A eleição dos sujeitos implicados na pesquisa, teve como premissa básica, que não é possível ouvir e entender todos os caminhos de formação de todos os tipos de trabalhares da APS, isso seria muita pretensão e inviável no tempo desta pesquisa. A eleição dos sujeitos, teve como critério ideal e principal, o indivíduo reconhecido como sendo em seu cotidiano “comprometido com o cuidado voltado para emancipação do outro e a construção de uma sociedade solidária”.
Os critérios escolhidos foram:
Ter sua experiência profissional centrada na Atenção Primária à Saúde. Aceitar participar de todas as etapas da pesquisa, inclusive da revisão da transcriação e assinar o termo de consentimento livre e esclarecido6
(TCLE).
Responder o formulário preparatório inicial7.
A pesquisa nasceu do pressuposto de que entre os militantes da Educação Popular em Saúde, existem sujeitos que demonstram essas
6 O TCLE encontrar em anexo ao texto.
7 Pré-entrevista realizada no formulário Google Doc. Esta ferramenta funciona online, não tem
custo financeiro e possibilita coletar informações de forma rápida, ágil e é de fácil manuseio. A parte inicial do formulário, juntamente com o TCLE pode ser visualizado online acessando: <https://docs.google.com/forms/d/1n5LFDySkcGcBsCiqk2BKdfB_7d_zXu2kCRDyWa2waN8 /viewform> encontra-se disponível no anexo A.
características no seu cotidiano, embora entendendo que não apenas entre estes. Aceito sem dificuldade que existem diversas forma de entender o cuidado, a construção da emancipação do outro e de pensar uma sociedade solidária, porém não se trata de ouvir pessoas “comprometidas” de forma aleatória, mas de indivíduos identificados politicamente e afetivamente com os pressupostos da Educação Popular.
A identificação de pessoas para pesquisa aconteceu de três formas: 1. Indicados pelos participantes da lista da Rede de Educação Popular e Saúde (REDEPOP8), da qual também faço parte.
2. Indicados por pessoas ouvidas (efeito cascata). 3. Indicadas pelo autor da pesquisa.
Importante destacar que esta pesquisa não considera as pessoas identificadas como comprometidas com o cuidado emancipador e a construção de um mundo solidário como sendo “iluminadas”, “superpoderosas” ou “sobre-humanas”, mas pessoas, que apesar de normais, demonstram um compromisso especial com seu fazer.
Não foi pré-definida a quantidade de entrevistas, entendendo que isso ocorreria pela saturação das respostas. Mesmo levando em conta que, para essa modalidade de pesquisa, a ideia da “bola de neve”, ou seja, a noção de que em determinado momento as respostas se tornariam repetitivas e determinariam o número ideal de entrevistas, nem sempre ocorre, como diz Debert (1986).
1.2.2 Verdade
A história oral tem algumas particularidades que precisam ser observadas à luz da ética. Meihy e Holanda (2013), dizem que fazer história
8 Lista de discussão da Rede de Educação Popular e Saúde:
<https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/listadaredeedpopsaude/info> Acessado em: 07 jul. 2015.
oral é aceitar que ela representa o aqui e agora, que se utilizam equipamentos eletrônicos para registrar, mas que evolve além da fala propriamente, entonação, gestos, expressões omitidas ou emitidas, lágrimas, risadas, silêncios e que considerar tudo isso é um desafio. Também é assumir a subjetividade das histórias e que não se trata exatamente da “verdade vivida”, mas de uma versão desta ou, no mínimo, como esse viver cristalizou seu significado na pessoa entrevistada. Porém, a questão ética envolvida precisa ser “verdade”. Por isso tomei emprestado para essa discussão o título de uma das músicas mais conhecidas de Zeca Pagodinho: verdade.
Como se trata de uma apreensão em tempo real, com personagens vivas, até a história tomar sua forma final, geralmente em texto, mas não necessariamente, ela pode mudar. Essa é uma consideração ética porque, considerando essas características, a história oral, para ser ética, exige procedimentos diferentes de uma entrevista tradicional, como por exemplo, a exigência de submeter o resultado da entrevista, em forma de texto, na íntegra ou em partes, a aprovação do entrevistado, oferecer oportunidades às correções, modificações, novas explicações ou mesmo retirada de falas e omissão de situações.
Mais do que pôr ou tirar partes de uma entrevista, tudo deve ser negociado. Muitas vezes, coisas ditas em momentos inesperados ou como parte de uma narrativa ganham relevos diferentes quando vertidos do oral para o escrito. Caso haja necessidade e seja definida a relevância do que foi falado, recomenda-se um ambiente de camaradagem para a negociação.
