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Gateplakater omkring i Stockholm versus kunstobjekter i galleriet

In document Nixon Visions av Kjartan Slettemark (sider 62-65)

4.3 BILDENES NÆRLIGGENDE OMGIVELSER

4.3.1 Gateplakater omkring i Stockholm versus kunstobjekter i galleriet

Por volta da década de 1920, onde hoje é a Vila Sucuriju havia apenas algumas feitorias, habitações utilizadas durante as temporadas de pesca costeira por pescadores vindos da embocadura do Amazonas, sobretudo da Vigia e do arquipélago do Bailique. Os Antigos, habitantes da região, ficavam no lago, vindo à costa apenas para vender o peixe e comprar alimentos. ‘Os que trabalhavam no lago, era só morador daqui, que morava aqui.’

O rio hoje chamado Sucuriju não existia. No lugar havia uma enseada, sem varada para canto nenhum. Havia um barranco e uma praia, que impediam o contato com o mar. Era um tempo em que se passava necessidade, devido à dificuldade para a chegada de embarcações trazendo mercadorias.

Isso era tapado! Olha, quando chegava a [embarcação] freteira, daí aparecia uma vara [o mastro] aí fora, a praia era enorme. Então, de lá que passava a mercadoria, uma mercadoriazinha. Aqui já houve miséria, meu amigo! Já houve miséria aqui nesse lugar! Você comer sem farinha...

Então fizeram uma promessa para Nossa Senhora de Nazaré: se a praia se tornasse rio, rezariam em agradecimento durante três noites, a cada ano. Numa madrugada de tempestade, com chuva, vento, cerração, trovão, raio, ouviu-se um estrondo muito grande, que não vinha do céu, mas de baixo. Quando amanheceu, o rio já existia. Abriu da noite pro dia. Foi um sucuriju que varou, que veio rasgando com essa terra toda e abriu esse rio aqui. Essa cobra veio de lá [do lago], d’um rego muito grande, muito fundo, que chamam rego do Urubu. Essa cobra desceu de lá e veio embora, rasgando por aí. Abriu esse rio aí, aí foi, foi, foi... Correu, foi abrindo, foi abrindo; deu certo na época do inverno, ele foi alargando. Ficou muito fundo... Foi assim que foi o negócio. Assim que abriu o rio que hoje é chamado o Sucuriju. Assim pôde varar água, que não escorria água antes. Aí começou o Sucuriju, daí que foi a Vila do Sucuriju.

(A partir dos relatos de dona Tudica, além de seu Branco, e seu Nestor, autores dos trechos ipsis verbis) [ver caderno de fotos, prancha 1; daqui em diante apenas assinalarei a prancha]

29 A origem do Sucuriju, tal como é contada e celebrada nos dias de hoje, remete a três “ordens” de temporalidade (Gell 2001: 316) estruturantes na vila. A mais evidenciada pelos relatos é a forma como a vila é indissociável da dinâmica do rio. Veremos como a geração de ambos num mesmo evento mítico indica, para além do posicionamento ribeirinho da vila, um modo de considerar sua existência ao longo da história regional e na dinâmica espaço-temporal local.

Um segundo ponto, ligado também à relação fundamental fluvio-humana, remete à própria constituição do Sucuriju enquanto confluência de dois regimes hídricos, que a cobra grande mítica propiciou o encontro – o da água doce, que desce contínuo dos lagos, variando conforme duas estações (inverno-chuvas e verão-estiagem), e o da água salgada, subindo diariamente o rio nos ciclos da maré. A abertura original, pedida à Santa e cumprida pela Cobra, ao mesmo tempo em que forma o rio pela reunião de duas águas, institui a vila através da reunião de duas populações – os Antigos, vindos do lago, e os pescadores costeiros sazonais, que foram sedentarizados a partir desse evento. São dois ritmos distintos que se articulam na vila, dimensões temporais expressas no comportamento das águas doce e salgada, que têm uma existência autônoma no lago e na costa, influenciando predominantemente as atividades de laguistas e pescadores de fora.

