Dentre as técnicas de contar histórias, são o Teste das Fábulas e o TAT que mais possuem indicadores sobre a presença da depressão. Na primeira, os critérios são os seguintes (Cunha & Nunes, 1993):
- Há omissão de algum elemento perceptual das lâminas das Fábulas; - Os personagens das Fábulas são mais fracos do que realmente aparentam; - O passarinho da Fábula 1 cai no chão e não consegue voar;
- O passarinho da Fábula 1 mostra-se desamparado e precisa de ajuda;
- O passarinho da Fábula 1 fica gritando no chão e espera que seus pais venham buscá- lo;
- O passarinho da Fábula 1 cai da árvore, machuca-se ou morre;
- Na Fábula 8, não há possibilidade de o progenitor do sexo oposto permitir a realização do desejo edípico.
No TAT, as lâminas que podem indicar a presença de experiências depressivas são a prancha 3 – personagem curvado sobre o divâ (RH) – e a 17 – a ponte (MF) – devido ao estímulo de tais lâminas possibilitarem o surgimento desses conteúdos (Silva, 1989). Para Rapaport (1976), a prancha 18 – mulher que estrangula (MF), e homem atacado por trás (RH) – também pode evocar vivências depressivas e não só agressivas. Já Chabert (1998/2004) considera a lâmina 3 e a lâmina 5 – mulher com a mão na maçaneta da porta (universal) – estímulos latentes que indicam a maneira pela qual os sujeitos ligam os afetos depressivos às expressões verbais2.
Para a população brasileira, as evidências mais significantes que indicam a presença de estados depressivos no TAT são (Ebert, Miller & Silva, 1984):
- Recusa para elaborar histórias;
- Desfechos das histórias sempre de natureza negativa;
- Restrição da atividade ideativa, tornando o conteúdo da história significativamente pobre e prejudicado;
- Surgimento do conteúdo da história somente por inquérito; - Respostas monossilábicas às perguntas do inquérito; - Histórias fantasiosas e sentimentais;
- Temas de amor, felicidade e tristeza;
2 Representação-palavra opõe-se à representação coisa que, por sua vez, refere-se a uma das características do
- Tipo de pensamento ilusionista, mágico e irreal;
- Perseveração de frases ou conteúdos ligados ao pecado e à moral;
- Preocupação com personagens percebidos como fracos ou mentalmente doentes; - Predomínio de experiências subjetivas.
Rapaport (1976), também, chegou a conclusões similares sobre os indicadores dos estados depressivos. Entretanto, comenta que outros indicadores, também, podem revelar a presença da depressão. São eles:
- Restrição de temas; - Histórias tristes; - Histórias curtas;
- Espanto frente a pranchas escuras ou sombrias; - Sentimentos de culpa;
- Auto-acusações e auto-censuras; - Medo de ficar só e de envelhecer; - Medo de ser incapaz.
Chabert (1998/2004), sustentada pelos trabalhos de Shentoub, fez uma análise das concepções sobre o inconsciente e sobre a metapsicologia freudiana e relacionou-as com o fenômeno da projeção nas técnicas idiográficas, dentre elas o TAT. Partindo dessa relação, Chabert escreveu alguns modos de se apreender as operações psíquicas por meio de categorias do discurso. Essas categorias, que foram feitas a partir dos tipos de discurso, também chamadas de “Séries” (quatro ao todo: A, B, D, E), revelam as três modalidades de organização psíquica, a saber: a neurose, a psicose e as patologias limites e/ou do narcisismo. Isto significa que as características das histórias são reagrupadas em categorias (Séries) que indicam a estrutura de personalidade do sujeito.
Por exemplo, os discursos das Séries A e B referem-se ao funcionamento neurótico, pois, nas histórias, são evidentes os conflitos entre as instâncias psíquicas – inconsciente, pré- consciente, consciente e id, ego e superego, sendo que os da Série A evidenciam a manifestação do desejo, e os da Série B, os conflitos entre essas instâncias. Os discursos da Série C revelam que, nas histórias, o sujeito procura evitar entrar em contato com o conflito de natureza intrapsíquica. Os discursos da Série D indicam um funcionamento menos organizado, da ordem da psicose, observado em histórias cujo discurso se mostra ilógico e com o funcionamento preponderante dos processos primários descritos por Freud (Chabert, 1998/2004).
