Esta seção se destina à elaboração de revisão teórica sobre a temática Empreendedorismo Criativo, trazendo seu conceito para a abordagem de questões referentes ao seu desenvolvimento, apresentando peculiaridades sobre as abordagens existentes.
Kellet (2006) traz uma simples e eficaz definição do que vem a ser o chamado empreendedorismo criativo, ao afirmar que “Creative Entrepreneurship has become a term that refers to the activity of entrepreneurs within Creative Industries businesses.”2 (p. 7). De forma direta, a autora traz a junção entre os conceitos de empreendedorismo e indústrias criativas sem grandes construções, apenas incorporando à noção de negócio/empresa tradicionalmente associada à atividade empreendedora o conceito de indústrias criativas.
2 Em tradução livre: “Empreendedorismo Criativo tornou-se o termo que se refere à atividade de
58 DiMaggio (1982) e Bilton (2007) optam pelo termo cultural entrepreneurship ao aludir à atividade empreendedora relacionada às organizações com atuação no âmbito das indústrias criativas. Sob seu ponto de vista, Bilton (2007) trata três características básicas a esses empreendimentos devido a sua natureza e trabalho criativos: self-management;
rethinking the value chain e motives and values3.
Desta forma, um empreendimento cultural é caracterizado pela rede de pequenas organizações ou empreendedores individuais, gerando um “estilo empreendedor” em que atividades gerenciais e operacionais se sobrepõem, gerando uma estrutura organizacional mais solta, se comparada com as organizações tradicionais.
Além disso, não há, nesse tipo de empreendimento, um posicionamento determinado dentro da cadeia produtiva, ocorrendo novamente uma sobreposição, agora de processos produtivos, de forma interativa, reforçando a característica múltipla desses empreendimentos.
Por fim, motivos e valores distintos impregnam tais organizações ao se observar a necessidade de conciliar objetivos comerciais com prioridades artístico-sócio-pessoais, criando um híbrido de atuação voltado para a satisfação pessoal ao mesmo tempo em que busca o lucro.
Zardo e Korman (2005) ressaltam, em uma abordagem comportamental, que nem sempre são artistas os sujeitos das atividades empreendedoras, havendo grande carga emocional envolvida no projeto, citando a necessidade de expressão de suas paixões como força motriz de tais empreendimentos.
Desta forma, “[...] na maioria das vezes, os empreendedores culturais são pessoas que prescindiram do raciocínio calculante, escolheram estar distantes do cálculo, dos planejamentos financeiros, dos números como terreno essencial para o trabalho e a vida.” (ZARDO; KORMAN: 2005, p. 45)
Neste sentido, as autoras elencam um conjunto de características próprias de tais empreendedores, expostas no quadro 19.
3 Limeira (2008) opta pela terminologia auto-gestão e empreendedorismo; forma de estruturação da cadeia de
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Característica Descrição
Dificuldade de pensar objetivamente sistemas e
processos Prevalência da subjetividade Resistência à idéia do
planejamento Visão de planejamento como prisão em contraposição a uma necessidade de liberdade Crença em uma força
interventora Dificuldade de lidar com a figura do cliente, com adaptações em projetos pois o considera fruto de uma expressão criativa pessoal Dificuldade em definir os
concorrentes Consideração da expressão artística como única, sem concorrentes. Não considera os demais produtos culturais como possíveis substitutos indiretos Relação ambivalente com a
idéia da arte associada ao dinheiro
Dificuldade de atribuir valor ao produto cultural ou de adaptá-lo para se tornar mais rentável
Relação de intensidade e emoção com a “alma” do
negócio
Dificuldade de dissociar trabalho de prazer, levando a um grande envolvimento com o produto final
Negócio cultural como
“segunda atividade” Dualidade entre um trabalho fixo, "tradicional" para subsistência e rendimentos e dedicação à cultura nas horas livres Relação exclusiva com a
parte técnica do negócio Prioridade de atividades ligadas à criação e expressão artística, deixando atividades administrativas em segundo plano Dificuldade de dissociar-se
do produto e de seu trabalho
Dificuldade de dissociação entre o produto e o próprio self do indivíduo QUADRO 19 - Características do chamado empreendedor cultural I
Fonte: Adaptado Zardo e Korman (2005, p. 45-48).
Vale citar o que Bertini (2008, p. 24) chama de “crise de identidade”, composta pela dualidade artista/empreendedor existente nos indivíduos que se dedicam a projetos culturais, fato que pode gerar dificuldades para a implementação do empreendimento. O autor argumenta pela separação de tais funções como forma de otimização de resultados e de profissionalização de tais empreendimentos.
Côrtes et al (2010), analisando as alterações ocorridas na indústria fonográfica, principalmente, devido aos avanços tecnológicos compartilhados, ressalta a importância de um perfil a que chama "músico empreendedor"4, representando a necessidade de compreensão pelo músico dos aspectos administrativos inerentes à produção de um produto cultural.
Brant (2004) por sua vez não chega a usar o termo empreendedor em sua análise sobre a espiral cultura e respectivas ações. Contudo, dentre os diversos agentes citados pelo autor, encontram-se características próprias do empreendedor, tais como criação, atuação, viabilização e difusão das atividades e produtos culturais.
Por fim, a Lei nº 17.615 de 04 de julho de 2008, que dispõe sobre a concessão de incentivo fiscal com o objetivo de estimular a realização de projetos culturais no Estado de Minas Gerais, traz em seu artigo 2º uma definição de empreendedor cultural, envolvendo as
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60 seguintes características genéricas: ser pessoa física ou jurídica estabelecida nos limites territoriais do Estado; com atuação, promoção ou execução de projetos culturais.
