Com a publicação de Curso de Linguística Geral de Ferdinand de Saussure em 1916, houve na Europa uma viragem, não apenas no campo da linguística mas também (e por consequência), no campo da didática das línguas. Saussure mostrou que a língua deve ser analisada como um sistema de regras composto por elementos lexicais, gramaticais e fonológicos, organizados em níveis hierarquizados, onde cada elemento está determinado em função das suas combinações com o nível superior, orientando a linguística na direção do Estruturalismo.
Em plena Segunda Guerra Mundial, o governo dos EUA decretou a necessidade de formar rapidamente falantes fluentes das línguas dominantes nos palcos de operações de guerra; por isso, em 1943, desenvolveu-se um novo programa didático, chamado ASTP (Army Specialized Training Program), hoje em dia chamado “áudio-oral”, adaptado ao esquema didático do método de imitação-memorização. O ASTP combinava metodologias do Método Direto, teorias do Estruturalismo e um método antropo-linguístico desenvolvido a partir dos estudos de idiomas indígenas225, comprovado por Bloomfield; foram ensinadas aos militares mais de 50 línguas através deste método226.
Foram tão clamorosos o sucesso e a propaganda do ASTP que os estudiosos o começaram a adaptar para ser empregue em contextos extra-militares, ou seja, para um público genérico; foi dessa forma que surgiu, nos anos '50, o Método Áudio-Oral.
222 O seu funcionamento deu resultados interessante apenas nas escolas privadas, tornando-se ineficaz nos cursos de LE nas escolas secundárias.
223 GIRARD 1975: 45.
224 Chamada também de “audiolingual”. 225 Language (1933).
226 Grande parte do sucesso do ASTP resulta das peculiaridades de sua aplicação; as aulas duravam de 8 a 12 horas para 8 a 10 semanas nas quais os soldados, divididos em turmas de 8 alunos, não faziam outra coisa senão aprender a língua. Enfatizava-se principalmente a conversação com respeito à leitura e à escrita. Os professores eram sempre nativos e dispunham de diferentes materiais como filmes estrangeiros e emissões rádio. Só eram admitidos no curso alunos com experiência na língua estrangeira num mínimo já adquirida e com um alto nível de inteligência. Outro ponto motivador foi a promoção que os militares recebiam após a conclusão do curso.
Esta nova metodologia tinha raízes nos princípios da psicopedagogia vigente nos Estados Unidos, nomeadamente na psicologia behaviorista de Skinner227 e na linguística estrutural de Bloomfield228; com base nisso, o foco do MAO direcionava-se para a compreensão e produção oral e para a visão da língua como um conjunto de hábitos geridos da relação entre input e output.
Segundo o psicólogo e linguista J. B. Carroll, a metodologia áudio-oral baseia-se em 4 pontos:
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1 Os elementos linguísticos são apresentados antes na forma oral, através de diálogos, e num segundo momento na forma escrita.
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2 A análise científica dos contrastes entre a língua do aluno e a língua estrangeira tem um papel fundamental.
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3 A aprendizagem é suportada por meio de exercícios estruturais sistemáticos. .
4 Recriar na sala de aula situações de comunicação linguística o mais possível parecidas com a vida corrente, para treinar as reações do aprendente.
O primeiro ponto expõe claramente a ordem da aprendizagem da metodologia: ouvir e compreender > falar > ler > escrever. O terceiro ponto obriga o professor a reduzir o vocabulário para que as estruturas gramaticais se fixem.
No terceiro ponto demonstra-se como o ensino pode ser gradual, suportado por meio de exercícios estruturais229; sendo a gramática apresentada por exemplos e analogias (modelo indutivo), o vocabulário era selecionado e extraído de frases completas e não de listas. A literatura já não era o objetivo do ensino-aprendizagem das línguas estrangeiras.
O último ponto parece incentivar o diálogo, treinar a componente da interação oral, mas geralmente o MAO privilegia uma conversação planeada como estudo
227 Ou “psicologia comportamentalista”. Trata-se da observação do comportamento, nomeadamente, das ocasiões em que uma determinada resposta tem como consequência uma recompensa. Segundo Skinner, este tipo de análise pode ser suficiente para explicar cada forma de aprendizagem, incluindo até a linguística.
228 Leonard Bloomfield é considerado o padre da linguística estrutural norte-americana; o seu estudo tem origem no processo indutivo e na observação, como pontos fundamentais na análise da linguagem. O falante age numa determinada situação traduzindo a sua intenção específica numa forma linguística à qual o destinatário responde interpretando-a, em princípio, ao nível auricular e depois ao nível cerebral, sem que a sua reação seja necessariamente linguística. Essa observação mostra as infinitas possibilidades do universo linguístico, relevando por um lado uma incapacidade de previsão de um comportamento específico e, por outro, uma possibilidade de generalizar os aspetos comuns, mais constantes em amplos grupos sociais.
sistemático das estruturas e não como diálogo livre onde se podem apresentar as estruturas de modo natural; adquirir uma boa pronúncia era fundamental.
O segundo ponto promove o estudo contrastivo mas a respeito da elaboração dos materiais e da formação do professor e não da orientação pedagógica na aula230; o método áudio-oral estava quase privado de traduções entre a LM e a LE.
Caraterística importante desta metodologia residia na grande preocupação do aluno em evitar o maior número de erros; por isso o professor era obrigado sempre a reforçar as respostas corretas dadas pelos alunos e a limitar ao máximo a intromissão da língua materna.
A repetição oral das estruturas apresentadas na sala de aula, chamada “laboratório de línguas”, era um exercício de primeira importância para a memorização e o desenvolvimento do processo de automatização (hábitos linguísticos) da língua.
O papel do professor continuava a ser central, vigiando e guiando o processo de ensino-aprendizagem, elogiando e encorajando o aluno quanto possível. O seu ensino devia ser sequencial, apresentando as estruturas uma de cada vez através da análise contrastiva.
Os materiais didáticos eram inovadores; além do “laboratório de línguas”, eram utilizados recursos visuais, como filmes em língua original, fitas e recursos auditivos, como os programas radiofónicos. O manual do estudante era raramente usado, nunca nos níveis iniciais, contrariamente ao manual do professor que era sempre consultado porque continha a sequência da estrutura das lições.
Embora alguns aspetos desta metodologia sejam ainda hoje utilizados (como o uso dos recursos visíveis e auditivos, e o “laboratório de línguas”), o MAO recebeu algumas críticas; a principal focalizava-se nos exercícios estruturais que aborreciam os alunos, diminuindo-lhes o interesse e a motivação pelo estudo, ignorando a sua autonomia própria, obrigados a repetir e nunca a produzir espontaneamente, fossilizando assim o ensino numa rotina de automatismos sem espaço para a expressão individual231. A memorização limitava o desenvolvimento da proficiência sendo a língua não apenas formadas por hábitos. Uma outra crítica ao método áudio-oral estava nos
230 deias retomadas por Fries e Lado como base da Análise Contrastiva.
231 O ensino sistemático da gramática através de exercícios estruturais não é um ensino implícito da língua, mas um ensino implícito das regras descritivas da gramática da língua em objeto (BESSE e PORQUIER: 1984).
resultados da compreensão oral dos alunos que não eram superiores aos das metodologias anteriores.