Temos como parte do processo diagnóstico a aplicacaçao de um instrumento construído pelo professor responsável pelo serviço de intervenção precoce da clinica psicológica da Universidade Federal de Uberlandia sob o titulo de F.A.D.I., o qual poderá ser utilizado no momento em que o profissional julga mais adequado dentro desta fase diagnóstica.
Considerei que o encontro para aplicação da Ficha de Acompanhamento do Desenvolvimento Infantil (3ª sessão) constituiu-se em um momento sagrado para este trabalho no sentido de desmistificação do quadro de Alice. Toda a sustentação anterior de que Alice era uma criança que teve um desenvolvimento normal até a cirurgia foi posta à prova, quando se verificou que a filha não teve o desenvolvimento por eles anteriormente mencionado. É impressionante o que se passa neste campo no momento em que há a intervenção da terapeuta sobre a permanência do quadro de Alice. A observadora tem uma crise de tosse e não consegue permanecer na sala, precisando ausentar-se para depois retornar. Creio que o momento foi de muita tensão e Alice assume o mal-estar dos pais, que apresentam certo entristecimento ao concordarem conosco como podemos ver:
Cena (3ªsessão): Pai se inclina para beijar Alice, ela faz um som gritado
parecendo som de animal. A terapeuta continua fazendo perguntas do instrumento. A mãe é quem responde mais as questões e o pai fica mais mobilizado com Alice. Ele a pega, tirando-a da posição deitada e colocando-a no colo. Senti neste momento que minha intervenção lhes tinha tocado profundamente, estando o pai mais sensibilizado, com ar de desânimo. Após estes momentos contundentes a mãe de Alice pareceu entrar em contato com seu mundo interno e pode falar do quanto se sentiu inadequada à filha, por não lhe oferecer uma posição mais propícia para amamentá-la, prestando mais atenção à televisão. Começou a observar que Alice estava ficando zarolha e procurou por um especialista que, segundo ela, levou-a a pensar que Alice estava ficando com os olhos tortos porque queria ver a televisão virando a cabeça para trás. A mãe se culpou neste momento dizendo: Erro meu, tinha que prestar mais atenção nela . Provavelmente, momentos depressivos da mãe fizeram com que ela se ligasse mais na televisão que ao bebê. Alice, na ausência de um objeto que pudesse olhá- la, busca uma fonte de luz (televisão) para se agarrar, como o movimento descrito por Esthér Bick em que diz que o bebê, em suas primeiras semanas, busca um ponto para fixar-se para não sentir-se flutuante, solto no espaço. Observou-se que o colo para Alice era um colo que não a continha, levando-lhe à sensações provavelmente muito assustadoras, de desmantelamento. Isto tudo resultou em que Alice desistisse da busca do olhar materno da mãe, afastando e se postando em outro mundo , um mundo solitário, mas também o único que lhe restava.. Foi se delineando o quadro histórico de Alice: um bebê que nasceu com duas perfurações, isto é, fissura e perfuração pulmonar; que sofreu privação de leite, de possibilidades de movimento (após colostomia não foi mais posta no chão, o que favoreceu seu enrijecimento) e, finalmente, privação do olhar materno, do contato afetivo, o que a conduziu para o mundo do autismo. Como se sabe um bebê só faz a conversão do dois olhos quando é olhado . Aprende a olhar no olhar do outro. Outro que não se apresentou para Alice e que a deixou sem a possibilidade de se sentir desejante nesse olhar. Consequentemente, ficou sem investimento
narcísico que a auxiliasse na constituição de seu mundo psíquico. Alice permaneceu não vista na sua posição de sujeito, não desejada, não fazendo parte do circuito desejante de um outro, ficando ligada ao mundo das coisas, em lugar de pessoas, o que resultou na utilização de defesas autísticas, como já evidenciado.
Alice era uma criança que fisicamente assemelhava-se a um bebê de aproximadamente um ano e que estaria começando a dar os primeiros passos. Deixava clara sua preferência de estar no chão a estar no colo do pai. Segundo os pais, se deixassem, ela passaria o dia todo no chão sem reclamar. Acredito que o chão-superfície dura e fria possibilitava que se sentisse mais segura, sem perigo de vazar do colo . Vejo aqui que havia certa movimentação psíquica coincidente entre os pais e a filha, ou seja, eles buscando-se agarrar algo concreto (trauma pós-cirúrgico) e ela, por sua vez, a superfícies concretas, mais passíveis de serem encontradas. No princípio das sessões até praticamente à aplicação do instrumento, os pais de Alice mantinham-se em uma postura de tentar a qualquer preço principalmente a mãe, acreditar que as dificuldades da filha eram devidas a vários fatores externos (cirurgia, falta de crianças para brincar, colostomia). O pai tentou introduzir possibilidades para pensar se algo diferente não se passava no mundo interno de Alice, o que leva a mãe entrar em uma posição defensiva, como na terceira sessão:
Cena (3ªsessão): Pai comenta sobre o fato de Alice não chamar por
ninguém.
