Uma questão importante em termos de operacionalização de experimentos direcionados ao estudo do processo tradutório consiste na seleção de textos de partida equiparáveis sob diversas perspectivas, como organização, tamanho e nível de dificuldade do texto. Pautando- se no número e nos tipos de relações estabelecidas bem como na noção de coerência postulada pela Teoria das Estruturas Retóricas – i.e., um texto é coerente ou bem estruturado quando é possível estabelecer pelo menos uma relação entre um núcleo e um satélite ou entre um núcleo ou outro núcleo para o texto como um todo –, Silva (2007) mostra que a RST também pode ser uma ferramenta para a análise de textos no âmbito dos estudos processuais da tradução. Mais especificamente, o autor confirma que a RST pode constituir um quadro teórico-metodológico adequado para a avaliação e comparação tanto dos níveis de dificuldade de textos selecionados para experimentos em tradução quanto para a avaliação da coerência dos textos produzidos pelos sujeitos. Com base nos resultados das análises de textos produzidos em condições empírico experimentais, o autor defende que, embora os textos de chegada produzidos pelos sujeitos não necessariamente precisem apresentar estruturas retóricas análogas às do texto de partida do nível hierárquico 2 em diante para serem considerados coerentes e adequados aos propósitos da tarefa de tradução, a seleção de textos de partida equiparáveis deve se basear, dentre outros critérios (e.g., tamanho e assunto do texto), na existência do maior número possível de níveis hierárquicos superiores análogos em termos tanto de quantidade como de tipo de relações retóricas estabelecidas, com igual proporção entre relações sinalizadas e não sinalizadas (conceitos explicados mais adiante nesta seção).
Além disso, retomando-se as três dimensões da linguagem de acordo com a LSF (i.e., logogênese, ontogênese e filogênese), cumpre salientar que o estudo do texto na dimensão de sua logogênese, contemplada pela análise das estruturas retóricas, é um espaço relevante para se observarem princípios semogenéticos como os que têm lugar no discurso científico, que corresponde ao tipo de discurso das versões do texto de partida a serem analisadas no Capítulo 4. Esse procedimento, que enfoca as relações entre a gramática e o discurso, pauta-se no fato de que é no desenvolvimento do texto que os mecanismos de metaforização gramatical operam de forma análoga ao desenvolvimento no plano da ontogênese e da filogênese. Sob a perspectiva orientada para o estudo das relações retóricas e da metáfora gramatical, tem-se que a articulação da análise das relações retóricas com a análise dos significados lógicos, experienciais, interpessoais e textuais, com base na LSF, permite compreender, por um lado, como relações retóricas são gramaticalizadas e, por outro, qual o impacto de processos metafóricos nas relações retóricas e, consequentemente, na coerência de um texto.
A Teoria das Estruturas Retóricas (RST), desenvolvida na primeira metade da década de 1980 visando à geração de linguagem natural (TABOADA; MANN, 2006a, 2006b), consiste em uma abordagem linguístico-descritiva da organização de textos, em termos das relações entre as partes de um dado texto (text spans), as quais podem ser identificadas independentemente de sua realização em uma dada língua e de as relações serem sinalizadas ou não de forma gramatical e / ou lexical (MANN; THOMPSON, 1987, 1988). A partir da descrição da organização de um texto por meio de estruturas hierárquicas e interconectadas, essa teoria permite a compreensão da coerência textual, ao assumir que cada parte desse texto tem um papel, ou seja, desempenha uma função em relação às demais partes. As partes de um texto (text spans) podem compreender desde unidades inferiores ao nível da oração até o texto como um todo e se subdividem em núcleos (N) e satélites (S). Os núcleos correspondem às partes mais importantes do texto, ao passo que os satélites são secundários e contribuem para a compreensão e / ou aceitação de um dado núcleo.
A RST possibilita que o processo de análise seja realizado de forma bem estruturada e definida, de modo tal que o analista – também denominado observador – possa estabelecer, a partir de seu ponto de vista no que diz respeito à provável intenção do autor, a relação de coerência existente entre duas partes de um texto e entre estas e outras partes do mesmo texto.
