4. Methods
4.2 General procedures
Como já foi referido, neste estudo busca-se a compreensão global do fenómeno, sem o fragmentar ou descontextualizar.
Por isso, o trabalho desenvolveu-se através de uma análise de carácter indutivo, e sem qualquer pretensão de alcançar leis generalizáveis (Almeida & Freire, 2003). De facto, o estudo compreensivo aponta para uma forma de abordagem que se aproxima da proposta por Max Weber, mediante a análise dos processos sociais, tendo em vista a captura da lógica social de um fenómeno, o que implica uma focalização centrada nas “racionalidades dos sujeitos” (Guerra, 2006).
Assim, essa busca de compreensão do fenómeno requer, desde logo, que se tenha em consideração o sentido dado pelos indivíduos às suas próprias condutas (Schnapper, 2000). Na verdade, ao referir-se aqui uma análise sem pretensões explicativas, o que se está a negar é a explicação baseada na relação do tipo causa/efeito. No entanto, pode falar-se de uma “compreensão explicativa” quando se trata de procurar apreender o “contexto significativo” do agir, ou de desenvolver uma análise interpretativa do sentido ou do “contexto significativo” a construir, para um tipo frequente de fenómeno. Assim, ao contrário do que se passa, por exemplo, com os organismos, os fenómenos sociais encontram-se “para lá” da definição de regras funcionais entendidas como leis capazes de prever ocorrências por via das relações de causalidade encontradas. No plano social (como no campo psicológico) está-se, precisamente, no âmbito da compreensão do comportamento de indivíduos, logo, no plano da explicação interpretativa (Weber, 2005).
Ora, no que respeita às abordagens biográficas, pode referir-se uma grelha de leitura compreensiva, de busca de “nexos de causalidade” estabelecidos entre díspares acontecimentos, o que propiciará o acesso à compreensão de um determinado percurso. Não obstante, isso não significa que se esteja a procurar uma explicação causal no sentido positivista do termo (Digneffe & Beckers, 2005). Na verdade, o que se persegue é a busca do “sentido da plausibilidade” dos resultados (Guerra, 2006), procurando encontrar uma grelha de inteligibilidade para o fenómeno. Saliente-se que, para o precursor das chamadas “biografias orais”, Dilthey, o plano social apenas se pode apreender através de uma abordagem compreensiva, empenhada em decifrar o sentido que o ser humano atribui às suas acções (Ruquoy, 2005).
Além disso, os métodos de inquérito quantitativamente tratados (aqui utilizados para avaliar personalidade e vinculação) conferem objectividade mas reduzem algumas dimensões do fenómeno. Já os métodos biográficos são complementares dos anteriores,
enquadrando a problemática nos acontecimentos de vida dos indivíduos (Agra & Matos, 1997) e possibilitando a captura dos aspectos tácitos e subjacentes ao seu comportamento.
Assim, pode afirmar-se que o método biográfico, conforme referiu Sartre, possibilita a captura das mediações entre os funcionamentos individual e social. Por isso, o relato biográfico permite o acesso ao grupo a que o sujeito pertence e, fundamentalmente, possibilita a compreensão do que é pertencer a esse grupo. É um método que propicia a apreensão do particular, do marginal, das regularidades e roturas, dos interstícios e equívocos, como elementos fulcrais do social. Em suma, pelo método biográfico é possível captar o sentido e a função do acto social, por via da experiência vivida e do discurso que permite transmitir esse acto (Digneffe & Beckers, 2005). Entre os métodos biográficos, o biograma constitui-se num instrumento que permite a recolha de pequenas narrativas sobre as fases de vida entendidas como cruciais pelo sujeito, mediante uma orientação que paute o discurso do indivíduo em torno dos temas centrais, neste caso, o consumo de substâncias e as práticas anti-sociais. Fala-se, aqui, do biograma temático. É fundamental referir que a biografia abarca a narrativa e o comportamento, e o biograma revela-se, assim, com grande potencial para seguir uma análise processual do percurso do sujeito, feita na primeira pessoa (Manita, 2002). Por isso, privilegiou-se o método biográfico como forma de alcançar a possibilidade de identificar as regularidades biográficas ao longo do percurso dos sujeitos, bem como as ocorrências mais significativas para os próprios, sempre contextualizadas no âmbito das suas histórias de vida (Agra e Matos, 1997; Manita & Cardoso, 2004; Smith, 1994). O biograma pode incluir a história familiar, o percurso escolar, o percurso de consumos, a história de desvios, os afectos e outros aspectos que, ao longo de um eixo cronológico, compõe a vida do indivíduo (Tinoco & Pinto, 2001). Trata-se de um instrumento com um potencial único que possibilita a sistematização das regularidades biográficas do indivíduo, bem como a identificação dos momentos de mudança e dos acontecimentos que para eles tenham contribuído (Tinoco & Pinto, 2003). Acresce a vantagem de que a tradução biográfica do sujeito encontra no biograma a possibilidade de abarcar a sequência de acontecimentos de vida (Agra & Matos, 1997) e, simultaneamente, propiciar a organização de tal informação. Assim, a ideia é a de recorrer ao método biográfico, de recolha de informação de índole qualitativa, para proceder à análise compreensiva do fenómeno.