Se a elaboração da memória e o estabelecimento do ritmo de vida no Sucuriju remetem ao rio e seu complexo regime hídrico, não se pode esquecer outro aspecto evidenciado no evento original, talvez o principal para a formação da vila: a instauração da regularidade do comércio. Comunicável apenas por via marítima, a Vila Sucuriju só pôde surgir com a abertura da foz do rio, dando passagem às embarcações que levam o peixe e trazem mercadorias (cujo item paradigmático é a farinha). Base exclusiva da subsistência de um povoado sem agricultura, a pesca comercial tem seu ciclo de eventos dado pelos períodos do sistema aviamento – procedimentos de crédito e de produção do pescado, que colocam em relação patrões e pescadores.

Passo, então, às três ordens de temporalidade através das quais apresento o Sucuriju – sua relação histórico-mítica com o rio, o ritmo hídrico do cotidiano e os circuitos de troca e comércio que caracterizam a relação da pesca com a distribuição do peixe e com o sistema de aviamento.

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Da boca às cabeceiras: a constituição de uma identidade fluvial

A maneira como a relação entre a vila e o rio Sucuriju é tratada, seja no próprio mito ou nos vários tropos lingüísticos que relacionam a cobra, o rio e a vila, vai além da mera associação toponímica. Na elaboração da abertura do rio e da fundação da vila num mesmo marco gerativo e nomeador, fica expressa uma forma de estabilização da identidade local a partir de dois elementos chave: a ligação vital com o comércio e a confluência dos regimes hídricos, técnicos e cosmológicos característicos do lago e da costa. Tais elementos, acionados pela Santa e pela Cobra, agentes cosmológicos característicos do universo caboclo (cf. Galvão 1976), despontam como permanências mais abrangentes diante de uma história local perpassada de intensas mudanças dos pontos de vista econômico e geográfico.

De fato, as sociedades caboclas de modo geral têm sido caracterizadas como fortemente tocadas pelas mudanças nas demandas comerciais e nas condições ambientais (Nugent 2006; Harris 2006; Lima 2006). Frente à diversidade de realidades cobertas pelo termo caboclo, Harris chega a defini-lo como um “modo de ser no tempo”, enfatizando uma constituição historicamente instável, associada a um processo ativo de criação dos modos de vida, ainda que haja certa continuidade do ponto de vista técnico e cosmológico (Harris 2006: 104). Tais conclusões são pertinentes no caso do Sucuriju, e pretendo evidenciar como a relação fundamental vila-rio estabelece uma identidade estável diante de um quadro de intensas mudanças.

Com a junção dos dois tipos de pescadores na vila, e ainda que a pesca já ocorresse nos termos de uma atividade comercial, realizada a partir de um sistema similar ao dos regatões amazônicos, é somente na década de 1940 que se instala na vila o primeiro comerciante e fornecedor de crédito. Ele estabelece em seguida uma “empresa de pesca”, contando com embarcações, levando o produto para Belém e trazendo mercadorias para venda no local. Este patrão pioneiro era agente de outro, originário de Pernambuco e sediado no Bailique, que comerciava em toda a região. Mas ele logo se autonomizaria e teria a co-presença de outros comerciantes, vindos de Belém, Vigia, Viçosa, Afuá, de modo que em meados do século passado a Vila de Sucuriju alcançaria o estatuto de um importante ponto de pesca do litoral ao norte do Amazonas (Guerra 1954: 303). Entre os anos 1960 e 1970, a vila atinge o seu auge, com mais de mil habitantes, fiscal tributário, postos médico e policial, escola e pelo menos cinqüenta canoas de pesca, para as quais eram trazidos pescadores de outros locais.

31 Entretanto, algumas transformações regionais fazem a posição de destaque do Sucuriju entrar em declínio da década de 1970 em diante. A criação da conexão rodoviária entre Belém e as regiões nordeste e centro-sul do país e também com a região costeira do Pará (zona do Salgado), aumentou a comercialização do peixe (e a oferta de produtos industrializados), estimulando a formação de centros permanentes de pesca e de pescadores especializados, com escoamento da produção para Belém por via terrestre. A pesca então se transforma, programas de desenvolvimento trazem inovações técnicas como motores náuticos, redes de fio sintético e conservação à base de gelo (Loureiro 1985: 24-9; Furtado 1993: 337 e 1987: 50 e 69-70; Maneschy 1993: 115-7).