Paiva Júnior e Guerra (2010), em estudo sobre a produção cinematográfica de Pernambuco, exemplificam bem a dinâmica da ação do indivíduo que chamam de empreendedor cultural. Segundo o estudo, tais produções seguem:
O esforço coletivo para sua realização, baseado fortemente na cooperação e na confiança dos envolvidos;
O resgate de vivências pessoais, com aproximação entre o que eles produzem e o contexto onde vivem atribuindo grande peso à história pessoal e conhecimentos adquiridos que influenciam as ações presentes, trabalhando a reSsignificação com maior aproximação às identidades locais;
A promoção do pensamento, promovendo um diálogo entre produtor, produto e espectador;
O desenvolvimento tecnológico, valendo-se das facilidades do cinema digital;
O Estado como ator primordial na produção, assumindo papel de financiador dos projetos.
Os autores concluem por uma dinâmica multifacetada em que se considera a interação de aspectos culturais, sociais, econômicos e políticos, assumindo, então, o empreendedor, uma postura multidimensional e interativa.
Wilson e Stokes (2002), analisando o mercado musical no Reino Unido, apresentam características associadas ao trabalho dos chamados empreendedores culturais, resumindo-as em quatro características básicas, listadas no quadro 20. Essas representam situações ideais para a promoção de um ambiente propício para o desenvolvimento de criatividade e inovação necessárias para a atividade empresarial.
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Característica Descrição
Demarcação confusa entre consumo e produção
A criatividade é tida como desenvolvimento incremental que modifica e adapta o que já havia sido feito. Este fato possibilita o produtor criativo ser também um consumidor ávido.
Demarcação confusa entre o que é ou não trabalho
Por se tratar de um processo intelectual altamente influenciado pela criatividade, há dificuldades em se estabelecer parâmetros entre momentos de trabalho e de descanso.
Combinação entre valores individualistas e trabalho
colaborativo
Apesar de a produção cultural estar focada em habilidades centrais, tais particularidades ganham utilidade quando combinadas com outras, em um trabalho em equipe.
Ser parte de uma
comunidade criativa maior Há a indução de processo de rivalidade e competição assim como promove cooperação e colaboração. QUADRO 20 - Características do chamado empreendedor cultural II
Fonte: Adaptado Wilson e Stokes (2002, p. 5-6).
Cauduro (2003) exemplifica bem com seu estudo o conjunto de características existentes na realidade de um empreendedor cultural. A autora identifica competências organizacionais - aqui entendidas na concepção desenvolvida por Pralahad e Hammel (2000) - associadas às suas categorias de análise, conforme disposto no quadro 21.
Categorias de Análise Competências Organizacionais Associadas
Sobrevivência
Desenvolver produtos ou serviços secundários Possuir estrutura flexível
Pró-atividade
Ter projetos de reserva que possam ser rapidamente desenvolvidos
Continuidade
Transmitir credibilidade ao mercado
Desenvolver produtos de qualidade (no sentido de produção artística) Ambiente de aprendizagem contínua
Desenvolver uma marca, uma identidade Inovar constantemente
Administração financeira adequada (administrar recursos financeiros adequadamente) Criar constantemente novas oportunidades para inserir-se no mercado
Ter trânsito político Ter a noção de serviço Estrutura
Ter estrutura administrativa sólida Ter parceiros e fornecedores capacitados Possuir uma equipe consolidada
Espaço Ter seu próprio espaço físico Criar novas possibilidades de espaços para apresentações Ter trânsito político (no caso de licitações)
Patrocínio
Capacidade para captar recursos
Prestar contas adequadamente ao patrocinador
Desenvolver uma relação de proximidade com o patrocinador Ter um(uns) patrocinador(es) permanente(s)
Mídia
Estar na Mídia constantemente Ter visibilidade
Saber lidar com a mídia
QUADRO 21 - Categorias de análise e competências organizacionais associadas ao gestor de indústrias culturais/criativas
62 Gomes (2008), finalizando, apresenta um levantamento interrelacionando as noções Economia Criativa e Teoria Eclética do Empreendedorismo no qual se encontram listados os principais fatores responsáveis pelo surgimento de novas oportunidades voltadas ao empreendedorismo criativo, conforme disposto no quadro 23.
Fatores Determinantes Descrição
Capital Humano Talento, Criatividade e Conhecimento Tecnologia Inovação e Progresso Tecnológico
Diversidade Cultural Convivência, Tolerância à diversidade e Percepção dos valor simbólico intrínseco Demandas de Mercado Necessidade de Novos Produtos e Serviços de Natureza Criativa
Políticas Públicas Ações Governamentais de Incentivo Globalização Transformações Econômicas e Sociais QUADRO 22 - Fatores determinantes para o empreendedorismo nas indústrias criativas Fonte: Extraído de Gomes (2008, p. 70)
A aplicação do conceito de empreendedorismo à economia criativa, levando, por conseguinte, à construção do chamado empreendedorismo criativo, torna possível a percepção das peculiaridades existentes em empreendimentos focados na criatividade. Além de características comuns à ação empreendedora, percebe-se que a presença de um sujeito criativo, ou seja, um músico, um pintor, um diretor ou produtor de vídeos, interfere na percepção do negócio em si, levantando questionamentos a cerca, por exemplo, da sobrevivência, da continuidade, da estrutura e até mesmo da necessidade de patrocínio a projetos oriundos de empreendimentos criativos, como se apreende através das oportunidades criadas por leis e editais de incentivo à cultura.