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Nesta seção, o objetivo é apresentar argumentos que permitam uma aplicação do Parâmetro de Realização Fonológica de Núcleos aos dados de alternância dativa, de modo a explicar a ausência das construções de objeto duplo em PB como um caso de aplicação da operação de deslocamento compulsório (cf. cap. 3) em estruturas verbais, assim como acontece na variação entre nomes compostos do inglês e do PB. Partindo das propostas de Scher (1996) e Armelin (2011) para o PB, serão observadas as propriedades das dativas no PB, em favor de uma proposta de estrutura em comum entre as construções da alternância dativa do inglês e as dativas do PB. A partir dos dados do PB, será apontado que as construções dativas dessa língua apresentam as mesmas propriedades de transferência de posse, assim como também apresentam a possibilidade de formação idiomática.

A partir desses dados será proposta uma estrutura que capture as propriedades tanto da corrente alternativa quanto da corrente derivacional. Mantendo o modelo da Morfologia Distribuída como apoio para a análise proposta, será feita uma decomposição de traços inerentes nas preposições dos dados da alternância dativa, em comparação às preposições dos dados de compostos, que explicará o comportamento destes fenômenos em inglês e PB.

4.2.1. Não existe alternância dativa no PB: Scher (1996) & Armelin (2011)

Com base na observação do dialeto da região da Zona da Mata mineira, Scher (1996) e Armelin (2011) fazem importantes contribuições para a discussão da possibilidade de formação de construções de objeto duplo no PB. Scher (1996) mostra que os dados do dialeto mineiro (PBM), apesar de superficialmente semelhantes às construções de objeto duplo do inglês, não se comportam da mesma maneira quando se observa seus resultados frente aos diagnósticos sintáticos de restrição de verbos dativos românicos (112), de ausência da preposição na ordem dativa (113), e de passiva (114):

(112) a. O João doou muito dinheiro ao orfanato. b. João doou o orfanato muito dinheiro.

c. O Pedro distribuía seus agradecimentos aos amigos. d. O Pedro distribuía os amigos seus agradecimentos.

(SCHER, 1996, p. 31) e. John donated money to charity.

John doou dinheiro para caridade Joh doou di hei o pa a a a idade. f. *John donated charity the money.

g. I distributed apples to the children. Eu distribuí maçãs para as crianças Eu dist i uí aç s pa a as ia ças.

h. *I distributed the children apples.

(113) a. A Maria deu um livro aos/pros meninos. b. Um livro foi dado aos/pros meninos. c. *Pros/aos meninos foi dado um livro. d. *Os meninos foram dados um livro.

(114) a. Eu entrego o livro o pai da Ana. b. Ela deu o retrato o Pedro. c. Mostra o carrinho os meninos! d. Dá o recado o seu irmão.

(SCHER, 1996, p. 39)

Por conta dessas e outras assimetrias, a autora propõe que a alternância vista no PBM não seja considerada equivalente às construções de objeto duplo do inglês, mas que o fenômeno do PBM seja tratado como uma instância de topicalização do objeto indireto, enquanto a ausência da preposição seja consequência de um apagamento morfofonológico.

Armelin (2011) toma por base a análise feita por Scher (1996), e mantém a ideia de que não existam construções de objeto duplo no PB(M). Além de apoiar a hipótese de Scher (1996), a autora traz argumentos importantes em favor de uma análise para as construções dativas em que o argumento preposicionado não seja adicionado da mesma maneira que um aplicativo (PYLKÄNNEN, 2002), mas que possua uma relação de complemento estrutural do verbo44. Para tal, a autora mostra que construções dativas com PP podem apresentar leituras idiomáticas (115), e a alteração do argumento tema não afeta a interpretação especial que a união entre o verbo e o PP gera (116):

44 Apesar de afirmar que o argumento preposicionado seja adicionado da mesma maneira que um

aplicativo, Armelin (2011) adota uma estrutura sintática diferente para a concatenação desse argumento. Enquanto Pylkännen (2002) propõe uma projeção funcional que licencia esse argumento, Armelin (2011) afirma que o argumento preposicionado seja gerado como núcleo+complemento.

(115) O OBJETO INDIRETO DISPARA UMA INTERPRETAÇÃO PARTICULAR DO VERBO a. Entregar pra Deus.

b. Mandar/enviar pro espaço. c. Chamar pra briga.

d. Dar no João. e. Colocar na berlinda.

(ARMELIN, 2011, p. 125)

(116) a. Mandar o chefe pro espaço. b. Mandar a pesquisa pro espaço. c. Mandar a tristeza pro espaço. d. Mandar o problema pro espaço.

(ARMELIN, 2011, p. 126)

Armelin também mostra que existem algumas questões no que diz respeito à semântica das preposições a e para nos dados do PB e do PBM. Para a autora, a preposição

para é ambígua entre a leitura de dativo e a leitura de beneficiário, enquanto a preposição a

permite apenas a leitura dativa:

(117) a. O Pedro deu o livro [para a Maria] Interpretação default: alvo b. A Maria comprou um presente ao João, que estava fazendo aniversário, mas não pode ir à festa e pediu que o Pedro entregasse o presente ao João no lugar dela.

