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No início do século XI a monarquia estava suficientemente consolidada na Germânia Continental, a ponto de que a sucessão dos Liudolfings pelos Sálios transcorreu sem maiores sobressaltos. Os Sálios garantiram praticamente outro século de paz e segurança, ao menos relativa, à Germânia.

O reino era forte com Heinrich III, que Konrad II havia associado ao trono em fins de 1028. Como rei da Germânia ele tinha direito à coroa da Itália, segundo o costume inaugurado por Otto I e àquela do reino de Arles, incorporado em 1032 por seu pai quando da morte do rei borgonhês Rudolf III.

Além disso, Heinrich III tinha, sobretudo, que tornar efetivo seu poder sobre os ducados étnicos (Lorena, Alamânia-Suábia, Bavária, Francônia e Saxônia-Turíngia). Precisava evitar que dois desses ducados fossem reunidos nas mãos de um mesmo príncipe que assim pudesse constituir um centro de poder concorrente ao régio; por isso era necessário vencer o princípio da transmissão hereditária dos ducados e consolidar aquele segundo o qual estes equivaliam a ofícios públicos e, portanto, os duques deveriam ser apontados pelo soberano.

Heinrich III, como seus predecessores, confiou principalmente no episcopado de seus reinos para assistência administrativa e conselho. Mais da metade dos bispos haviam servido na capela real, seguindo o padrão estabelecido por Heinrich II para o controle do episcopado, fazendo com que a chancelaria imperial mantivesse sua importância como instrumento de governo.

Heinrich era um soberano ambicioso; na Germânia chegou a acumular três ducados sob seu controle direto (Bavária, Suábia e a marca da Caríntia elevada ao status ducal) além da autoridade sobre os três reinos. Conservou para si mesmo a maior parte da gestão do reino da Itália e manteve a supervisão cerrada sobre o Papado, sob a qual estava promovendo uma certa reforma moral da Igreja, incentivando o combate à simonia e ao nicolaísmo. Em 1046 ele reuniu um sínodo em Sutri, no qual depôs o papa Gregório VI e os antipapas Bento IX e Silvestre III. Fez eleger como sumo pontífice o seu amigo, bispo Suitger de Bamberg, que assumiu o nome de Clemente II (1046-47), o qual, após o sínodo coroou Heinrich como imperador no dia de Natal.

No ano seguinte, Heinrich fez com que Clemente II fosse sucedido por outro bispo germânico (Poppo de Brixen) sob o nome de Dâmaso II (1049). Durante este período o

“(...) grupo clerical defensor da reforma da Igreja a partir de si

mesma havia crescido e se fortalecido a tal ponto que em 1049 conseguiu eleger como papa um de seus partidários, Leão IX

(Bruno, bispo de Toul, primo de Heinrich III). Esse dado e a morte

prematura de Heinrich em 1056 (que legou o trono germânico a seu

filho Heinrich IV com apenas quatro anos de idade), permitiu que o

mencionado grupo reformista aos poucos assumisse efetivamente o controle da Igreja e retomasse o pensamento hierocrático em sua primeira e mais genuína aspiração: cabia à Igreja e aos seus dirigentes, especialmente o papa, na condição de caput clericorum,

cuidar de seus próprios assuntos e interesses”.52

No interesse de uma Igreja reformada, o papa Leão IX impôs uma série de medidas ao clero: o combate a simonia e à investidura leiga, sancionou um código para a normatização do comportamento moral e religioso do clero e dos fiéis, estabeleceu firmemente o caráter eletivo do Papado (reforçado pelo decreto de Alexandre II, que regularizou as eleições papais), reconheceu as ordens sagradas, além de ter privado o clero do porte de armas.

Uma das grandes preocupações de Henrique III foi a questão da imposição da paz no reino (Landfrieden). Contudo, ele não descuidou das questões militares, promovendo muitas campanhas (Boêmia, Hungria – 4 vezes –, Polônia, Lorena e Itália), reforçando assim a importância da guerra na função imperial. Aliás, não havia contradição entre o monarca guerreiro e o monarca como princeps pacis, posto que não existia a idéia de uma paz inerme: “A paz não é ausência de guerra, pacifismo, não-violência, mas paz com Deus,

dócil obediência ao Criador, além da paz derivada da observância da justiça, da religião,

da correta ordem social e cósmica.”53; assim o único recurso para a efetiva imposição da

paz era a aplicação bem sucedida de violência legítima.

52

SOUZA, 1995: 234. 53 TESSORE, 2007: 25.

“Mesmo quando se corrige um filho, até com severidade, o

amor paterno nunca é abandonado. Deve ser feito aquilo que não se quer, e que sofra aquele que, contra sua vontade e com dor, deve ser corrigido. Por isso, se este Estado terreno quer proteger os mandamentos de Cristo, as próprias guerras devem ser realizadas com espírito de bondade, para conseguir aos vencidos, com mais facilidade, uma pacífica condição de piedade e de justiça. Na verdade é para o seu bem que é vencido aquele de quem se retira a possibilidade de realizar o mal: nada é mais infeliz do que a felicidade de quem peca, na qual é nutrida uma penosa impunidade

e a má vontade é reforçada, como um inimigo interior!”.54

Estas influências patrísticas certamente eram conhecidas em uma corte tão ligada à religião quanto a de Heinrich III e levaram os imperadores à legitimação da violência através do recurso à Doutrina da Guerra Justa, que, por sua vez, ligava-se ao tradicional emprego da guerra como alicerce da autoridade régia.

Além disso, a tradição desde Agostinho creditava aos monarcas um uso quase que religioso da violência. Através dela o monarca pôde exprimir a vontade de Deus ao punir os maus, os pecadores.

A ligação umbilical entre guerra e paz no reinado de Heinrich III fica mais evidente quando consideramos que após sua vitória na segunda expedição contra os magiares (que, justamente, buscava recuperar territórios que haviam sido cedidos à Germânia pelo rei Estevão I da Hungria pro causa amicitia e extorquidos ao Império após a derrota de Konrad II em 103055), desejando que a Paz e a Trégua de Deus fossem respeitadas em todos os seus reinos, declarou de um púlpito em Constança em outubro de 1043, um perdão generalizado através do qual prometeu desculpar todas as injúrias a ele e assim abandonar a vingança, encorajando seus vassalos a fazer o mesmo. Isto ficou conhecido como o “Dia do Perdão” e acabou por ser repetido várias vezes em todos os seus reinos (1043 – Constança e Trier,

54 AGOSTINHO, Epistolae CXXXVIII, 1, 13, in: TESSORE, 2007: 41. 55

Esta fronteira permaneceu entre Áustria e Hungria até a dissolução do Império Austro-húngaro e os tratados retificadores de 1920.

1044 – no campo de batalha de Menfö ao vencer os magiares e 1047 – Roma).

“Mais do que Otto I ou Otto III, Heinrich III simbolizou o

governo teocrático, a liderança da Igreja e do Estado sendo uma única entidade no divinamente eleito e ungido imperador descrito por muitos como vicarius Christi ou vicarius Dei (...) todos concordavam que o rei, que governava na Terra, tipificava o

Salvador, que governava nos Céus”. 56

No entanto, com a morte de Heinrich III em 1056, o Império foi confiado a uma criança de seis anos de idade e sua mãe, que tinham que lidar com um episcopado que tentava escapar do controle régio, cada vez mais influenciado pelos ideais reformistas e uma nobreza que tentava adquirir mais domínios, ofícios e poder após os centralizadores reinados de Konrad II e Heinrich III.