Começa a produzir-se em outras localidades uma forma de conservação e escoamento que no Sucuriju não se poderia executar. Numa pesca estruturada à base de salga e transporte flúvio- marítimo, a vantagem de situar-se próximo aos recursos fazia com que o sistema de conexão através das embarcações freteiras funcionasse bem, atraindo capital da região. Mas as transformações fazem o Sucuriju perder estas vantagens relativas, caracterizando-se como um local isolado a partir do novo marco das ligações rodoviárias. Como escreve Lourdes Furtado (1987: 75), analisando o caso análogo de localidades do litoral paraense, os pontos avançados no mar, até então favorecidos pelo transporte flúvio-marítimo da produção, começam a ser substituídos por antigos ou novos povoados pesqueiros, muitas vezes com menores vantagens quanto à posição fluvio-marinha, mas conectados à rede rodoviária. Fazendo parte deste complexo pesqueiro com centro em Belém, o Sucuriju vive um declínio. As empresas de pesca deixam a vila ao longo da década de 1970; os patrões quebram, mudam de atividade ou retornam para Belém ou Vigia, continuando na pesca sob o novo modelo.

Os barcos são levados a outras localidades e a vila entra num período de crise econômica que, segundo os relatos, fez reviver em alguns momentos a ignominiosa falta de farinha dos tempos originários. Tornou-se cada vez mais difícil encontrar embarcações para pescar, deu-se grande êxodo e no início da década de 1990 contavam-se cinco embarcações ativas na vila e menos de trezentos habitantes. Durante os anos oitenta os pescadores da costa passaram para atividades lacustres ou para a pesca próxima às praias, com batelão (embarcações a remo e a vela, com dimensões entre uma canoa e um barco). Nesse período surge no local a pesca de rede fixa na costa. Nos anos 1990 apareceria também a alternativa comercial da cata do caranguejo

32 (atualmente suspensa pelas autoridades ambientais), demandado pelos mercados de Belém e Macapá.

No que se refere ao domínio lacustre, é também na década de 1970 que se efetiva no Sucuriju a proibição da caça de animais de pele (jacarés, jacuruxis, lontras e sucurijus), que teve sua força em meados do século e vinha sendo feita em menor escala e dirigida a Caiena (mas que nunca superou a importância do pirarucu, segundo os relatos locais)7. Em 1980 é instaurada na região dos lagos a Reserva Biológica do Lago Piratuba, estabelecendo a interdição legal das atividades humanas. Consequentemente, houve diligências de fiscalização; mesmo que muito esporádicas para inibir a atividade, foram no mais das vezes truculentas, apreendendo instrumentos e pescado e chegando a incendiar feitorias, as palafitas que abrigam os laguistas durante as temporadas de pesca. Desde o início deste século, entretanto, outra postura tem sido adotada por funcionários dos órgãos ambientais, apontando para o diálogo e fixando acordos com a população local. Há em certa medida interesses mútuos nesse novo modelo de interação, já que o chamado “cinturão de lagos oriental”, acessado exclusivamente pelos habitantes do Sucuriju durante o século XX, passou a ter uma parte explorada também por pescadores estrangeiros à vila, por meio de uma passagem (um varadouro) para o mar, recém-aberta, defronte à ilha de Maracá. Essa nova forma de exploração, e a maneira nociva como tem sido caracterizada, gerou interesses mútuos entre o Ibama e a população local no que tange ao controle do acesso à região, favorecendo a criação de acordos no recente diálogo sobre o controle territorial da área.

Além disso, inúmeras transformações geomorfológicas são referidas pelos moradores locais. Cito as referências ao fato de que os lagos ficaram mais profundos nas últimas décadas, dificultando a pesca com arpão; as contínuas modificações nas condições de acesso aos lagos por meio dos rios e igarapés; e o fato principal de que, ao final de cada estação seca, a maré adentra os lagos pelo norte, chegando, algumas vezes, a deixar salobra toda a região. Isso acarreta a morte de muitos animais (como jacarés, sucurijus e pirarucus), mas traz novas espécies de peixes, associados à água salgada, o que cria ciclos de produção diferentes e com alto grau de imprevisibilidade nos lagos. Há também a referência às piranhas, que se disseminaram nos lagos há cerca de três décadas, dificultando certas modalidades de pesca. Com a proibição da captura, a

7 De acordo com as informações de Veríssimo (1970: 111) e Coudreau (1887: 42) já no século XIX o pirarucu é, junto com o peixe-boi, o principal produto da pesca na região de lagos ao norte do Araguari, sendo levado dali para Caiena e Belém. Ainda que descreva a região de lagos como bastante despovoada e de difícil acesso, Coudreau relata a presença de “arpoadores” vindos para a região em decorrência da Cabanagem (idem: 47). Anteriormente, Veríssimo (1970: 111) informa a existência de um pesqueiro real na região, durante o século XVIII.