A noção de coerência da RST se pauta no estabelecimento de estruturas retóricas, o que, por sua vez, assume como pressuposto o conceito de intenção do autor, ou seja:
[o] observador considera admissível que o autor do texto, ao produzi-lo, tenha considerado admissível a validade da relação encontrada. (MANN; THOMPSON, 1988)27
Estendendo essa premissa para o texto traduzido, objeto de análise desta tese, tem-se que:
o observador considera admissível que o tradutor do texto, ao traduzi-lo, tenha considerado admissível que o autor do texto, ao produzi-lo, tenha considerado admissível a validade da relação encontrada. (adaptado de MANN; THOMPSON, 1988)
Essa(s) premissa(s) justifica(m) a noção de coerência para a RST, segundo a qual cada parte de um texto desempenha uma função e apresenta alguma razão plausível para a sua presença, sendo essa função e / ou razão postulada como evidente para o leitor-alvo (L), tanto pelo autor do texto sob escrutínio como pelo observador (O), o qual faz julgamentos sobre o texto para produzir a análise. Destarte, duas partes de um texto não sobrepostas podem apresentar uma relação entre si, sendo essa relação determinada por quatro campos, a saber: (i) restrições no núcleo; (ii) restrições no satélite; (iii) restrições na combinação núcleo e satélite; e (iv) efeito alcançado no leitor. A partir desses quatro campos, são hoje identificadas 30 relações, que podem ser núcleo-satélite ou multinucleares (entre dois ou mais núcleos). Todas as relações podem ser encontradas no sítio eletrônico da RST (http://www.sfu.ca/rst/index.html), de modo que, para fins de objetividade, são apresentadas, no QUADRO 1 e no QUADRO 2 a seguir, apenas as 14 relações efetivamente encontradas nas versões dos textos de partida analisadas no Capítulo 4.
QUADRO 1 - Relações multinucleares postuladas pela RST e encontradas nesta pesquisa
Nome da relação Condições em cada par de N Intenção de A
CONJUNÇÃO Os dois itens estão agrupados de modo a formar uma unidade em que cada um deles desempenha um papel equiparável ao do outro.
L reconhece que itens inter- relacionados se encontram em conjunto.
CONTRASTE
Nunca mais de dois núcleos; as situações nestes dois núcleos são: (a) compreendidas como sendo as mesmas em vários aspectos; (b) compreendidas como sendo diferentes em alguns aspectos; e (c) comparadas em termos de uma ou mais dessas diferenças.
L reconhece a possibilidade de comparação e a(s) diferença(s) suscitadas pela comparação realizada.
SEQUÊNCIA Existe uma relação de sucessão entre as situações apresentadas nos núcleos.
L reconhece as relações de sucessão entre os núcleos.
Fonte: adaptado de Mann (2005).28 Nota: N = Núcleo; A = Autor; L = Leitor.
27 Minha tradução para: “The observer is stating that it is plausible to the observer that it was plausible to the author writing the text that <the finding> holds”.
28 O QUADRO 1 e o QUADRO 2 (exibido a seguir) utilizam a terminologia da RST em português europeu introduzida por Rui Manoel Silva no sítio oficial da RST (MANN; TABOADA, 2005). Disponível em: <http://www.sfu.ca/rst/01intro/definitions.html>. Acesso em: 02 jan. 2010.
QUADRO 2 – Relações núcleo (N) e satélite (S) postuladas pela RST encontradas no corpus desta pesquisa
Nome da relação Condições no S ou no N,
individualmente Condições em N + S Intenção de A
CAUSA
INVOLUNTÁRIA
Em N: N não representa uma ação voluntária.
S, por outras razões que não uma ação voluntária, deu origem a N; sem a apresentação de S, L poderia não conseguir determinar a causa específica da situação; a apresentação de N é mais importante para cumprir os objetivos de A, ao criar a combinação N-S, do que a apresentação de S.
L reconhece S como causa de N.
CIRCUNSTÂNCIA Em S: S não se encontra não realizado.
S define um contexto para o assunto, no âmbito do qual se pressupõe que L interprete N.
L reconhece que S fornece o contexto para interpretar N.
CONCESSÃO
Em N: A possui atitude positiva face a N.
Em S: A não afirma que S não está certo.
A reconhece uma potencial ou aparente incompatibilidade entre N e S; reconhecer a compatibilidade entre N e S aumenta a atitude positiva de L face a N.
A atitude positiva de L face a N aumenta.
CONDIÇÃO
Em S: S apresenta uma situação hipotética, futura ou não realizada (relativamente ao contexto situacional de S). A realização de N depende da realização de S. L reconhece de que forma a realização de N depende da realização de S. ELABORAÇÃO Nenhuma.
