a realização das monografias para a Flora da Serra do Cipó tende a elevar o número de espécies de diversas famílias encontrado inicialmente por Giulietti et al. (1987). Pirani et al. (2009) citam como exemplos: aquifoliaceae, que apresentava quatro espécies na lista inicial e após o tratamento taxonômico (Groppo & Pirani 2005) passou a registrar nove espécies na região; Scrophulariaceae s.l. que apresentava 10 espécies e passou a 17 (Souza & Giulietti 2003), e apocynaceae s. str., que passou das 15 espécies na lista inicial a 27 após o tratamento detalhado (Kinoshita & Simões 2005).
Este padrão também ocorreu em Mimosoideae. após atualizações nomenclaturais, a listagem inicial de 1987 apresenta 21 espécies, divididas em nove gêneros, enquanto neste trabalho foram encontradas 57 espécies, distribuídas em 13 gêneros. Das 36 novas ocorrências registradas para a região, cinco foram encontradas nas coleções dos herbários analisados e 31 advieram de novas coletas realizadas por diferentes pesquisadores, principalmente durante o período deste trabalho.
analisando apenas os novos registros, observa-se que a formação vegetal que mais contribuiu para o aumento do número de espécies foi o cerrado (Fig. 15), seguido pela floresta estacional semidecidual. Das 16 espécies encontradas no cerrado, nove são de Mimosa, gênero que tem esse bioma como seu centro de diversidade (Simon & Proença 2000) e que contribuiu com 16 das 36 novas ocorrências para a Serra do Cipó.
Todas as espécies coletadas na floresta estacional semidecicual são arbóreas. Isto pode ser um reflexo da composição florística de Mimosoideae neste bioma, ou da amostragem feita nele, que foi predominantemente de espécies com esse hábito (Santos 2009).
De modo geral, o número de espécies de Mimosoideae aumentou devido a três fatores: amostragem da floresta estacional semidecidual, bioma não explorado anteriormente; aumento do esforço de coleta em áreas já bem exploradas da serra, como as adjacentes à rodovia MG 010; novas coletas em regiões da serra pouco visitadas, como Santana do Pirapama (Serra Mineira), a região da Lapinha (proximidades do Morro do Breu, ponto culminante da Serra do Cipó) e a Serra Talhada (Congonhas do Norte).
a intensificação dos esforços de campo é de fundamental importância para a realização de trabalhos florísticos acurados, especialmente em áreas pouco exploradas, porém os resultados do presente trabalho mostram que mesmo localidades bem amostradas também podem fornecer novos dados. aparentemente, alcançar a amostragem completa de conjuntos florísticos em áreas de alta biodiversidade é tarefa que só pode se esgotar após inventários de esforço regular ao longo de períodos muito extensos (rapini et al. 2008).
Figura 15. Gráfico do número de novos registros de espécies de Mimosoideae para a Serra do Cipó distribuído pelas formações vegetais em que foram coletados. fes - floresta estacional semidecidual; cr - campo rupestre; cer - cerrado; est - área perturbada em beira de estrada.
Schrire et al. (2005) indicam que grande parte das Mimosoideae ocorre em biomas sujeitos a uma estação seca, tolerantes ao fogo e ricos em gramíneas (como o cerrado) ou intolerantes ao fogo e ricos em suculentas (como o semi-árido). Este padrão se repete na Serra do Cipó, onde a maioria das espécie ocorre em as áreas de cerrado e campo rupestre, abrangidas pelo domínio do Cerrado (Fig. 16).
Das 57 espécies de Mimosoideae encontradas na região, 18 ocorrem nos campos rupestres, tipo vegetacional com altos grau de endemismo, diversidade beta (Giulietti et al. 1987, Giulietti & Pirani 1988, rapini et al. 2009) e ampla heterogeneidade fisiográfica (rapini et al. 2009). além disto, não é incomum, espécies de ocorrentes nos campos rupestres apresentarem problemas na interpretação de sua variabilidade morfológica, que pode levar a dificuldades nas delimitações taxônomicas, como em Chamaecrista papillata H.S. Irwin & Barneby e C. mucronata (Spreng.) H.S. Irwin & Barneby (Leguminosae), Syngonanthus
circinatus ruhland (Eriocaulaceae) e Sisyrinchium vaginatum Spreng. (rando 2009, L. Echternacht com.
pess., Chukr 1992).
a relação entre heterogeneidade fisiográfica e a variabilidade morfológica sugerida pelo estudo morfométrico de Mimosa macedoana, além de afetar a morfologia dos vegetais, provavelmente promove a diversificação das espécies e pode ser invocada como um dos agentes promovedores do alto grau de endemismo existente na flora da Cadeia do Espinhaço (rapini et al. 2009).
Referências bibliográficas
CHUKr, N. S. 1992. Flora da Serra do Cipó, Minas Gerais: Iridaceae. Bol. de Bot. Univ. São Paulo 13: 111-131.
GIULIETTI, a. M., MENEZES, N. L., Pirani, J. r., Meguro, M. & Wanderley, M.G.L. 1987. Flora da Serra do Cipó, Minas Gerais: caracterização e lista das espécies. Bol. Bot. Univ. São Paulo 9: 1-151. GIULIETTI, a.M. & PIraNI, J.r. 1988. Patterns of geographic distribution of some plant species from
the Espinhaço range, Minas Gerais and Bahia. In P.F. Vanzolini & W.r. Heyer (eds.) Proceedings of a
workshop on neotropical distribution patterns held 12-16 January 1987. academia Brasileira de Ciências.
rio de Janeiro, p. 39-69.
