; ele também alimenta essas informações de volta para as pessoas em um formato visual, possibilitando e promovendo vínculos emocionais e intensificando-os109 (RUCKENSTEIN, 2014, p. 77).
Ruckenstein (2014) cita como exemplo as pessoas que usam pedômetros ou equivalentes e que desenvolvem uma relação mais afetiva com a prática de caminhada a partir do momento em que passam a visualizar o número de passos no seu dia a dia. A visualização de dados – tanto durante determinada atividade física, quanto aqueles gerados a partir de padrões hábitos, ou seja, resultantes de monitoramentos contínuos – é apontada como como fator de motivação também, principalmente por permitir correlações com eventos cotidianos, que provavelmente não seriam percebidas sem o automonitoramento por meios dos aplicativos, conforme podemos perceber na declaração de um usuário:
A capacidade de ver um gráfico quando eu estava em atividade, até agora, foi o maior motivador para eu me tornar mais ativo. E associar quais alimentos eu havia comido na noite anterior a uma má pesagem (combinando os dados do Vigilantes do Peso e do Fitbit) abriu meus olhos em mais de uma ocasião” (SITE eHOW BRASIL, 2013)110.
Dessa forma, os dados funcionam como um dispositivo para intervenção, mas são construídos e negociados permanentemente com os usuários e não tomados como relatórios factuais. As pessoas reconhecem os seus cotidianos nesses gráficos e, ao verem dados de monitoramento cardíaco mapeados por um período de tempo, por exemplo, são capazes de apontar os eventos que resultaram em picos de estresse, bem como aqueles que proporcionaram a
109 Tradução nossa para: “[...] self-monitoring is not only about capturing data flows and
transforming the body into information; it also feeds this information back to people in a visual
format, enabling and promoting emotional attachments and intensifying them”
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recuperação. Para Ruckenstein, a visualização dos dados serve para mediar a releitura do presente. Isso ocorre porque essas informações são apresentadas de modo a se tornar significativos para nós: "Usamos os dados para ajustar as histórias que nós contamos a nós mesmos sobre as nossas vidas, e usamos as histórias sobre nossas vidas para ajustar, justificar ou compreender nossos dados”111 (RETTBERG, 2015, p. 71).
Assim, se Manovich (2001) considera o banco de dados e a narrativa como “inimigos naturais”112, Hayles (2007) defende que eles são “naturalmente simbióticos” pelos mesmos motivos:
o banco de dados pode construir justaposições relacionais, mas é incapaz de explicá-los e, por isso, necessita da narrativa para tornar seus resultados significativos. Esta, por sua vez, precisa do banco de dados como aliado na cultura do novo milênio para aumentar a sua autoridade cultural e testar a generalidade dos seus insights113.
Nesse sentido, diante da crescente importância dos fluxos de dados no cenário contemporâneo, os modos de visualização dessas informações se tornam centrais nesse processo, já que, somente quando visíveis e inteligíveis, esses dados podem agir enquanto mediadores para a tomada de decisões rumo a vida mais saudável e serem “negociados” enquanto parte de nossas narrativas de vida.