S apresenta dados adicionais sobre a situação ou alguns elementos do assunto apresentados em N ou passíveis de serem inferidos de N, de uma ou várias formas, conforme descrito abaixo. Nesta lista, se N apresentar o primeiro membro de qualquer par, então S inclui o segundo: conjunto :: membro; abstração :: exemplo; todo :: parte; processo :: passo; objeto :: atributo; generalização :: especificação. L reconhece que S proporciona informações adicionais a N. L identifica o elemento do conteúdo relativamente ao qual se fornecem pormenores. EVIDÊNCIA
Em N: L pode não acreditar em N a um nível considerado por A como sendo satisfatório.
Em S: L acredita em S ou considera- o credível.
A compreensão de S por L aumenta a crença de L em N.
A crença de L em N aumenta.
INTERPRETAÇÃO Nenhuma.
S relaciona N a um quadro de ideias não envolvidas em N propriamente dito e não atribuíveis a um julgamento positivo de A.
L reconhece que S relaciona N a um quadro de ideias não envolvidas no conhecimento apresentado em N propriamente dito. JUSTIFICAÇÃO Nenhuma.
A compreensão de S por L aumenta a sua tendência para aceitar que A apresente N.
A tendência de L para aceitar o direito de A a apresentar N aumenta. PREPARAÇÃO Nenhuma. S precede N no texto e tende a facilitar
a leitura ou compreensão de N.
L tem maior interesse ou facilidade na leitura de N.
REFORMULAÇÃO Nenhuma.
S reelabora N, sendo que N e S são considerados comparáveis, embora N seja mais central aos propósitos de A do que S.
L reconhece S como uma reelaboração, reiteração ou reformulação de N.
RESULTADO INVOLUNTÁRIO
Em S: S não representa uma ação voluntária.
N causou S; a apresentação de N é mais importante para cumprir os objetivos de A, ao criar a combinação N-S, do que a apresentação de S.
L reconhece que N poderia ter causado a situação em S.
Fonte: adaptado de Mann (2005).
Nota: N = Núcleo; S = Satélite; A = Autor; L = Leitor; O = Observador.
Em termos de diagramação, as relações entre núcleos e satélites são representadas por arcos que saem destes em direção àqueles, e as relações multinucleares são representadas por dois segmentos de reta que se interceptam na extremidade superior (cf. FIGURA 5).
FIGURA 5 - Exemplo de diagramação das relações entre núcleos e satélites (INTERPRETAÇÃO) e das relações multinucleares (CONTRASTE)
Fonte: análise da versão alfa apresentada no Capítulo 4 desta tese.
Observe-se, na FIGURA 5, que, em uma relação núcleo-satélite, a seta do arco aponta para o núcleo, e a outra extremidade corresponde ao satélite. Já em uma relação multinuclear, a igualdade de valor hierárquico entre os grupos é representada pela ausência de setas e pela proporcionalidade entre os segmentos de reta.
Cumpre ainda apontar que, em uma proposta de interface entre a LSF e a RST, Matthiessen (1991) estabelece, com base no local de efeito de cada relação, uma correspondência entre as relações e as metafunções sistêmicas (i.e., interpessoal – correspondente aos movimentos interativos em um diálogo; ideacional – correspondente a construções que o indivíduo faz de suas experiências de mundo; e textual – relacionada com a organização e conexão do discurso). Assim sendo, as relações que têm tanto o núcleo quanto o satélite como locais de efeito correspondem a relações ideacionais, haja vista que o efeito intencionado dessas relações é um reconhecimento de algum fato ou situação. Já as relações que têm apenas o núcleo como local de efeito correspondem à metafunção interpessoal, haja vista que seu efeito intencionado é que o leitor tenha considerações cada vez mais positivas quanto à situação apresentada no núcleo. Matthiessen (1991) ainda explica que não há relação cuja função corresponda à metafunção textual, mas salienta que a ordem das partes dos textos funciona de forma textual. O QUADRO 3 mostra, para cada relação da RST identificada neste Capítulo, seu respectivo local de efeito e metafunção sistêmica.
