São vários os diagnósticos de enfermagem levantados por alguns autores relativamente ao período pré-operatório da mulher que vai ser submetida a intervenção cirúrgica por cancro ginecológico ou da mama. Embora constituam duas situações díspares no que respeita ao tratamento e consequências deste, têm aspetos comuns no período pré operatório destas mulheres, que suscitam os mesmos cuidados de enfermagem, nomeadamente as intervenções na diminuição das causas da ansiedade de cada caso particular e a informação adequada a fornecer em cada situação e a cada mulher.
As opiniões dividem-se entre os vários autores relativamente ao que mais preocupa a mulher com diagnóstico de cancro (ginecológico ou da mama) que vai ser submetida a cirurgia. Relativamente ao cancro da mama, vários autores descrevem que a perda deste órgão poderá ser perturbadora dada a sua importância emocional (Cahoon, 1982, citando Engel, 1962). Esta opinião é corroborada por Polivy (1977), que acrescenta ainda que as reações psicológicas relacionadas com a mastectomia
terão a ver com a representação da feminilidade mais do que com o medo de morrer inerente à doença oncológica (Cahoon, 1982, citando Polivy, 1977). Outros autores referem que, embora o diagnóstico de cancro da mama constitua uma situação muito traumatizante, “a maioria das mulheres supera bem a cirurgia e a perda da mama” (Monahan et al., 2007, p. 1820), sendo que “a maior parte das mulheres refere que a imagem corporal ou a sexualidade não constituem preocupação no momento de decidir quanto ao procedimento cirúrgico” (tumorectomia ou mastectomia) (Monahan et al., 2007, p. 1820). O que estas mulheres pretendem inicialmente é a eliminação total do cancro, deixando as questões da autoimagem e a sexualidade para o período pós-operatório (Monahan et al., 2007).
Na revisão bibliográfica efetuada considera-se a informação uma das necessidades principais das doentes no pré operatório, e num artigo de revisão da literatura que analisou dezoito artigos sobre cuidados de enfermagem no pré operatório de mastectomia, os seus autores concluíram que
pacientes que seriam submetidas a mastectomia enfrentavam um turbilhão de sentimentos como o medo, a apreensão, preocupação, ressaltados de maneira tão generalizada nos momentos que antecediam a cirurgia e que sinalizavam diretamente para a falta de informação e esclarecimento referentes à doença, ao tratamento e à extirpação da mama, e que devem ser trabalhados no pré operatório, em especial pela equipa de enfermagem, uma vez que esta se encontra diretamente ligada à paciente. (Santos, Sousa, Alves, Bonfim e Fernandes, 2010, p.734)
Ainda neste artigo, as informações fornecidas às doentes sobre a doença, o tratamento e suas consequências e as implicações para a sua vida social e profissional, são vistas como “imprescindíveis para diminuir a ansiedade e o medo frente ao diagnóstico e tratamento” (Santos, Sousa, Alves, Bonfim e Fernandes, 2010, p.734). Quando estas informações não são fornecidas, as mulheres tenderão a ficar mais frágeis e vulneráveis, o que não favorece o tratamento da doença oncológica pela dificuldade na tomada de decisão e não adesão aos tratamentos. No artigo de Parker, Aaron & Baile (2008) faz-se referência às estratégias de comunicação com mulheres com cancro da mama, mencionando a facilidade que os médicos apresentam em responder às questões que as doentes fazem diretamente, mas tendo dificuldade em avaliar as necessidades das mulheres quando estas as expressam através de reações não-verbais, afirmando ainda que os médicos podem
por isso fazer suposições incorretas sobre as necessidades de informação dos doentes. Estes mesmos autores, aconselham que a informação a fornecer parta da avaliação inicial das necessidades do doente (Parker, Aaron e Baile, 2009).
E há trabalhos onde se evidencia “por parte da maioria das mulheres o desconhecimento da anestesia e da cirurgia, os cuidados pré operatórios e o tempo de permanência na instituição” (Santos, Sousa, Alves, Bonfim e Fernandes, 2010, p.734), que pode e deve ser dada ou reforçada pela enfermeira do BO quando da VPO. Num estudo qualitativo realizado com dezasseis mulheres em pré operatório de mastectomia, com o objetivo de identificar as necessidades de informação que gostariam de receber no pré operatório, concluiu-se que “desde o diagnóstico estas mulheres precisam ser tratadas de forma honesta e humanizada, para que possamos mostrar as vantagens da cirurgia e/ou tratamento e a importância da adesão às terapias” (Barreto, Suzuki, Lima e Moreira, 2008, p. 114) e que para isso “é necessário prestar informações com linguagem acessível ao seu entendimento, clareza nas exposições, por meio de feed-back” (Barreto, Suzuki, Lima e Moreira, 2008, p. 114). O estudo refere ainda a importância dos profissionais de saúde, nomeadamente dos enfermeiros incluírem a doente nas decisões acerca do tratamento da sua doença oncológica, proporcionando assim uma intervenção baseada na excelência de cuidados (Barreto, Suzuki, Lima e Moreira, 2008, citando Arantes e Mamede, 2003). Esta excelência nos cuidados de enfermagem, só acontece quando os enfermeiros deixam de considerar o doente como um objeto que deve receber os cuidados que lhes queremos prestar, ainda que estes sejam os que consideramos melhores e mais eficazes para cada situação. Outros autores lembram que, não devemos ver apenas o corpo biológico do doente, mas sim este como um todo, bio-psico-social e sujeito ativo no seu próprio tratamento. Daí a intervenção da enfermagem no período pré operatório, deve conter
medidas para prevenir ou minimizar a angústia referida pela mulher após o diagnóstico de cancro da mama e que incluem a mobilização de suporte social disponível, a enfâse nas questões psicossociais o fornecimento de informações à mulher, no sentido de facilitar o enfrentamento efetivo da doença e procedimento cirúrgico (…) (Alves, Barbosa, C aetano e Fernandes, 2010, p.734).
A enfermeira durante a VPO, deve “reconhecer as necessidades, os anseios e os desejos sentidos pelas mulheres” (Alves, Barbosa, Caetano e Fernandes, 2010, p.735), de forma a ir de encontro ao que elas necessitam individualmente e planeando os seus cuidados com estratégias de intervenção sistematizada que levam à eficácia dos cuidados de enfermagem e à recuperação destas mulheres. É importante que os enfermeiros, saibam avaliar as dificuldades que as doentes apresentam em assimilar a informação que lhes é fornecida após o diagnóstico de doença oncológica, sendo que alguns autores referem a importância da criação de uma relação empática, promovendo a confiança e reduzindo a ansiedade do doente numa relação que denominam de terapêutica (Parker, Aaron e Baile, 2009). A VPO constitui um momento privilegiado de comunicação terapêutica e relação de ajuda entre o enfermeiro e o doente, direcionada e focalizada neste último, em que o enfermeiro se apercebe das suas principais necessidades e atua de imediato com o objetivo de as satisfazer.