Chapter 3. Cognitive theory
3.1 Classification theory
3.2.1 General connectionist theory
3.2.1.3 General connectionist and backpropagation models
Edgar Morin (1997) expunha no século passado que a cultura está ligada de maneira estrita com os meios de comunicação, os quais, por sua vez, realizam a industrialização do simbólico colonizando e interagindo com cada um para a estruturação dos imaginários, por meio das suas mensagens, que estimulam relações de identificação e projeção. O pensador argumentava que as representações espetaculares incitam a identificação do espectador com o que está sendo mostrado como modelo, seja o modelo de conduta, de romance, ou de aparência dos personagens bem sucedidos das narrativas. Simultaneamente, as representações convidam à projeção nas imagens/representações que não podem ser concretizadas por ficarem no plano do imaginário.
No meio de todas essas projeções funciona uma certa identificação; o leitor ou o espectador, ao mesmo tempo em que libera fora dele virtualidades psíquicas, fixando-as sobre os heróis em questão, identifica-se com personagens que, no entanto, lhe são estranhas, e se sente vivendo experiências que contudo não pratica. (MORIN, 1997, p.82)
Dialogando com tais ideias, podemos confirmar a coerência no sentido de que a terceira cultura, como denominou Morin (1997), oriunda “(...) da imprensa do cinema, do rádio, da televisão, que surge, desenvolve-se, projeta-se, ao lado das culturas clássicas – religiosas ou humanistas – e nacionais. (p.14)” foi evoluindo, ou seja, transformando-se, intensificando-se e modernizando-se conforme ocorriam os avanços das técnicas e dos processos sociais. Isso gerou uma ampliação vertiginosa nas formas de comunicação: aumentando velocidade, eliminando distâncias, colocando à disposição um caudal de plataformas, meios, técnicas para construção e veiculação de conteúdos. Essa capacidade de alcance e potencialidade do discursivo dos meios de comunicação os converte em ferramentas/formas influentes na
viabilização das discussões, e o fornecimento de conteúdos diversos, dados e modelos de identidade.
Kellner, ao pesquisar a cultura dos meios de comunicação, compõe um extenso texto no qual detalha, a partir do estudo de vários produtos mediáticos, em especial o cinema, como existe na nossa cultura contemporânea uma predominância dos meios de informação e entretenimento e como estes contribuem com indicativos e discursos para a constituição das identidades.
As narrativas e as imagens veiculadas pela mídia fornecem os símbolos, os mitos e os recursos que ajudam a constituir uma cultura comum para a maioria dos indivíduos em muitas regiões do mundo de hoje. A cultura veiculada pela mídia fornece o material que cria as identidades pelas quais os indivíduos se inserem nas sociedades tecnocapitalistas contemporâneas, produzindo uma nova forma de cultura global. (KELLNER, 2001, p.9)
Portanto, podemos afirmar que as representações geradas dessa relação entre sentidos sociais, culturais, históricos e os meios de comunicação trazem noções sobre as identidades. “Uma concepção distributiva considera as representações mentais, os processos sociológicos e as representações mediáticas como instâncias que incidem umas sobre as outras e retroagem, de forma dinâmica” (SOARES, 2009, p.23). Lopes (2002) defende que a identidade é fruto das práticas discursivas de interação com os outros, “somos heterogêneos e, ao mesmo tempo, fragmentados, e construídos em práticas discursivas situadas na história, na cultura e na instituição” (LOPES, 2002, p.15-16).
Investigar as noções de identidades de beleza veiculadas nos meios de comunicação é uma forma de compreender quais sentidos identitários, ou modelos de identificação, são ofertados sobre (e para) a mulher. Buscamos a compreensão do papel da comunicação mediática em relação à constituição e difusão dos padrões estéticos associados à figura feminina, que atuam como modelos de identificação e portam sentidos histórico-culturais que refletem relações de poder e dominação. Afinal, como Lipovetsky afirma:
(...) as identidades sexuais mais se recompõem do que se desfazem, a economia da alteridade masculino/feminino não é de modo algum arruinada pela marcha da igualdade. O homem permanece prioritariamente associado aos papéis públicos e ‘instrumentais’, a mulher, aos papéis privados, estéticos e afetivos: longe de operar uma ruptura absoluta com o passado histórico, a modernidade trabalha em recriá-lo continuamente. A época da mulher-sujeito conjuga descontinuidade e continuidade, determinismo e imprevisibilidade, igualdade e diferença: a terceira mulher conseguiu reconciliar a mulher radicalmente outra e a mulher sempre recomeçada.” (2000, p.15)
Seguindo nesta vertente, pensando as identidades de gênero a partir da discussão das representações na constituição das subjetividades, a pesquisadora Marinês Ribeiro dos Santos (2011) adota a visão de que as identidades são construídas discursivamente, amparadas nos processos históricos, fatores ideológicos e culturais, e, apesar da normatização e ferramentas de controle, comportam elementos antagônicos que se contradizem. “A constituição de uma identidade depende da negociação entre diferentes representações que coexistem e, muitas vezes, competem entre si” (SANTOS, 2011, p.271). Os conteúdos dos modelos identitários existem no tecido social e são extraídos e retrabalhados pelos meios de comunicação. Mesmo os discursos representativos que trazem parâmetros homogeneizantes podem, simultaneamente, absorver/incorporar o que lhe é oposto. Debruçando-nos, sobre a questão das identidades e das representações mediáticas, encontramos nos textos da coletânea “Nu & Vestido”, organizada por Miriam Goldenberg, discussões que apontam o quanto atualmente os produtos mediáticos massificam uma identidade de beleza para a sociedade.
A mídia adquiriu um imenso poder de influência sobre os indivíduos generalizou a paixão pela moda, expandiu o consumo de produtos de beleza e tornou a aparência uma dimensão essencial da identidade para um maior número de mulheres e homens (GOLDENBERG, 2007, p.8).
A identidade adquire, assim, um caráter de identificação com produtos da comunicação mediática. Mas, os meios assumem diariamente uma representação identitária, conforme interesses próprios, selecionando da polifonia social certos aspectos e veiculando-os como verdades unidimensionais.
Partindo da percepção, fundamentada nas leituras de trabalhos acadêmicos sobre a questão, defendemos a hipótese da existência do padrão de beleza que é imperativo e funciona como mecanismo/imagem identitária sobre a mulher, legitimando alguns valores, subjugando outros, dominando e aprisionando a diversidade populacional das mulheres brasileiras. Mas, se existe este padrão de beleza, quais são suas características? Qual a identidade (ou quais identidades) que ele constrói de mulher?