A violência sexual contra crianças e adolescentes parece estar de maneira mais evidente na agenda do jornal paranaense e um dos principais indicadores que colaboram para esta constatação é o de que a maioria das narrativas (55,1%) relacionam o abuso à violência doméstica. Para que se possa pensar em alguns
fatores que podem influir neste número, é importante entender que quase metade (44%) das reportagens com este enfoque foi construída por profissionais que foram condecorados pela Andi com o título de Jornalista Amigo da Criança. Em muitos casos, a abordagem não é a que normalmente se costuma observar nas narrativas jornalísticas. Vinte e quatro (24%) das notícias estão relacionadas, por exemplo, a pesquisas internacionais ou leis polêmicas sobre abuso sexual. Uma delas é sobre um projeto aprovado pelo parlamento australiano para coibir a pedofilia em tribos aborígines (GP-N 55; 18.08.07). Outra discute a “suspensão das penas para relações sexuais consentidas com menores entre 14 e 17 anos” (GP-N 47; 25.06.07) no Peru. Duas notícias são sobre uma pesquisa que revela o percentual de crianças abusadas na Índia: “Dois terços das crianças da Índia sofreram abuso sexual” (GP-N 34; 10.04.07). A pesquisa, segundo a reportagem, foi realizada pelo governo indiano com o apoio da ONU e da organização sueca Save the Children.
Durante o período pesquisado, o jornal fez pelo menos duas reportagens com a socióloga Marlene Vaz, uma reconhecida especialista na área das violências sexuais contra a infância. As entrevistas assumem um caráter pedagógico ao distinguir conceitos como o de “abusador circunstancial” e o “pedófilo” – normalmente tratados como sinônimos – e trazer definições para que também não se confunda abuso com exploração sexual:
o abuso sexual ocorre quando um adulto busca a gratificação sexual com um menor de 18 anos, inclusive sem contato físico. Já a exploração consiste na utilização de crianças ou adolescentes para atividades sexuais remuneradas, como no comércio de sexo, a pornografia infantil ou exibições em espetáculos sexuais públicos ou privados. (GP-N 40;16.05.07)
A mesma preocupação foi identificada na reportagem sobre a policial militar que percorre o estado do Paraná realizando palestras sobre pedofilia. Além de contar a estória da mulher, informações e dicas que saíram da cartilha produzida pela agente compõem a matéria:
a sargento trabalha com os seguintes dados: 67% dos pedófilos são padrastos, 20% são pais; 10% são mulheres (mãe, tia, empregada). [...] Pacto de silêncio – Até os cinco anos, muitas crianças entendem a agressão sexual como um carinho, o que as faz ceder. (GP-N 36; 04.05.07)
A reportagem também traz abordagens pouco usuais nas narrativas jornalísticas. Um exemplo é a conseqüência da falta de uma tipificação penal que reconheça a pedofilia como crime:
Há poucas informações disponíveis sobre o assunto porque o direito penal não reconhece a pedofilia como um delito específico, mas uma variante dos crimes sexuais. Graças a essa aberração legal, o homem que violenta uma mulher de 30 anos e que ataca uma criança de 6 estão passíveis a mesma punição – pena de seis a dez anos de detenção (GP-N 36; 04.05.07)
O aspecto familiar associado ao abuso também é mais evidenciado nas narrativas. As reportagens enfatizam o fato de a violência ser provocada por quem mais as deveria proteger: “Em média, os pais respondem por 59% dos casos de violência contra os filhos. Eles foram os responsáveis por seis mil casos atendidos pelos Conselhos Tutelares” (GP-N 20;31.12.06). Ou ainda:
Uma a uma, pesquisas têm derrubado o folclórico mito do tarado que persegue criancinhas nas ruas. Em média, nada menos do que seis entre dez casos de violência sexual acontecem dentro da própria residência da pessoa atendida. (GP-N 43; 18.05.07)
Chama a atenção que pelo menos 20% das notícias tragam estatísticas. São dados produzidos não só por órgãos nacionais, como o IBGE, ou Secretaria Especial de Direitos Humanos, mas também organizações locais: polícia civil, centros de saúde que são referência no atendimento a crianças vítimas de maus tratos, ministério público, judiciário, conselhos tutelares:
Apenas nos primeiros 20 dias de 2007, o número de ocorrências de violências contra meninos e jovens registradas no Núcleo de Proteção à Criança e ao adolescente Vítima de Crime (NUCRIA) chega a 127. (GP-N 24; 23.01.07).
No período pesquisado, as reportagens da GP parecem explorar com maior abrangência – se comparadas às do jornal gaúcho – a rede social que faz o trabalho de prevenção e atendimento. Um exemplo é a notícia sobre uma campanha realizada por um hospital de referência na cidade de Curitiba para capacitar os médicos ortopedistas a identificarem sinais de maus tratos, e casos de abuso. Diz a reportagem:
Com o objetivo de conquistar o apoio da classe médica para combater esse tipo de abuso será lançada hoje em Fortaleza (CE), durante o 38º Congresso Brasileiro de Ortopedia, a campanha ‘Pra Toda Vida – A violência não pode marcar o futuro das Crianças’. A iniciativa é do Hospital Pequeno Príncipe e da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT). (GP-N 15; 11.11.06).
O poder público, incluindo o Judiciário, é cobrado nas reportagens a responder pelo tratamento e prevenção do tema. Duas matérias são sobre a estrutura judicial do estado responsável pelos processos relacionados às agressões contra a criança. Uma, sobre a criação de uma vara especializada em processos relacionados a violência contra crianças e adolescentes, e outra, dez meses após, sobre os resultados da criação desta vara:
o tempo para julgamento de um crime cometido contra crianças e adolescentes em Curitiba caiu de três anos, em média, para cerca de seis meses, desde a criação de uma vara especializada para julgar estes casos. (GP-N 59; 02.10.07)
Ações sociais concretas são apontadas como necessárias para tratar o problema.
Além da falta de apoio aos pais em recuperação, o estado também viola os direitos da infância quando não oferece vagas em creche ou no ensino fundamental, por exemplo, o que leva à exclusão ou à
evasão escolar”. (GP-N 20; 31.12.06)