Outra questão apontada pela autora é a de que apenas os verbos que aceitam a como preposição (118) podem omiti-la em PBM (e, consequentemente, apresentar a sequência VNPNP), em contraste com verbos que só aceitam para (119):

(118) a. O pai deu o presente ao menino. b. O pai deu o presente o menino.

(ARMELIN, 2011, p. 103)

(119) a. O pai consertou a bicicleta (para o/*ao) menino. b. *O pai consertou a bicicleta o menino.

(adaptado de ARMELIN, 2011, p. 103)

Além dos fatos mencionados acima, a autora mostra que, apesar da ausência de alternância dativa, as construções dativas no PB (e no PBM) apresentam uma leitura de transferência de posse, cuja estrutura proposta pela autora é como em (120):

(120)

(ARMELIN, 2011, p. 139)

Retomando a proposta de Torres-Morais (2007) para o PE – em que se afirma a possibilidade de construções de objeto duplo nessa língua –, Armelin mostra que no PB a relação de transferência de posse aparece apenas nas construções em que para apresenta leitura dativa, e que a semântica da preposição a em PE (121), difere do que é visto em PB (122):

(121) PE

a. A Maria fez um jantar aos convidados/fez-lhes um jantar. b. A Maria fez um jantar para os convidados.

(122) PB

a. *A Maria fez o jantar ao amigo.

b. A Maria fez o jantar para o amigo. AMBIGUIDADE

(ARMELIN, 2011, p. 65)

Nos casos acima citados, é possível ver que a preposição a em PE apresenta a ambiguidade de leituras que são vistas no PB com a preposição para. Essa ambiguidade que

para apresenta no PB e a apresenta no PE é equivalente à distinção entre as preposições for e

to no inglês. Porém, a em PE também possui interpretação de origem, como a preposição de

no PB:

(123) a. PB

O Itaquerão roubou *ao/do Morumbi o título de sede da Copa de 2014. b. PE

O Itaquerão roubou (?)do/ao Morumbi o título de sede da Copa de 2014.

Com esses fatos em mente, fica claro que a semântica das preposições envolvidas no fenômeno da alternância dativa é de suma importância. A diferença vista entre PB e PE advém dos diferentes conteúdos semânticos veiculados pelas suas preposições, e é importante apontar que, apesar de apresentar fenômenos sintáticos diferentes do PB no que diz respeito à ordem dos seus argumentos, o PE só pode formar as estruturas que Torres-Morais (2007) chama de construções de objeto duplo quando ocorre movimento/redobro de clíticos ou quando a preposição a está presente. Ou seja, o fenômeno do PE apresentado por Torres- Morais (2007) não aparenta ser um caso de alternância dativa no sentido tradicional da literatura sobre o fenômeno no inglês, mas uma variação devida às características polissêmicas da preposição a em PE. De qualquer maneira, o foco da tese será mantido apenas nas

estruturas do PB, deixando a discussão sobre a possibilidade de construções de objeto duplo no PE para trabalhos futuros.

Voltando para a questão da polissemia das preposições, é possível notar que existe uma diferença entre os traços de preposição que aparecem em PB e inglês no que diz respeito à semântica das construções dativas. Conforme mencionado, Harley (2002) afirma que a construção de objeto duplo é a responsável por carregar exclusivamente a leitura de transferência de posse, enquanto a construção dativa possui um caráter apenas locativo, sendo essa a sua principal característica.

A partir das observações de Armelin (2011) sobre a polissemia que as estruturas com

para apresentam no PB, Barbosa & Armelin (2012) apresentam a seguinte tabela sobre os

fatos de inglês, PB e PBM:

(124) Tabela 4: Relação ordem de argumentos / presença de preposição em inglês, PB, e PBM

(BARBOSA; ARMELIN, 2012)45

45 É importa te ota ue, os asos e ue o NP ap ese ta o teúdo fo ol gi o pesado , o o e u

Quando a impossibilidade da sequência *Mary gave to Paul a book é levada em consideração, fica claro que a semântica da preposição to apresenta um papel muito mais forte do que para em PB, e que a liberdade de ordem no PB é um fenômeno completamente diferente da alternância dativa presente no inglês, assim como Scher (1996) e Armelin (2011) advogam. Na próxima seção, será proposta uma análise que explique a relação entre a impossibilidade de formação de construções de objeto duplo no PB e o PRNF, buscando explicar, a partir das relações dos traços dos compostos e dos dados da alternância dativa as questões sobre (i) a semântica das preposições, (ii) da semântica de transferência de posse nas dativas do PB (iii) as possibilidades idiomáticas na alternância dativa e (iv) as assimetrias apontadas por Barss & Lasnik (1986).

4.3. O Parâmetro de Realização de Núcleos Funcionais e a alternância dativa: uma proposta