GroPPo, M. & PIraNI, J.r. 2005. Flora da Serra do Cipó, Minas Gerais: aquifoliaceae. Bol. Bot.
Univ. São Paulo 23(2): 257-265.
KINoSHITa, L.S. & SIMõES, a.o. 2005. Flora da Serra do Cipó, Minas Gerais: apocynaceae s. str.
Bol. Bot. Univ. São Paulo 23(2): 235-256.
PIraNI, J.r., MELLo-SILVa, r., SaNo, P.T. & GIULIETTI, a.M. 2009. Flora da Serra do Cipó, Minas Gerais: um projeto formador de longa duração e suas perspectivas futuras. In C.W.N. Moura, T.r.S. Silva, a.M. Giulietti-Harley & F.a.r. Santos (orgs) 60° Congresso Nacional de Botânica. Botânica
Brasileira. Futuro e compromissos. Resumos em DVD. EDUNEB. Salvador, p. 120-126.
Fig. 16. Gráfico do número de espécies de Mimosoideae para a Serra do Cipó distribuído por domínios vegetais onde foram coletadas. Espécies coletadas em ambientes alterados (cinco) não foram incluídas. ma – Domínio da Mata Atlântica (floresta estacional semidecidual); cer – Domínio do Cerrado (cerrado e campo rupestre).
raNDo, J.G. 2009. Chamaecrista (Breyne) Moench. seções apoucoita, Chamaecrista e Xerocalyx
(Leguminosae- Casalpinioideae) na Serra do Cipó em Minas Gerais.Dissertação de Mestrado. Instituto
de Biociências da Universidade de São Paulo. São Paulo.
raPINI, a., ribeiro, P.L., Lambert, S. & PIraNI, J.r. 2009. a flora dos campos rupestres da Cadeia do Espinhaço. Megadiversidade 4: 15-23.
SaNToS, M.F. 2009. análise florística em floresta estacional semidecidual na encosta leste da Serra do Cipó, MG. Dissertação de Mestrado. Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Departamento de Botânica. 145 p.
SCHrIrE, B.D., LEWIS, G.P. & LaVIN, mM. Biogeography of the Leguminosae. In Lewis, G. P., Schirire, B., Mackinder, B. & Lock, M. (eds.) 2005. Legumes of the World. royal Botanical Gardens. Kew.
SIMoN, M.F. & ProENça, C. 2000. Phytogeographic patterns of Mimosa (Mimosoideae, Leguminosae) in the Cerrado biome of Brazil: an indicator genus of high-altitude centers of endemism? Biological
Conservation 96: 279-296.
SoUZa, V.C. & GIULIETTI, a.M. 2003. Flora da Serra do Cipó, Minas Gerais: Scrophulariaceae. Bol.
RESUMO
o estudo de Leguminosae Mimosoideae é parte do projeto “Flora da Serra do Cipó, Minas Gerais, Brasil”, e apresenta chaves de identificação, ilustrações, comentários sobre distribuição geográfica e fenologia para os gêneros e espécies dessa região. o trabalho de campo e estudos de coleções de herbários indicam que Mimosoideae é representada na área por 57 espécies, pertencentes a 13 gêneros: Abarema (2 spp.), Albizia (1 sp.), Anadenanthera (1 sp.), Calliandra (6 spp.), Enterolobium (1 sp.), Inga (6 spp.),
Leucochloron (1 sp.), Mimosa (25 spp.), Piptadenia (3 spp.), Plathymenia (1 sp.), Pseudopiptadenia (2
spp.), Senegalia (4 spp.) e Stryphnodendron (3 spp.). Mimosa macedoana é uma das espécies encontradas nos campos rupestres da região, cujas exsicatas permitem distinguir dois morfotipos pelo tamanho das partes vegetativas. Para averiguar se esta distinção ocorre em ambiente natural, duas populações da espécie foram submetidas a estudo morfométrico com uso de métodos de estatística multivariada (LC, PCa e DF). os resultados evidenciaram que as populações analisadas são morfologicamente distintas e que características fisiográficas dos afloramentos rochosos onde se situam as populações podem influenciar a variação morfológica.
ABSTRACT
The study of Leguminosae Mimosoideae is part of the project “Flora of Serra do Cipó, Minas Gerais, Brazil”, which aims to provide identification keys, illustrations, comments on geographic distribution and phenology to genera and species from this region. Field and herbaria studies indicate that Mimosoideae is represented in the area by 57 species belonging to 13 genera: Abarema (2 spp.), Albizia (1 sp.), Anadenanthera (1 sp.), Calliandra (6 spp.), Enterolobium (1 sp.), Inga (6 spp.), Leucochloron (1 sp.), Mimosa (25 spp.),
Piptadenia (3 spp.), Plathymenia (1 sp.), Pseudopiptadenia (2 spp.), Senegalia (4 spp.) and Stryphnodendron
(3 spp.). The exsicattae of Mimosa macedoana, one of the species occurring at the rocky fields of the region, show two morphotipes distinguished by the size of their vegetative parts. aiming to investigate whether this distinction also happens in the natural environment, two populations of the species were submitted to a morphometrical analysis using multivariate statistical methods (LC, PCa & DF). results showed that the populations are morphologicaly distinct, and that physiographic caracteristics of the rocky outcrops where the populations grow may influence the morphological variation.