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No processo da transição para a parentalidade, o homem e a mulher defrontam-se com inúmeras funções a realizar, uma delas é a ligação ao feto que condiciona a sua adaptação. A ligação dos pais ao feto em gestação acontece justamente no início da gravidez, denominada vinculação pré-natal (Figueiredo & Costa, 2009; Samorinha, Figueiredo, & Cruz, 2009).

A ideia de que a vinculação parental começa durante a gravidez não é recente. Camarneiro e Justo (2010), apontam que a vinculação pré-natal é um vínculo emocional estabelecido anterior ao nascimento entre os progenitores e o bebé. Outros estudos neste campo têm confirmado que a vinculação dos pais com o filho antes do nascimento possibilita primeiro uma interiorização prematura do feto, por meio de imagens, expetativas e preocupações relativas ao filho que vai nascer, incluindo este ser humano no âmbito familiar, o que possibilitará uma relação triádica mãe-pai-bebé depois do nascimento (Brito, 2009; Piccinini, Levandowski, Gomes, Lindenmeyer, & Lopes, 2009). O processo de vinculação continua depois do nascimento e inclusive após o período pós-natal (Klaus, Kennell, & Klaus, 1995 citados por De Cock, Henrichs, Vreeswijk, Maas, Rijk, & Van Bakel, 2016).

Neste âmbito, Klaus, Kennel, e Klaus (2000) consideram que a aceitação e o planeamento da gravidez, a consciencialização dos movimentos fetais, a perceção do feto como um ser independente, a experiência do parto, o nascimento do bebé, os “gestos” de contemplar, tocar, cuidar e acolhê-lo como um ser individual no seio familiar, representam factos relevantes para o desenvolvimento do vínculo. Por conseguinte, reconhece-se que a relação do vínculo dos pais começa ao longo da gravidez, com um desenvolvimento progressivo nos sentimentos de vinculação da mãe em direção ao bebé durante a gravidez, principalmente em resposta aos movimentos fetais (Sedgmen, McMahon, Cairns, Benziel, & Woodfield, 2006; Gomez & Leal, 2007).

A informação sobre a gravidez dá início ao primeiro trimestre e manifesta o começo de um processo em que o casal se torna pai, dando início à ligação ao feto. O consentimento e a adaptação da gestação e a consciencialização do feto como parte integrante da mãe são importantes (Bayle, 2006).

A relação paterna deve ser entendida de forma particular, uma vez que o vínculo entre pai-filho é indireto, mediado pela mãe. Tal e qual as mulheres, os homens também podem sofrer de uma crise emocional como angústias e fantasias durante a gestação, denominado como a “Síndrome de Couvade” referindo-se durante todo o desenvolvimento da gravidez, a uma expressão somática de angústia ou ansiedade. Esta síndroma é evidenciada por sintomas psicológico/físicos semelhantes aos das gestantes (Piccinini, Silva, Gonçalves, Lopes, & Tudge, 2004).

Diversas investigações abrangem os exames de rotina da gravidez na promoção do

bonding pré-natal. A ecografia fornece aos progenitores uma afirmação visual da gravidez e

contato com o filho que vai nascer, dado que visualizar o filho é um elemento significante da representação cognitiva que os progenitores formam do filho/a e esta representação é um fator fundamental na evolução do vinculo pré-natal, contribuindo também para a diminuição da ansiedade dos pais (Kleinveld, Timmermans, van den Berg, van Eijk, & Ten Kate, 2007; Sedgmen et al., 2006). Os avanços da ciência nos últimos 20 anos, permitiram que a gravidez seja vivida de outra forma, sendo possível precisar a idade gestacional com rigor, e visualizar o desenvolvimento e crescimento do feto, a fim de identificar anomalias fetais, e disfunções cromossómicas. A apresentação de imagens do feto, para além de fortes sentimentos de vinculação, promove comportamentos adequados de saúde ao longo da gravidez (Sedgmen, et al., 2006).

Numa investigação de Kohn e colaboradores (1980 citados por Samorinha et al., 2009), os cônjuges mencionaram sentimentos elevados de proximidade e conhecimento do

recém-nascido, assim como o acréscimo da responsabilidade em ser pais, após observarem o filho (a). Deste modo, presume-se que a visualização do feto por meio da ecografia pode originar emoções que estimulam a vinculação pré-natal, o que une o casal e afeta o seu compromisso e estilo de vida.

Um estudo realizado por Samorinha, et al., (2009) revelou que a ecografia tranquiliza e fortalece a ligação dos pais ao bebé durante a fase da gravidez. Os autores avaliaram o impacto da ecografia do primeiro trimestre na ansiedade e vinculação pré-natal, tendo os resultados evidenciados que, após a realização da ecografia, a vinculação pré-natal aumentava significativamente, verificando-se uma diminuição da sintomatologia ansiosa, tanto nas mulheres como nos homens.