O importante, em se falando de história oral e, sobretudo de ética em história oral, é que apenas o que foi aceito pelo colaborador deve ser considerando para a pesquisa, mesmo que seja uma entrevista anônima, o que nem sempre é necessário e recomendado nessa modalidade de pesquisa.
As pessoas entrevistadas, geralmente são denominadas de colaboradores, devem assinar, ao final, uma carta de cessão com especificações sobre o uso pleno ou relativo das falas. Outras considerações que os diretores da pesquisa devem observar:
Especificar onde serão guardadas as entrevistas gravadas e se serão ou não divulgadas na íntegra ou em partes.
Definir previamente onde será realizada a entrevista e qual será o tempo de duração e quem a fará. Recomenda-se que o diretor da pesquisa seja o entrevistador, mas isso nem sempre é o apropriado e, em último caso, deve-se observar o que se pretende com a pesquisa e se o envolvimento entre o entrevistador e o entrevistado pode ou não favorecer os objetivos. O fundamental é que o entrevistador seja preparado previamente para realizar a entrevista.
Deve-se dizer se a entrevista será analisada ou não. A decisão sobre fazer a análise tem a ver com os objetivos, havendo quem considere necessário e quem considera irrelevante.
Deve-se esclarecer se a entrevista será aproveitada na integra ou em partes.
Ao final, o resultado deve ser repassado para os colaboradores e definido se haverá desdobramento e/ou se a entrevista será utilizada apenas em um projeto ou em outros.
Deixar claro que nada será divulgado previamente sem expressa autorização dos colaboradores.
Meihy e Holanda (2013), ressaltam como muito importante, que seja determinado, previamente, qual a forma final do documento que será produzido, se texto ou vídeo, se será utilizado transcrição fiel ou transcriação e quais as etapas de elaboração que serão submetidas aos colaboradores.
A transcrição e a transcriação são procedimentos delicados porque podem mudar radicalmente o que foi contato nas entrevistas. Por outro lado, é importante ter em conta que “a oralidade quando vertida para o escrito congela a realidade narrada mudando a dinâmica original”, Meihy e Holanda, (2013, p.26). Essa mudança de dinâmica é inevitável e, algumas vezes pode causar estranheza no colaborador. Ele pode não identificar o que disse na transcrição, o que exige disposição para o diálogo e esclarecimentos de ambas as partes.
1.2.2.1 Achei vendo em você, e explicação nenhuma isso requer9
O conceito de transcrição é bastante conhecido por se aplicar em diversas modalidades de pesquisa que se utiliza de entrevistas. Transcrever é basicamente passar do oral para a escrita, o que nem sempre configura problema, quando se utiliza trechos das falas na pesquisa. Mas, Kermode, citado por Meihy e Holanda (2013, p. 135), diz que mesmo na transcrição não existe “verdade honesta”, pois “no minuto que se começa a escrever, tenta-se fazê-lo bem e escrever bem é uma atividade que não tem relação com a verdade absoluta”.
Em história oral recomenda-se que a entrevista “seja tratada na íntegra”, o que abre um problema adicional. Pode- se dizer que quase sempre uma transcrição literal é incompreensível, isso por que a fala é muito diferente do texto e, o que se vivenciou no momento da entrevista, não tem como ser transcrito na íntegra, principalmente considerando que não é só a “boca” que fala, mas todo o corpo. Por isso, a transcriação é um fundamento-chave para a história oral.
Transcriar é basicamente transformar o que foi falado pelo entrevistado em um texto escrito de forma compreensível. O objetivo não é mudar o que foi falado, mas melhor comunicar o que pretendia dizer. Enfim, a fala, ao ser vertida para escrita, geralmente perde seu sentido original e precisa ser reelaborada. Essa reelaboração recebe o nome de transcriação e tem os objetivos de comunicar melhor o sentido e a intenção do que foi registrado. A metáfora da água que se transforma em vapor, parece apropriada para explicar a transcriação: o vapor tem outra forma e é vivenciada de modo bem distinto do líquido, mas não deixa de ser água.
Segundo Meihy e Holanda (2013), o senso estético encontra abrigo e aproximação entre literatura e história oral. Há quem sugira essa proximidade
9 Esse verso da música, Pra você guardei o amor, de Nado Reis, utilizada como título, parece
perfeito para falar de transcriação. A ideia é que a transcriação possibilite encontrar no outra as explicações.
entre história oral e literatura para depreciar essa modalidade de pesquisa e há os que preferem ver nisso um elogio.