33 população e o tamanho dos jacarés também aumentaram, atrapalhando e ameaçando os pescadores. Assim, o que deve ser considerado o fator crítico na reprodução da atividade lacustre não é tanto o mercado regional do pescado (que mantém demanda relativamente estável), mas as mudanças nos domínios ambiental e ambientalista.

Outro elemento desde sempre presente entre as preocupações locais é a obtenção de água potável. Situada próxima ao mar, numa região de mangue onde a maré adentra muito, salgando a água do rio e dos cursos d’água próximos, na Vila de Sucuriju a água da chuva é que serve ao consumo. Nos meses de inverno, ela é armazenada a partir do telhado das casas, o que confere grande importância aos frascos dentre os utensílios domésticos. Eles são de vinte até duzentos litros e uma unidade doméstica deve contar com um número de frascos compatível com seu tamanho, de modo que eles são oferecidos inclusive como presente de casamento. Num passado recente a obtenção de frascos era mais difícil, mas com sua produção em material plástico, o custo diminuiu e o desgaste pela oxidação não é mais problema. Além do que, hoje em dia é mais fácil encontrar frascos encostados nas praias, caídos de barcos ou navios, e a atividade de coletá- los pelas praias, juntamente com materiais como bóias e linhas, não deixa de constituir uma espécie de extrativismo de produtos industrializados.

Durante o período de estiagem, de agosto a dezembro, a solução foi sempre a mudança da família para o lago ou o empreendimento de expedições periódicas para obtenção de reservas de água portável nos lagos ou na foz do Amazonas. Em meados da década de 1980 esse problema foi mitigado pela construção de uma caixa de concreto, onde a água das chuvas é armazenada durante o inverno para suprir o período de verão. A construção, animada por um clérigo italiano e financiada principalmente com recursos holandeses, foi realizada praticamente toda ela com mutirão de mulheres e crianças (a maioria dos homens dedicava-se à pesca). Desde então, durante o verão (agosto a dezembro) a pegação de água é organizada semanalmente. No período em que estive na vila, a cota era de trinta litros por pessoa, a serem retirados aos sábados.

Se a situação da vila na virada para os anos 1990 é lembrada pelos moradores locais como um tanto crítica, pareceu ainda mais problemática aos olhos das autoridades governamentais. A localidade se transformara num enclave entre a Rebio do Lago Piratuba e o mar; a pesca marítima comercial colapsara; permaneciam as dificuldades no suprimento de água potável; os obstáculos no acesso aos serviços públicos tornavam-se relativamente mais significativos, em função da crise econômica local e do isolamento em relação às redes rodoviária e elétrica, que distancia o

34 Sucuriju das principais ações de desenvolvimento regional. Ocorre assim uma tentativa governamental de transpor a vila para um loteamento na cidade de Amapá, alternativa rejeitada pela população local.

A partir da década de 1990, novas perspectivas se apresentam, praticamente todas relacionadas a ações estatais. Uma segunda caixa para armazenar as precipitações de inverno foi construída pelo governo estadual, melhorando o abastecimento de água potável. A difusão paulatina entre a população local de dois benefícios federais – a aposentadoria rural e o seguro desemprego da pesca, que confere um salário mínimo a cada pescador durante o período de proibição da captura de certas espécies de pescado – representa um novo modo de capitalização, utilizado na pesca, na formação de baiúcas (pequenos comércios) e na aquisição de bens diversos, sobretudo eletrodomésticos. Com notável velocidade espalharam-se pela vila refrigeradores e principalmente televisores, cuja quantidade saltou de um para algo em torno de sessenta aparelhos durante a última década.