Figueiredo, Costa, Pacheco, e Pais (2007) e Figueiredo, Costa, Marques, Pacheco, e Pais (2005) verificaram a inexistência de diferenças entre os progenitores com relação ao nível de vinculação com o feto. As investigações neste contexto, não constataram diferenças entre mães e pais na vinculação pré-natal, seja antes ou após da ecografia.

De acordo com Condon (1993) no decorrer do período da gravidez, os pais adquirem uma representação interna, progressivamente formada do feto composta por um conjunto de realidades e fantasias, nas quais o feto assume um papel de projeção que promove o desenvolvimento do vínculo emocional. O mesmo autor afirma que os padrões que fortalecem o vínculo pais-bebé envolvem desejar conhecer, proteger e ir ao encontro das suas necessidades.

Um estudo desenvolvido em Portugal por Camarneiro e Justo (2010) cujo objetivo era analisar e distinguir o vínculo pré-natal materno fetal e paterno fetal, concluiu que homens mais novos estavam mais vinculados ao feto, seja globalmente, seja na intensidade da preocupação e na qualidade da vinculação. Verificou-se de igual modo um nível de vinculação pré-natal superior em homens pais pela primeira vez, tanto na vinculação pré-natal global e de intensidade da preocupação. Contudo, não se verificou mudanças na qualidade da vinculação. O planeamento da gravidez é uma variável significativa para a vinculação materno-fetal e paterno-fetal e verifica-se uma qualidade superior de vinculação na mulher, assim como no homem, quando a gravidez é desejada, ao contrário de quando a gravidez não é planejada nem desejada, onde os níveis de vinculação são inferiores.

Os dados acerca de outras relações da vinculação pré-natal são limitados e menos consistentes. Cranley, 1981;Condon e Esuvaranathan (1990) não constataram nenhuma diferença nos níveis de vinculação entre mães primíparas e multíparas, apesar de, Bloom (1995 citado por Gomes & Leal, 2007) verificar que as mães com idade superior aos 35 anos

mencionaram menor vinculação pré-natal, em relação às mais jovens. Contudo, no estudo de Righetti et al., (2005) a idade não se correlacionava com o nível de vinculação materna ou paterna.

Camarneiro e Justo (2012) realizaram uma investigação com o objetivo de comparar a satisfação conjugal e o vínculo pré-natal das mulheres e dos homens ao longo da gestação, de acordo com o número de filhos. Os investigadores confirmaram que a satisfação conjugal nas mulheres e homens era superior na primeira gestação comparativamente com a segunda, além disso, concluíram que o vínculo materno e paterno não alterava de acordo com o número de filhos. Logo, as dimensões de vinculação pré-natal total e intensidade da preocupação paterna são superiores nos homens sem filhos. Entretanto nas mulheres estas variáveis não são influenciadas pela paridade (número de filhos), a vinculação pré-natal total ao feto e a intensidade da preocupação materna é superior, não se verificando diferenças estatisticamente significativas seja nas grávidas primíparas ou multíparas.

As investigações que têm associado a vinculação do feto com a paridade, ou com o número de filhos, indicam que as primíparas estão mais vinculadas ao feto do que as multíparas, assim como os homens que vão ser pais pela primeira vez têm níveis superiores na vinculação global paterna ao feto em comparação com os que já têm filhos. Lorensen, Wilson, e White (2004) acreditam que os causadores pelo acréscimo desta vinculação dos pais ao feto são a excitação, o orgulho e o efeito novidade. Por sua vez, Condon e Esuvaranathan (1990) associaram a baixa vinculação pré-natal encontrada nos homens que já têm filhos ao declínio da qualidade de singularidade que descreve o nascimento de um filho em pessoas que experienciaram essa fase da vida.

Por outro lado, algumas investigações recentes vão no sentido de não haver diferenças entre o número de filhos e a vinculação pré-natal paterna e materna. Do mesmo modo, a correlação entre a vinculação pré-natal materna e a vinculação pré-natal paterna parece ser moderada e positiva (Camarneiro & Justo, 2009). Apesar de se desvalorizar o pai neste processo de vinculação, a figura paterna tem uma função imprescindível na construção da vinculação da mãe com o bebé. Se a mãe compreender que é desejada e amada pelo pai da criança, tende a realizar satisfatoriamente as tarefas de ser mãe. Investigações mostram que o suporte amoroso do esposo auxilia a mulher a aperfeiçoar sua obrigação maternal (Gomes, Marin, Piccinini, & Lopes, 2015).

Considerando a inexistência de resultados consensuais a este respeito, debruçar-nos- emos agora sobre a especificidade da vinculação materna e paterna.