A coletânea de poesias do livro O Estranho foi publicada em 1952, ao acaso, como o próprio Max Martins define no vídeo-depoimento47 gravado em 1996. Ele comentou que a
publicação do seu primeiro livro só foi possível pelo “entusiasmo” de um amigo chamado Oliveira Bastos, o qual o encaminhou para uma tipografia que editava uma revista veterinária. Com o passar do tempo e do entusiasmo do amigo, eis que um dia o dono da tipografia liga para avisar que o livro já estava pronto. Max imediatamente informou-lhe de que não teria dinheiro para pagar a publicação, mas o proprietário convence o poeta a pagar em suaves parcelas. Acontece que O Estranho concorreu no “Concurso anual de Literatura” da Academia Paraense Letras48, lançado em setembro de 1952. Em dezembro, são aprovadas em ata as comissões julgadoras e as obras apresentadas de cada categoria do concurso. A comissão designada pelo Presidente da Academia, de acordo com a Diretoria, para julgar as obras dos candidatos ao concurso de literatura de 1952, categoria poesia, era formada pelos poetas Bruno de Menezes, Adalcinda Camarão e Jurandyr Bezerra. O Estranho, de Max Martins concorria com A palavra esquecida, de Cauby Cruz e Acrosticário e Carmes,de W. Soares Carneiro.
Segundo informa Georgenor Franco, na Separata da Revista da Academia Paraense de Letras, volumes XX e XXI, sobre os concursos literários da Academia, a entrega dos prêmios do concurso anual de literatura de 1952 aconteceu no Theatro da Paz, numa sessão solene grandiosa, em 3 de maio de 1953. Entre os ganhadores dos gêneros premiados (romance, teatro, poesia), na categoria poesia, Max Martins recebeu o prêmio “Vespasiano Ramos” da Academia Paraense de Letras pelo livro O Estranho.
[...] numa sessão solene, que recordamos hoje com a mesma emoção vivida há 24 anos passados. O Silogeu, para comemorar o evento, promoveu, às 9 horas da manhã, naquela casa de espetáculos uma sessão lítero musical. Coube a Adelermo Matos organizar o programa artístico. Conseguimos –
47
O vídeo-depoimento encontra-se no acervo de vídeos em VHS na sala do Museu da Imagem e do Som, prédio do Complexo Feliz Lusitânia em Belém/Pará. As fitas foram gravadas em duas partes, nos dias 18 e 25 de setembro de 1996, no Cine Teatro Líbero Luxardo.
48 As atas das reuniões sobre o concurso e a separata da revista da Academia Paraense de Letras foram copiadas
éramos à época 1.º Secretário da APL – ajudados por Obal Pereira de Barros, companheiro do BASA, que andava afinando os pianos do Teatro da Paz, que, sem qualquer ônus para o Sodalício, o maestro Nino Gaioni, então trazendo do sul uma companhia lírica, dirigisse a Orquestra Sinfônica Paraense, executando a “Sinfonia do Guarani”, de Carlos Gomes, o que, certamente, arrastou ao Teatro gente de toda classe social. Foi um sucesso. E foi debaixo de tamanho êxito, com o Teatro repleto, que a APL fez a entrega dos primeiros prêmios literários, que foram os seguintes: de Romance – “Inglês de Souza” – ao saudoso jornalista Mecenas Rocha, com o livro inédito “Pax”, julgado pelos acadêmicos Inácio de Souza Moita, Luiz Teixeira Gomes e Manuel Lobato; de Poesia – “Vespasiano Ramos” – ao poeta Max Martins, pelo livro “O Estranho”, e menção honrosa ao saudoso Cauby Cruz, pelo livro “A Palavra Esquecida” (FRANCO, s/d, p. 93).
Figura 14: Ata da décima segunda sessão do dia 7 dez. 1952, na qual consta o prêmio de poesia para
O estranho de Max Martins.
Então, como não poderia deixar de ser, por ironia, companheira do acaso, foi com o dinheiro do prêmio dado pela Academia – cujo espírito ele um dia havia negado –, que Max Martins pagou a publicação de sua primeira obra. Então, com uma edição modesta de 300 tiragens, Max não se preocupou em vender os exemplares e preferiu distribuí-los gratuitamente a seus amigos. A pouca tiragem e a não circulação do livro fez com que ele se tornasse um objeto raro. Hoje, um único exemplar desse livro pode ser consultado na sala Eneida de Moraes, no setor de obras raras da Biblioteca Central da Universidade Federal do Pará.
O livro consta de vinte e três poemas, na versão oficial (acervo UFPA – consulta e registro fotográfico). O exemplar já não possui a capa da edição, portanto, o texto escrito por Benedito Nunes nas orelhas do livro, conforme mencionado pelo editor do Jornal Folha do
Norte, em julho de 1952, desapareceu junto com a capa. O que restou dessa edição foi a dedicatória de Max para a também escritora paraense, Eneida de Moraes.