Nesse método de análise, a presença da depressão pode ser observada nos discursos da Série C, que indicam tanto a dificuldade do sujeito em utilizar representações para lidar com os afetos depressivos quanto o superinvestimento de tais afetos, num apelo ao outro. Além disso, os mecanismos maníacos, no sentido kleiniano do termo, podem sustentar a narração e a construção das histórias com o objetivo único de evitar o contato com os sentimentos e as ansiedades depressivas.
Circunscrevendo os discursos da Série C como pertencentes às patologias limites e do narcisismo, Chabert (1998/2004) define as seguintes características das histórias depressivas:
- Presença de projeção maciça e direta, cujo eu é o personagem da história; - Negação dos desejos do eu - personagem frente aos objetos;
- Idealização narcísica do eu - personagem que é enaltecido e visto como independente dos objetos;
- Apego aos outros personagens das histórias;
- Não são admitidas diferenças entre herói e personagens secundários, nem mesmo diferenças de gênero.
Semelhante à apresentação dos indicadores de humor depressivo nos Quadros 2 e 3, decidiu-se apresentar um resumo dos estudos que indicam a presença da patologia citada nas técnicas de contar histórias, com o mesmo objetivo que tivera a primeira compilação dos indicadores no grafismo.
Quadro 4 - Indicadores de Humor Depressivo nas Técnicas de Contar Histórias TAT (Cunha &
Nunes) TAT (Chabert) TAT (Ebert, Miller & Silva) TAT (Rapaport)
- Omissão de algum elemento perceptual das lâminas das Fábulas; - Personagens das Fábulas são mais fracos do que realmente o são; - O passarinho da Fábula 1 cai no chão e não consegue voar;
- O passarinho da Fábula 1 mostra-se desamparado e precisa de ajuda; - O passarinho da Fábula 1 fica gritando no chão e espera que seus pais venham buscá-lo; - O passarinho da Fábula 1 cai da árvore, machuca- se ou morre; - Na Fábula 8, não há possibilidade de o progenitor do sexo oposto permitir a realização do desejo edípico, gerando sentimentos de exclusão no personagem principal - Presença de projeção maciça, cujo eu é o personagem da história; - Negação dos desejos do eu – personagem frente aos objetos;
- Idealização narcísica do eu - personagem, que é enaltecido e visto como independente dos objetos; - Apego aos outros personagens das histórias; - O outro é o duplo eu, ou seja, não são admitidas diferenças entre herói e personagens secundários, nem mesmo diferenças de gênero.
- Recusa ao elaborar histórias;
- Desfechos das histórias sempre de natureza negativa; - Restrição da atividade ideacional; - Surgimento do conteúdo da história, somente, por inquérito; - respostas monossilábicas às perguntas do inquérito; - Histórias fantasiosas e sentimentais; - Temas de amor, felicidade e tristeza; - Tipo de pensamento ilusionista, mágico, irreal; - Perseveração de frases ou conteúdos ligados ao pecado e à moral; - Preocupação com personagens percebidos como fracos ou mentalmente doentes. - Restrição de temas; - Histórias tristes; - Espanto frente a pranchas escuras ou sombrias; - Sentimentos de culpa; - Acusações a si mesmo e censuras; - Medo de ficar só e de envelhecer;
- Medo de ser incapaz.
Dos estudos antes apontados, os únicos que apresentam dados de pesquisa são os de Cunha e Nunes (1993), na adaptação do Teste das Fábulas para a população brasileira e o de Ebert et al. (1984) sobre as características do TAT, na mesma população. Os outros estudos não apontaram dados de pesquisa sobre as concepções desenvolvidas acerca da depressão.