A pesca costeira ganha novo fôlego nesse período, com sucessivos programas de financiamento estatal (intermediados pela colônia de pescadores), fazendo com que hoje o Sucuriju conte com mais de trinta embarcações. Ainda que as técnicas de captura, conservação e transporte do produto se mantenham, há mudanças em relação ao antigo sistema de pesca. O produto salgado, que antes abastecia cidades como Belém, segue dali para assentamentos agrícolas no interior do Pará. Hoje a propriedade das embarcações e apetrechos é disseminada entre os próprios pescadores; os atuais patrões fornecem crédito, intermediam a venda do peixe e comercializam mercadorias localmente, mas com menos poderio econômico do que antes – dos oito intermediários-aviadores nenhum possui mais de duas embarcações e cinco deles são originariamente pescadores locais, que obtiveram crédito com grandes comerciantes de Macapá e Belém.

Ainda que seja agora motorizada, a pesca costeira do Sucuriju se limita às proximidades da beira, raramente algum barco se aventurando a pescar mais afastado, com mato sumido, como faziam antes. Isto se deve em parte à menor dimensão das embarcações atuais, mas principalmente ao fato de que, a partir da década de 1980, proliferaram os barcos paraenses na costa do Amapá, utilizando um tipo de apetrecho (rede de bubuia, ou seja, flutuante à deriva), que significam competição pelos recursos e risco aos instrumentos e aos próprios barcos do Sucuriju, visto que estes pescam fixados ao fundo (chamados por isso de escoradores). Para

35 evitar um confronto desigual e potencialmente violento, estes exploram o trecho mais próximo ao litoral, onde encontram menor produtividade.

Paralelamente a todas as transformações pelas quais passou o Sucuriju durante o século XX, não devem ser ignorados os três períodos em que estiveram instaladas no local as bases de empresas petrolíferas que prospectavam a região costeira. Além disso, é preciso considerar as alterações significativas ao longo do tempo no preço de seu principal produto – a bexiga natatória da gurijuba. Conhecida regionalmente como grude, hoje ela rende ao pescador pelo menos três vezes mais do que a carne do peixe, mas está submetida às variações da demanda internacional e à cotação do dólar, posto que atualmente toda a produção é exportada para o consumo humano e a feitura de colas e outros subprodutos no extremo oriente (cf. Cepnor 2000 e Lisboa 2005).8

Esse panorama de variações na inserção regional do Sucuriju repercute na formação de uma identidade local, na constituição da especificidade do Sucuriju e do sucurijuense. O primeiro ponto a ressaltar é a exclusividade da pesca. Dizer que o Sucuriju é uma vila de pescadores não serve apenas como caracterização sócio-econômica, mas é uma forma de compreender sua inserção regional. Sim, pois não é apenas que os pescadores do Sucuriju o sejam exclusivamente (pescadores “efetivos” ou “monovalentes”, nos termos de Loureiro e Furtado), mas que na vila não há alternativa produtiva à pesca. Em boa parte das comunidades do estuário amazônico, a pecuária (sobretudo de búfalos a partir dos anos 1970), a agricultura e diversas formas de extrativismo vegetal são atividades comerciais tão ou mais importantes do que a pesca; ou pelo menos alternativas para o autoconsumo ou em momentos de crise – no Sucuriju, o pescado é a base econômica e alimentar exclusiva.

Não há criação ou cultivo, excetuando-se o complicado esforço de defender algumas plantas das inundações de água salgada para suprir, quando muito, um núcleo familiar com um pouco de ervas e verduras ou dispor de água de coco em algumas situações. Procedimento análogo é exigido para eventuais animais de criação (xerimbabos), principalmente porcos e galinhas, cuja pequena proporção sobrevive a marés, cachorros e onças para alimentar algum festejo. No dia-a-dia do Sucuriju, quando não há peixe quem tem dinheiro ou crédito obtém ovos, charque, conserva, carne de gado ou de frango, tudo trazido de outras localidades. Muito raramente há caça (capivara, cutia). Por vezes alguém – normalmente um aposentado ou um

8 Durante o ano e meio em que realizei incursões de campo, o preço pago ao pescador pelo quilo da grude variou entre R$ 40,00 e R$ 85,00.

36 patrão – se aventura a fazer uma roça num local um pouco menos vulnerável à água salgada, nem sempre próximo à vila; mas são projetos insipientes, que vi serem abandonados depois de uma maré especialmente violenta ou da saciação furtiva de outrem.

Outro aspecto importante referido tanto pelos moradores locais quanto pelos estrangeiros,

In document Nixon Visions av Kjartan Slettemark (sider 62-65)