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G RUNNLAG FOR OFFENTLIG INNGREP

DEL 3: TEORI OG INKUBASJONSLITTERATUR

4. TEORETISK UTGANGSPUNKT

4.3 G RUNNLAG FOR OFFENTLIG INNGREP

Figura 169. Kimiko e Jardineiro.

O casal de ceramistas Gilberto Jardineiro e Kimiko Suenaga se instalou em Cunha em 1984, com um ateliê de renome: são conhecidos pelas “Aberturas de Fornadas”, onde apresentam os processos da sua cerâmica. Explicação e aprendizado que não se esquece, pois encantam e cada visita e participação de uma abertura de fornada podem ser consideradas um momento único.

Jardineiro já havia integrado grupo Takê, composto por Maria Estrela, Alberto e Toninho na década de 1970, na Bahia. Participou também da primeira queima reali- zada pelo grupo recém-instalado em Cunha.

No inicio da década de 1980, Jardineiro, com o desejo de conhecer o mundo, partiu em uma viagem que durou cerca de nove anos, percorrendo diversos países, entre esses o Japão. Em Tóquio teve seu primeiro contato com a cerâmica. Nessa cida- de conheceu e se casou com Kimiko, natural de Yokohama, ceramista desde 1970, com ateliê próprio em Tóquio. Ela relata que, quando conheceu Jardineiro, havia um grande número de ceramistas no Japão e a concorrência era alta, portanto tornava- -se sufocante trabalhar nesse meio e por isso tinha planos de trabalhar em outro lugar, conhecer outra cultura. Quando se estabeleceu em Cunha, mesmo sem falar português e sem entender nada, diz que não foi difícil adaptar-se, que foi bem rece- bida e que reconhece a grande liberdade de trabalhar e de viver no Brasil.

Em 1985, Jardineiro montou seu primeiro forno noborigama, e até 1988 ele e Kimiko trabalhavam na pesquisa dos tipos de esmaltes que deveriam usar e nas diiculdades técnicas relativas à temperatura. Durante esses anos, após as queimas, Jardineiro saía para vender as peças no Rio ou em São Paulo, enquanto Kimiko icava em casa cuidando dos ilhos pequenos. Quando voltava das viagens, sentia-se em parte feliz, porque tinha conseguido dinheiro para a próxima queima, mas por outro lado triste por ver a cerâmica que estava fazendo ser tratada como mercadoria, e não como arte. Em 1988, ele tomou uma importante iniciativa. Na véspera de abrir o forno, sentou e escreveu cinquenta convites a mão, chamando os amigos de Cunha para compar- tilhar a abertura do forno com uma garrafa de vinho, o que chamam de Kamabiraki. Conta Jardineiro que os amigos vieram, e foi sensacional: elogiavam e admiravam as peças. A partir de então, passaram a convidar as pessoas para irem até Cunha, com a intenção de fazer contato direto com o comprador e escapar do lojista que visa apenas o aspecto comercial e o lucro. Para isso, Jardineiro assinou vários jornais, anotando o nome de pessoas que se interessavam por cerâmica, e com uma lista telefônica obtinha o endereço das pessoas que havia listado, para fazer e enviar os convites. Primeiramente, fez um bom cadastro das cidades próximas a Cunha e de- pois se estendeu a São Paulo, chegando a um cadastro de 9 mil endereços. Kimiko relata que nunca deixou de vir gente – no início eram trinta a cinquenta pessoas, agora chegam a receber cerca de quatrocentas pessoas em cada abertura de forno.

Em dia de Kamabiraki, abertura de forno que acontece a cada dois meses, o pú- blico tem a oportunidade de conhecer o mundo mágico e processual da cerâmica, pois Jardineiro explica todo o processo realizado no ateliê, desde a argila utilizada, a composição dos vidrados, a queima, com demonstrações do material de forma dinâmica e bem metodológica, para ao inal mostrar o resultado abrindo uma das câmaras do seu forno noborigama. Como o forno tem quatro câmaras, o evento pos- sui quatro horários deinidos, em que cada horário é aberta uma câmara do forno.

Figura 170. Disposição das peças no ateliê.

Figura 172. Jarra com vidrado de cinzas e pedra-ferro, queima em forno noborigama. O ateliê de Suenaga e Jardineiro produz sua própria argila, extraída das monta- nhas de Cunha. A argila branca utilizada ica cerca de oito meses envelhecendo, para recuperar a plasticidade, conforme igura abaixo.

Figura 173. Kimiko mostrando o processo da argila envelhecendo no ateliê.

O forno noborigama de quatro câmaras foi reconstruído em 2009 e chega a tem- peratura de 1400°C, com duração de mais de trinta horas de queima. Anualmente são realizadas de cinco a seis queimas.

Figura 174. Forno noborigama.

Segundo Jardineiro, o processo de obtenção de vidrados é resultado de vários testes e de anos de experiência, assim como a composição da argila utilizada e a queima em forno noborigama.