QUADRO 3 - Correlação, baseada no local de efeito, entre as relações da RST encontradas nesta pesquisa (cf. Capítulo 4) e as metafunções ideacional e interpessoal da LSF
Relação RST Local de efeito Metafunção sistêmica
CIRCUNSTÂNCIA Núcleo + Satélite Ideacional
CONDIÇÃO Núcleo + Satélite Ideacional
CONJUNÇÃO Núcleo + Satélite Ideacional
CONTRASTE Núcleo + Satélite Ideacional
ELABORAÇÃO Núcleo + Satélite Ideacional
REFORMULAÇÃO Núcleo + Satélite Ideacional
RESULTADO INVOLUNTÁRIO Núcleo + Satélite Ideacional
SEQUÊNCIA Núcleo + Satélite Ideacional
CONCESSÃO Núcleo Interpessoal
EVIDÊNCIA Núcleo Interpessoal
FUNDO Núcleo Interpessoal
INTERPRETAÇÃO Núcleo Interpessoal
JUSTIFICAÇÃO Núcleo Interpessoal
PREPARAÇÃO Núcleo Interpessoal
Fonte: adaptado de Matthiessen (1991, p. 245).
Em Matthiessen (2004)29, essa correspondência mostrada no QUADRO 3 é denominada de orientação, sendo as relações ideacionais denominadas de relações externas e as relações interpessoais denominadas de relações internas. O autor explica ainda que as relações externas ajudam a organizar a construção da experiência dentro do texto e as relações internas ajudam a organizar a ratificação de um argumento dentro do texto.
Ainda estabelecendo uma interface entre a LSF e a RST, Matthiessen (2004) aponta que as relações retóricas são realizadas léxico-gramaticalmente dentro das metafunções lógica e textual. De forma direta, essa realização pode se dar pelo sistema textual de conjunções e pelo sistema lógico dos complexos oracionais, uma vez que eles próprios indicam a existência de relação retórica. De forma indireta, essa realização pode se dar por meio do sistema textual de Tema e coesão lexical, que indicam aspectos dos significados que possibilitam o reconhecimento de uma relação entre duas partes de texto. Essa concepção é congruente com a observação de Taboada e Mann (2006a), segundo a qual a coerência é criada por meio de dois mecanismos distintos, porém correlatos: de um lado, tem-se a presença de entidades que formam cadeias ao longo de um discurso (coerência baseada em entidades), e, do outro, verifica-se a presença de relações implícitas ou explícitas entre as partes que formam um texto. Nesse sentido, Taboada e Mann (2006a) apontam que as relações podem ser sinalizadas
29 MATTHIESSEN, C. M. I. M. The semantic system of RELATIONAL EXPANSION: Rhetorical Structure Theory revised. Sidney, 2004. 71 p. Não publicado.
ou não sinalizadas e, no sítio da RST, Mann e Taboada (2005)30 afirmam que, no grupo de textos em língua inglesa analisados, apenas 30% das relações são sinalizadas, isto é, têm as relações retóricas realizadas léxico-gramaticalmente de forma direta.
Dado o arcabouço teórico-metodológico sobre o qual este trabalho se debruça, o capítulo a seguir descreve a metodologia de coleta e de análise dos dados, a qual se pauta na LSF, na RST e nos estudos sobre expertise e desempenho experto.
30
3 METODOLOGIA
3.1
Considerações Iniciais
Apresentam-se, nesta seção, as metodologias de coleta e de análise empregadas na pesquisa objeto desta tese. A pesquisa, como já mencionado na Introdução, está inserida no escopo de um amplo projeto de cooperação internacional entre o Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da FALE / UFMG e o Departamento de Estudos Anglísticos e Tradução da Universidade do Sarre: o projeto CAPES-DAAD PROBRAL n. 292/2008 intitulado Uma
abordagem do texto traduzido com vistas à modelagem computacional: o fenômeno da (des)metaforização no processo tradutório de tradutores expertos. Para efeitos desta
pesquisa, também foram coletados dados adicionais a partir da aplicação de questionários on-
line junto a possíveis leitores do texto de chegada que também são capazes de compreender o
texto de partida, solicitando-se-lhes que selecionassem, dentre duas ou três opções para cada complexo oracional, a sua respectiva preferência de tradução. Nesses termos, a metodologia de coleta do projeto principal e a metodologia de análise dos dados resultantes são abordadas respectivamente nas Seções 3.2 e 3.3, enquanto a metodologia complementar referente ao questionário é descrita na Seção 3.4.