Para Schopenhauer o caráter inteligível coincidindo com a Ideia platônica, age de forma tal que determina os outros caracteres, visto que ele também age em todas as objetivações da Vontade, porém no homem em maior grau, pois vista a sua singularidade e individualidade o homem se diferencia do animal que é dado em sentido da espécie. Nosso caráter, nosso querer, aparece de maneira distinta das formas de objetivação animal dada a nossa subjetivação e abstração. O caráter inteligível, portanto, mesmo visto de forma diferente no homem (por expressar o ser íntimo de cada indivíduo, sua essência, e não da espécie), é um ato original da Vontade em todas as formas de objetivação como menciona nosso autor:
O caráter inteligível coincide, portanto, com a Ideia ou, dizendo mais apropriadamente, com o ato originário da Vontade que nela se objetiva. Em verdade, não é apenas o caráter empírico de cada homem, mas também o caráter empírico de cada espécie animal, sim, de cada espécie vegetal e até de cada força originária da natureza inorgânica que deve ser visto como fenômeno de um caráter inteligível, isto é, de um indiviso e extratemporal da Vontade (SCHOPENHAUER, 2005, 221-222).
Cada sujeito, dada a sua individualidade, singularidade fenomênica, participando da Ideia platônica, carrega sobre si o peso do seu próprio caráter, aquilo que lhe é natural, desse modo, expressa o determinismo da coisa-em-si perante o seu caráter empírico, sendo assim, não há liberdade82 para escolher seus atos morais, a única liberdade que há é a da própria
coisa-em-si, a Vontade. Sendo o caráter inteligível, imutável e inviolável, nada a razão pode
fazer para tornar alguém ético. Podemos a partir de ensinamentos apenas modificar as ações do indivíduo a partir de motivos externos advindos do princípio de razão suficiente, mas no final das contas seu caráter permanece o mesmo. Dessa forma, os dogmas religiosos, os ensinamentos de virtude e dever não adiantariam de nada se fossem utilizados na intenção de aperfeiçoar o ser humano em relação a seu caráter moral.
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Como dissemos anteriormente, Schopenhauer não nega que podemos ter decisões a partir de representações abstratas e com isso uma liberdade física (empírica), porém, está no nível do princípio de razão suficiente, já que não posso mudar meu querer, apenas decidir a ação depois do querer já escolhido pela Vontade, porém, como a liberdade moral e o caráter inteligível é resultante da própria Vontade, nada o homem pode fazer para se tornar
alguém virtuoso. A isso que acabamos de mencionar Schopenhauer diz: “A decisão propriamente dita é por ele
esperada de modo tão passivo e com a mesma curiosidade tensa como se fosse a de uma vontade alheia. De seu ponto de vista, entretanto, as duas decisões têm de parecer igualmente possíveis: isso justamente é o engano da liberdade empírica da vontade. Na esfera do intelecto a decisão entra em cena de modo totalmente empírico, e como conclusão final do assunto; contudo, esta se produziu a partir da índole interior, do caráter inteligível, da
vontade individual em seu confronto com os motivos dados e, por conseguinte, com perfeita necessidade”
94 A virtude é tão pouco ensinada quanto o gênio; sim, para ela o conceito é tão infrutífero quanto para a arte e em ambos os casos deve ser usado apenas como instrumento. Por conseguinte, seria tão tolo esperar que nossos sistemas morais e éticos criassem caracteres virtuosos, nobres e santos, quanto que nossas estéticas produzissem poetas, artistas plásticos e músicos. (SCHOPENHAUER, 2005, p. 353- 354)
O sujeito do caráter inteligível é aquele em que sua própria natureza demonstra seu verdadeiro caráter, assim, podendo ter disposição para agir conforme as motivações, sejam elas egoístas, maldosas ou compassivas, como vimos. Porém, já que não temos a liberdade de escolher nosso caráter, aquela velha pergunta ainda fica sem resposta: será que realmente temos alguma culpa se nosso caráter é inato? Mesmo que Schopenhauer negue os dogmas religiosos do cristianismo é justamente lá que ele encontra tal resposta mas, claro, separando a alegoria do significado profundo. Desse modo, se é verdade que as religiões só sobrevivem por causa dos dogmas, dos mistérios que fazem parte de sua doutrina, não sendo, portanto, a razão83 a mola propulsora, pois elas não conseguiriam sobreviver às mudanças de critério porque lhes faltaria a fé, o mito aparece como solução. Schopenhauer vê no Pecado Original cristão uma maneira de explicar que nossa culpa recai sobre o simples fato de nossa existência. A vontade de viver faz da vida sua própria miséria e dor. Como bem disse
Rousseau (1955, p. 23): “o destino do homem é sofrer em qualquer época. O próprio cuidado de sua conservação está ligado à dor”. Bom mesmo para o homem seria não ter nascido84
. Somente aniquilando a si mesmo o homem conseguirá se libertar de sua culpa.
O Cristianismo é a doutrina que afirma que o homem é profundamente culpado pelo único fato de ter nascido, e ensina ao mesmo tempo que o coração deve aspirar à libertação que só se pode obter à custa de grandes sacrifícios, pela renúncia, pelo aniquilamento de si próprio, isto é, por uma transformação total da natureza humana. (SCHOPENHAUER, s.d. p. 48)
É no fenômeno da compaixão que o homem encontra tal aniquilamento de sua individualidade e egoísmo. Em cada alma se encontra a dor e o mal do próprio mundo, e é
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Porém aqui cabe uma ressalva que no cristianismo, embora somente a posteriori, a razão tem um papel também fundamental, pois ela se encontra como tentativa de provar e defender a fé, conforme se encontra na epístola de I Pedro 3:15.
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Não falamos aqui “o homem não ter nascido” como vindo da culpa por desrespeitar uma vontade divina tal como se encontra em Marcos 14:21, ou mesmo na hipótese do livre-arbítrio, já que esta pretensão foi descartada pelo nosso autor, pois caso fosse, sendo o caráter do homem de natureza inata a culpa caberia ao criador, caso aceitássemos o mito judaico cristão do pecado original conforme a leitura de Cacciola (1994, p. 168). Porém, aqui nos referimos à culpa como que a maneira com que a racionalidade não pode mudar a natureza do caráter humano, e apenas lhe mostra a dor do mundo e a negação da vida como forma de chegar a verdadeira moralidade.
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desse modo que a culpa recai sobre nós. Embora não possamos mudar o caráter humano, as sanções e penas adotadas como normas pelo Estado não são negadas por Schopenhauer por culpa de atos injustos, pelo contrário, elas são necessárias para enfrentar aqueles espíritos maldosos que infligem o direito alheio praticando injustiças e causando prejuízos à sociedade e aos indivíduos, mesmo que esses não possam ter seu caráter alterado.
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