Os vidrados utilizados no ateliê são:

◊ Vidrado de cinzas da lenha do eucalipto:

As cinzas de eucalipto são preparadas da lenha de eucalipto usada na quei- ma do forno noborigama. São 15 m3 de lenha a cada queima (cinco queimas

anuais) e toda a cinza recolhida é lavada e decantada durante vários dias para extração da saturação da soda e do potássio e alteração do pH. São obtidos, em média, 15 quilos de cinza lavada e decantada cada queima. Es- malte desenvolvido como base sólida e adequada para receber e valorizar a pincelada vigorosa com azul cobalto denso, colonial, que se sobrepõe na superfície opaca, semitransparente, neutra, que reage muito bem às alte- rações de oxidação e redução da queima a lenha. Para poder manter uma superfície estável, que não interira na pintura, a alumina introduzida pela argila levanta consideravelmente o ponto de fusão e a utilização de cinza de lenha de eucalipto, contendo soda e potássio, atua como forte fundente e restabelece a luidez do esmalte, protegida pela viscosidade da sílica da cinza de casca de arroz e pela base do feldspato. Pintura: óxido de cobalto denso tipo colonial e óxido de ferro em motivos lorais e igurativos. Com-

posição: cinza de lenha de eucalipto, cinza de casca de arroz, argila e felds- pato. (Gilberto Jardineiro)35

Figura 175. Cinza de eucalipto.

Figura 176, Lavagem das cinzas.

◊ Vidrado de cinzas da casca de arroz (shirahagui):

A casca de arroz é utilizada como provedora da viscosidade da sílica para controlar a luidez do esmalte, em substituição ao quartzo mineral origina- dor do “peeling” ou despregamento do esmalte do corpo de argila pelo seu excesso de tensão de superfície quando próximo do ponto de fusão. Obtida no município vizinho de Guaratinguetá, produtor de arroz de molhado tipo japonês, a casca de arroz é calcinada e a cinza é moída em moinho de bola para diminuir a granulação e facilitar a fusão do esmalte. Desenvolvido no oriente, é tipicamente um esmalte de forno a lenha muito admirado e de- sejado por explorar de maneira magníica a reação da soda que circula nas chamas com a sílica do esmalte e da argila, promovendo a sedimentação, deslizamento e a cristalização desse esmalte que encanta pela delicadeza de sua beleza. Características: superfície leitosa, translúcida, semitrans- parente, alegre e clara, resistente, adequada para a culinária e gastrono-

mia. Pintura: óxido de cobalto claro tipo aquarela e óxido de ferro em moti- vos lorais. Composição: cinza de casca de arroz, argila e cinza de lenha de eucalipto. (Gilberto Jardineiro)

Figura 177. Cinza da casca de arroz.

Figura 179. Peça com vidrados da casca da cinza do arroz.

◊ Vidrado de pedra-ferro (tenmoku):

A pedra-ferro é uma rocha basáltica de mais de 100 milhões de anos, for- mada pela iniltração do magma basáltico nas issuras da placa tectônica da América do Sul durante sua separação e afastamento da África. Pos- teriormente, durante o soerguimento da Serra do Mar no Terciário, há 30 milhões de anos, blocos desse material aloraram à superfície e podem ser encontrados na região de Cunha. Pequena amostra da camada exter- na da pedra-ferro, oxidada pela longa exposição à intempérie, submetida à 1400ºC fundiu e revelou qualidades propícias para seu aproveitamento como esmalte cerâmico. Submetida à análise de espectrômetro de massa, revelou conter 43% sílica, 15% alumina, 30% ferro e surpreendentes 8,1% titânio. À pedra-ferro moída juntou-se argila decantada para assegurar a contenção da luidez natural veriicada nas amostras e para promover a sua melhor aderência ao corpo da cerâmica. A introdução da argila levan- ta o ponto de fusão e a cinza de lenha de eucalipto é incorporada como fundente. Para equilibrar o conjunto, introduzindo viscosidade, a cinza de casca de arroz completa os ingredientes deste esmalte. Foram necessá- rias várias rodadas de testes em aproximadamente dez queimas para a deinição da quantidade de cada ingrediente e ao inal o ateliê trabalha atu- almente com duas versões dos mesmos ingredientes, com menos e mais cinza de casca de arroz, geralmente a fórmula com mais cinza de casca de arroz, caramelada, aplicada parcialmente sobre a fórmula mais escura, de cor marrom (oxidada) ou preto (reduzida), que é aplicada sobre todo o corpo

da cerâmica. Esmalte denso, diferenciado em duas versões, sobrepostas, originando uma tríade colorida de tons profundos onde a primeira aplica- ção gera preto ou marrom, por vezes em conjunto, e sobre tal base se so- brepõem parcialmente a camada rica em cinza de casca de arroz, viscosa, de agradável cor de caramelo, introduzindo contraste e luminosidade neste esmalte. Composição: pedra-ferro moída, argila, cinza de casca de arroz, cinza de lenha de eucalipto. (Gilberto Jardineiro)

Figura 180. Materiais que compõem o vidrado de pedra-ferro.

Figura 181. Peças com vidrado de cinzas e pedra-ferro.

Além das cinzas, são utilizadas como matéria-prima: três tipos de argilas extraí- das da região e envelhecidas por oito meses, pedra-ferro basáltica (também extraída da região), areia monazítica (ilmenita, para utilização de dióxido de titânio), feldspato, calcita, caulim, quartzo e óxidos de ferro, cobalto e cobre.

Acabamos de realizar, com sucesso, testes com amostras de cinzas do vul- cão chileno Puyehue. A diiculdade é ter acesso a quantidade do material para incorporar aos esmaltes do ateliê.

Técnica tradicional de esmaltação com cinzas adaptada aos materiais e a maneira de fazer cerâmica no Brasil, gera admiração a cada vez que uma abertura de forna- da é realizada.