Dos poemas de O Estranho, contudo, vinte fazem parte da edição de Não para
consolar, poemas reunidos 1952-1992, publicada em 1992, pela CEJUP, em Belém. Além de
O Estranho (1952), Não para consolar traz reunidos os livros: Anti-retrato (1960), H’ERA
(1971), O ovo filosófico (1975), O risco subscrito (1980), A fala entre parênteses (1982),
Caminho de Marahu (1983), 60/35 (1985) e Marahu poemas (1991). Continuando o caminho
para a poesia de Max Martins, ainda em 1992, teve lançado em São Paulo o livro Para ter
onde ir (Massao Ohno Editor). Entre esses livros, H’ERA: poemas (Rio de Janeiro: Saga,
1971) e A fala entre parênteses (Belém: Grafisa, 1982) contaram com textos de Benedito Nunes (o primeiro, as orelhas, e o segundo, que foi dedicado a Benedito e a Maria Sylvia Nunes, um prefácio intitulado “Jogo marcado”). Na ocasião dos oitenta anos do amigo poeta, Benedito Nunes escreveu “A Belém de Max Martins” (inédito), para uma palestra na X Feira Pan-Amazônica do Livro, em 17 de setembro de 2006, em Belém.
No ensaio “Max Martins, Mestre-Aprendiz” 49, escrito para a edição de Não para
consolar– que foi repetido, com algumas modificações, por mais duas vezes – em um artigo na revista Asas da Palavra, da UNAMA, no volume 11, dedicado ao poeta (2000), e no prefácio da edição de Max Martins: poemas reunidos 1952-2001, da Editora da UFPA –, Benedito Nunes (1992, p. 23) afirma sobre O Estranho, publicado um ano depois de Claro
Enigma, de Drummond:
[...] o parentesco da poesia de O estranho [...] era com um Drummond muito anterior, o de ALGUMA POESIA, BREJO DAS ALMAS e JOSÉ, conforme ousei afirmar em “A estreia de um poeta” artigo publicado em 52, no jornal “Folha do Norte”, e com o qual me iniciei na crítica literária, depois de haver abandonado, por lúcida e acertada decisão, a arte poética (NUNES, 1992, p. 21, grifo nosso).
Na verdade, Benedito Nunes tinha se iniciado na crítica de poesia dois anos antes,50
disfarçadamente (e talvez por isso ele não considerou que estivesse, naquele artigo, realmente fazendo crítica literária), no texto “Dez poetas paraenses”, que ele assinou com o pseudônimo de João Afonso, tendo supostamente enganado a todos os poetas da pequena antologia e aos leitores do Suplemento, como já vimos no capítulo anterior.
Diante de todos esses textos (artigos, orelhas, prefácios e palestras), citados anteriormente, é impossível falar da poesia de Max Martins sem citar Benedito Nunes, seu primeiro crítico, que por toda vida apontou o amigo como um de seus poetas preferidos, conforme sua crítica em “Meus poemas favoritos de ontem e de hoje”,51 em que ele elabora
uma pequena antologia dos seus doze poetas paraenses (como aquela de 1950, na qual ele mesmo participara como um dos “Dez poetas paraenses”):
As preferências não elidem o juízo crítico. Os poemas que escolhi são esteticamente autônomos. Diferem pela escrita, pelo tom ou pela atitude perante o mundo e os outros. Prefiro dos de menor clicheria verbal, os mais sóbrios e os menos “regionalistas”, sem desvalorizar a região ou a cor local, como meio de passagem ao universal. Excluo os novidadeiros, os modistas, os domingueiros. As qualidades de linguagem enunciativa de cada qual, a fala em lugar do falatório, condicionam largamente minhas preferências. Enfim, estão aqui doze poetas paraenses distintos, reunidos tão só, malgrado as diferenças de idade, época e escola, tão só pelas qualidades afins (NUNES, 2005, p. 259).
50 Benedito
Nunes escreveu um ensaio crítico sobre Tolstói em janeiro de 1950 (“O cotidiano e a morte em Ivan Ilitch”), antes mesmo da crítica aos “Dez poetas paraenses”.
51
Nesse ensaio, Nunes destacou poemas de doze poetas paraenses de sua preferência, entre esses nomes, ele selecionou poetas de sua geração e outros de uma geração mais atual: Ruy Barata, Paulo Plínio Abreu, Mário Faustino, Paulo Vieira, Antônio Moura, João de Jesus Paes Loureiro, Bruno de Menezes, Antonio Tavernard, Max Martins, Lilia Silvestre Chaves, Jorge Andrade e Age de Carvalho.