Mãe: fala que ela não chama por ninguém, mas beija até sem pedir, não beijando às vezes, quando se pede.
Vejo que a mãe trava uma luta consigo mesma e com o marido, para manter sua crença que tem uma filha com leves problemas.
O interesse manifesto de Alice é por objetos inanimados como tomadas e parafusos do sofá, sendo que pega outros brinquedos e os lança aleatoriamente
sem ligar-se a eles. A mãe, em concordância com o pai, significa as tomadas como sendo carinhas e que é por isto que a filha gosta. A criança vê cara onde não existia e não encontrava onde haveria de ter. Para os pais trazia o insuportável , que era ver uma criança que nasceu duplamente furada , imperfeita. Aqui percebo os rudimentos da desistência de Alice do mundo dos seres vivos, prendendo-se a um mundo frio, desvitalizado mas que era constante e poderia tranqüilizá-la. Diferentemente do humano, que a tratava de forma distante e fria, não lhe oferecendo espaço suficiente para estabelecer relações afetivas. O aspecto da desistência de Alice de ser uma criança viva não é pertencente apenas ao mundo emocional da mãe, mas também ao do pai, só que este se apresentava mais velado:
Cena (2ª sessão): Pai levou João-Bobo para Alice dar tchau. Alice abre a
boca fazendo que vai morder o boneco, mas não morde. Pai comenta que se for para Alice dar tchau, vamos ficar esperando o dia todo (tom de brincadeira,
sorrindo), mas que acreditamos ser a verdade de seus pensamentos não assumidos publicamente. Parece que para o pai, a filha era alguém que para se ter qualquer produção exigia grande tolerância, pois era lenta, e qualquer investimento poderá não ter retorno.
Foi percebido que nesta família, se algo pudesse ser vivido pelo casal, se repercutiria diretamente em Alice e que os três teriam assim as mesmas sensações.
Cena (2ª sessão): Mãe fala que parece que quando ela e o pai estão
brigando Alice se assusta e que quando estão felizes ela parece feliz. Fala que é o tom de voz que assusta Alice e comenta sobre uma vizinha, de quem Alice não gosta, porque fala alto. Diz que é baiana. Pai neste momento fala sorrindo para a mãe que ela é baiana. Também pareceu que ele tinha a fantasia de que a filha
não gostava de sua origem e daquilo que lhe era originário, como por exemplo, a tonalidade da voz. Sua fala soou-nos como se estivesse falando sobre o quanto a
mãe não se aceita, estando sem desejos, desvitalizada apesar de estar gerando outro bebê.
No nosso décimo terceiro encontro, ao final, a mãe nos relata parte de seu sofrimento e de sua história:
Cena (13ª sessao): A mãe estava falando-me sobre as angústias que vem
tendo nesta 2ª gravidez, comentava que já fez vários ultra-sons e que apesar de todos estarem normais continuava com medo. Relatou-me que ficava muito sozinha, e que não tinha ninguém para conversar. Nesse momento, Alice balançou a cabeça, fez o som de garganta, olhou a terapeuta, olhou a observadora. Terapeuta perguntou para a mãe neste momento o que ela pensava a respeito de Alice. Ela respondeu que não pensava mal, só pensava que ela estava demorando a falar e a andar. Comentou que ela é mais brava, que ela
dana com a filha, que o pai não faz isso .
Terapeuta conversa com Alice falando que parecia que havia duas mulheres para se entenderem e deitou-se no chão na mesma posição em que Alice se encontrava, ficando assim enquanto a mãe prosseguia. Ana Manuela falou que já tinha sido encaminhada para tratamento psicológico, só que não foi. Contou que na época em que trabalhava na creche ficava muito com as crianças e sentia muita tristeza, depressão. Relatou que seu pai era alcoólatra, era muito ausente e que ela só ficava com a sua mãe. O pai parou de beber quando foi alertado por um médico sobre seu alcoolismo. Falou que cresceu revoltada e triste e que até hoje sofre, até mesmo com noticiários de televisão. Comentou sobre a notícia do casal que foi morto e estava sendo investigado para ver se foi o filho que matou, disse que chora com este tipo de notícia.
Considero que, apesar de intervenções já terem sido feitas nas sessões iniciais, foi a partir da quarta sessão conjunta logo após a aplicação do instrumento, que pudemos inaugurar uma nova etapa. Nas sessões que se seguiram semanalmente, houve momentos importantes em que os pais de Alice
de seu mundo emocional. A nossa tônica inicial era, através do momento de diagnóstico, evidenciar o quadro psicopatológico grave de Alice e mostrar-lhes possibilidades de entrarem em contato com outra lógica que não a racional, mas a emocional. Criamos para tal um setting em que foi permitindo que aos poucos pudessem apresentar todas suas fantasias, angústias e ansiedades, dispondo de um continente que tentava sustentá-los. Creio que pela primeira vez os pais foram remetidos a um contexto completamente desconhecido, sendo que ninguém no campo( sentido de Baranger), sabia, a priori, o que poderia advir do cruzamento de mundos emocionais distintos (o do pai, da mãe, de Alice, o meu e o da observadora).