Contudo, nada implica que os métodos quantitativo e qualitativo sejam mutuamente exclusivos. Pelo contrário, eles podem ser complementares (Boudon, 1989). Por isso, pareceu essencial atender à objectividade proporcionada por instrumentos psicométricos de tratamento quantitativo, capazes de fornecer indicadores objectivos, sem que contudo fosse descurada a componente única e irredutível das trajectórias de vida e das experiências subjectivas. Procurou-se, assim, uma leitura que se inscrevesse num paradigma que, segundo Sandage e Hill (2001), fizesse uso da linguagem e do seu significado subjectivo, tendo em consideração as distintas e individuais construções e interpretações da realidade. Por tudo quanto foi dito, houve o cuidado de cruzar os dados obtidos através dos instrumentos psicométricos, de tratamento quantitativo, com os dados de cariz qualitativo recolhidos a partir da entrevista e da observação, que constituíram a base de construção do biograma.
Desta forma, o que aqui se procurou foi alcançar uma triangulação metodológica cuja complementaridade proporciona uma vigilância epistemológica, obtida pelo cruzamento dos resultados alcançados pelos dois métodos, qualitativo e quantitativo. Por triangulação de métodos, entenda-se o recurso a mais do que um método, na mesma investigação. Neste caso, pode falar-se em triangulação inter-métodos, uma vez que se usaram, no mesmo estudo, os métodos quantitativo e qualitativo (Reidy & Mercier, 2003). Esse cruzamento de dados quantitativos e qualitativos torna-se pertinente, possibilitando, de acordo com Rossman e Wilson, uma mútua corroboração, parecendo ser essa a forma de alcançar o desenvolvimento de análises favorecedoras da emergência de diferentes formas de pensar o problema e os resultados, potenciando uma abertura a díspares pontos de vista sobre a problemática (Miles & Huberman, 1994). Posteriormente, da constelação dos dados, procurar-se-á edificar o biograma representativo do ideal-tipo desta população, ou seja, um quadro que, não sendo a descrição do real e empiricamente observado, constitui antes o meio pelo qual se poderá aceder a uma melhor compreensão do fenómeno. Trata-se de elaborar um quadro esquematizado do objecto de análise, neste caso, apelando aos resultados da observação sistemática do real através dos chamados métodos qualitativos, quantitativos ou (como neste estudo) de ambos, criando-se um instrumento de conhecimento essencialmente compreensivo. É claro que importa ter presente que o ideal-tipo é uma construção abstracta, não sendo, segundo Weber, a realidade histórica ou “autêntica”, mas antes um quadro de pensamento que possibilita a compreensão de uma determinada realidade
(Schnapper, 2000). Criado com o objectivo de constituir um instrumento de comparação em relação ao objecto de estudo no âmbito da análise tipológica apresentada por Weber, o ideal-tipo servirá, neste estudo, para esquematizar o quadro de inteligibilidade do fenómeno, ao qual não corresponde um esquema de padrões de conduta, mas antes um quadro esquemático de compreensão de comportamentos, atendendo às similaridades e às regularidades entretanto encontradas nos participantes deste estudo.
Assim, não se busca a definição de um padrão comportamental e de funcionamento, na medida em que se trata de um grupo heterogéneo. Procura-se, antes, definir o ideal-tipo baseado nos aspectos mais frequentemente encontrados no modo de funcionamento dos participantes no estudo, bem como nos seus percursos existenciais. Para tanto, tendo em vista os objectivos previamente definidos e perseguindo a obtenção de respostas para as questões inicialmente colocadas, procedeu-se à elaboração de um plano de pesquisa, a fim de que todo o processo fosse orientado através de fases antecipadamente pensadas e estruturadas, de acordo com o esquema da figura 5.2.
Figura 5.2. O plano da pesquisa.
Neste caso, pôde seguir-se uma orientação definida por etapas, como a formulação do problema e o levantamento de questões centrais de investigação, a escolha de métodos e de técnicas de recolha de dados, bem como a análise dos dados para, posteriormente, se passar à reformulação do problema, agora à luz das informações entretanto obtidas. Contudo, esta sequência prende-se apenas com o ideal básico que o investigador se propõe seguir (Fortin, Côté & Vissandjée, 2003). Neste caso, todo o processo se foi desenvolvendo de forma flexível, de acordo com o que será apresentado na terceira e última parte deste trabalho, relativa à contribuição empírica.
Problema/Ideia inicial (frequente associação: consumo de drogas e práticas delituosas)
Questões de investigação: 1) Percurso e funcionamento típicos (…)? 2) Predominância de padrão de vinculação
(…)? 3) Similaridades nalgumas dimensões da personalidade (…)? Revisão da literatura Condução da entrevista e observação de comportamentos não verbais Administração dos instrumentos Selecção da amostra, e dos instrumentos Estudo empírico Organização/Codificação da informação Tratamento da informação Partilha/Divulgação dos resultados do estudo Descrição e interpretação da informação Discussão e conclusão Vantagens e limitações do estudo Dados qualitativos Dados quantitativos Definição de objectivos
PARTE C