Com o uso de tecnologias assistivas e profissionais sensibilizados para atuarem no contexto das pessoas com deficiência visual, consegue-se transmitir informações acessíveis a essa clientela e promover saúde.
Conforme o referencial metodológico estabelecido, a validação da tecnologia assistiva “DST – para prevenir é preciso conhecer” concluiu o percurso metodológico e está validada. Todos os passos recomendados pelo referencial metodológico foram seguidos. Inicialmente, em trabalho de dissertação, os procedimentos teóricos para a apreciação por especialistas foram realizados, e sua conclusão se deu no presente estudo com a utilização do teste piloto.
Finalizada esta etapa, os procedimentos experimentais que corresponderam à avaliação da TA pelo número significativo de sujeitos também foram concretizados. Por fim, procedeu-se à execução dos procedimentos analíticos, caracterizada pela análise estatística dos resultados, realização das alterações pertinentes e divulgação do material validado.
Como foi perceptível nos resultados, quanto ao perfil demográfico e socioeconômico, a maioria dos sujeitos apresentava cegueira (58,9%), eram do sexo masculino (52,2%), faixa etária de 31 à 50 (41,1%), com predominância da raça preta/parda (55,5%) e religião católica (46,6%). O maior número de sujeitos estudou até o ensino médio completo (74,5%), residia em Fortaleza (58,9%), era casado ou tinha relacionamento estável (60,0%), morava com até duas pessoas (60,0%), possuía renda de até dois salários mínimos (64,4%), não trabalhava (59,5%) por estar aposentado (50,5%) e as principais ocupações foram massoterapia (27,4%) e revisão Braille (22,0%).
Quanto às características sexuais, a maior parte iniciou atividade sexual (83,3%), as mulheres fizeram exame ginecológico nos últimos três anos (82,5%) e realizaram o Papanicolau (91,5%) e os homens não se submeteram à cirurgia de circuncisão (84,0%). Quanto à ocorrência de alterações na genitália, a maioria não apresentou (61,6%) e, dos que apresentaram, buscaram atendimento com o profissional médico (95,1%). No atendimento, não foram orientados quanto aos cuidados de informar os parceiros (60,7%), realizar o teste de HIV (72,1%) e o teste da sífilis (75,5%). Além disso, também não foram orientados sobre o uso regular do preservativo (63,9%), não receberam gratuitamente dos serviços de saúde (73,9%) e quanto ao preservativo feminino, a maioria conhece (96,7%), mas poucos a experienciaram, apenas 10,5% das mulheres já usaram e 4,3% dos homens tiveram relação sexual com mulheres que utilizavam este dispositivo.
Quanto a avaliação da TA, as análises estatísticas mostraram que apesar das sugestões para seu aprimoramento, todos os itens do instrumento de avaliação apresentaram adequação em mais de 80%, sugerindo se tratar de um recurso adequado de promoção e educação em saúde para a clientela proposta.
De acordo com os domínios, a TA apresenta coerência com os objetivos a que se propõe, respeita a acessibilidade de pessoas com deficiência visual, proporciona a compreensão da informação através de linguagem clara, possui estratégia de apresentação atrativa e coerente e é capaz de desenvolver autonomia.
As principais alterações realizadas foram: a gravação com leitura mais compassada e música de fundo em menor volume em relação à voz; divisão do áudio em faixas, separadas por cada doença; citar os dois tipos de preservativo e a questão da gratuidade; tabus que envolvem o contexto da pessoa com HIV e sua transmissão vertical. As expressões que não pudessem ser compreendidas no cenário da ausência da visão como colorações foram retiradas ou explicitadas quanto à visualização pela pessoa vidente. Por fim, sugeriu-se a disponibilização da TA em arquivo word, Braille, em tinta e letra ampliada, além de gravado cantarolado.
Quanto à avaliação da TA em observância ao perfil dos sujeitos, sabe-se que nos diversos contextos da existência humana, incluindo o de saúde, as diferenças de gênero, faixa etária, raça, religião, escolaridade, renda, localidade e sexualidade devem ser consideradas e supridas nas mais diversas instâncias, como a da deficiência visual.
Destaca-se que no domínio objetivo, em comparação ao nível superior, as pessoas com deficiência visual que estudaram até o ensino médio avaliaram melhor a TA. Por sua vez, no domínio clareza, as pessoas com deficiência de idade mais avançada classificaram como adequada com índices superiores do que os mais jovens. Por fim, no domínio estrutura e apresentação, a questão de gênero, presença de alteração na genitália e atividade sexual influenciaram na avaliação. As mulheres, os sujeitos que apontaram alguma alteração na genitália e aqueles que iniciaram atividade sexual a avaliaram como adequada.
As limitações deste estudo correspondem primeiramente à dificuldade de acesso aos sujeitos para a coleta de dados, com características tão específicas, sobretudo por se tratar de uma temática ainda rodeada por estigmas sociais, especialmente no contexto dessa clientela. Outro desafio a ser destacado foi a escassa literatura sobre a temática, com dados atuais e concretos sobre a condição da pessoa com deficiência visual no cenário das DST no Brasil e no mundo. O cuidado à saúde sexual da pessoa com deficiência, especialmente na
enfermagem, ainda é pouco explorada, envolto por barreiras a serem superadas por aqueles que entre poucos se dedicam a essa temática.
Essas barreiras se iniciam desde a carência na formação dos profissionais de saúde até as limitações de acessibilidade em nosso meio social, mas também no acesso a esse estrato específico da população.
Dessa forma, como perspectiva futura, na intenção de reduzir a dificuldade de acesso às informações de pessoas com deficiência visual, sobretudo no âmbito da prevenção de DST, pretende-se disponibilizar a tecnologia para todos os locais que assistem essa clientela, bem como para os próprios usuários, almejando atingir esferas nacionais e se tornar inclusive ferramenta recomendada pelo Ministério da Saúde. A avaliação de aprendizagem com públicos de outras regiões do Nordeste e de diferentes regiões do país, assim como a viabilidade de atualização com o surgimento de novas informações sobre as DST também podem ser trabalhadas posteriormente.
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