Esta Tese põe em contraponto não só dois tipos de cultura mas também, e sobretudo, duas formas de adquirir e fruir esses dois tipos de cultura. Temos, de um lado, a cultura simplificada, estereotipada e repetitiva oferecida pela televisão, no espaço doméstico, num contexto de sociabilidade mais restrita e uniforme; e, do outro, as manifestações culturais como o teatro, o cinema, os concertos musicais e os museus – a que juntámos a leitura de livros e jornais –, que em geral exigem um maior esforço de compreensão e apropriação e ocorrem num espaço público mais ou menos alargado, num contexto de sociabilidade mais
ampla e diversificada. Ou, na linguagem abreviada que decidimos utilizar nesta Tese: de um lado, a televisão, o consumo televisivo; do outro, os consumos culturais.
Na sua tese de doutoramento, defendida em 1998, João Teixeira Lopes constatava, numa secção a que deu o título significativo de “A domesticidade e a sedentarização cultural”, que “As práticas culturais dos portugueses encontram-se centradas, segundo os mais diversos estudos, nos tempos livres doméstico-receptivos, especialmente marcados por índices elevadíssimos de televisionamento.” (Lopes, 1998a, itálicos do autor). E, referindo-se a alguns dos principais dados estatísticos alusivos às práticas culturais entre 1985 e 1995 – utilização de recintos para espectáculos públicos, número de editores e livreiros, número de sessões de cinema e de espectadores, visitas a museus, número de bibliotecas, entre outros -, resume a situação da seguinte forma:
Em síntese, pode-se afirmar que os espectáculos públicos, associados a um certo tipo da chamada “cultura de saídas”, sofrem durante a década 1985-1995, um recuo considerável, em especial se atentarmos no número de espectadores. Os portugueses, por isso, passam muito mais tempo em casa. (Lopes, 1998a)
Este “peso esmagador dos tempos domésticos receptivos” é considerado, por Teixeira Lopes, como “inquietante”, dado que “quase esgotam o leque disponível de práticas culturais” e, desse modo, “a possibilidade de confrontar informações e estímulos culturais verificar-se-á, esmagadoramente, no interior do que Olivier Donnat apelida de economia
mediático-publicitária, com as suas formas particulares de apresentação, representação e
construção de visões do mundo.” (Lopes, 1998a)
Teixeira Lopes cita, a este propósito, a tese de António Barreto segundo a qual um tal padrão de consumo dos media, em particular da televisão, no espaço doméstico “é inalterável e não reagiu significativamente à subida real das taxas de alfabetização e da frequência das escolas”, já que, e ao contrário do que terá acontecido com a evolução das práticas culturais nos outros países europeus, “quando os portugueses chegaram a um estádio de desenvolvimento que deixaria supor uma superior propensão para a procura de informação escrita, já a televisão satisfazia tais necessidades” (Barreto, citado em Lopes, 1998a). No mesmo sentido, José Rebelo sublinhava alguns anos antes que, “para largos segmentos da população portuguesa a televisão constitui o meio, por excelência, de divertimento e de informação. Preenche quase integralmente, os seus espaços de lazer” (Rebelo, 1993, p. 653). Em correspondência com esta situação, e como observa ainda António Barreto, “a cultura, a arte e a ciência são preocupações de pequenos grupos de elite, apesar dos grandes eventos temáticos (massificados e midiatizados) como Lisboa, Capital Europeia da Cultura e a Expo 98.” (Barreto, 1996, citado em Cunha, 2001, p. 61)
Ora, de um modo geral, a literatura sobre televisão e cultura tende a estabelecer uma relação mais ou menos directa e explícita entre a baixa literacia e o baixo rendimento económico, por um lado, e os elevados consumos de televisão e o baixo grau (ou ausência) de consumos culturais, por outro, como está patente no exemplo seguinte: “Num país de 10 milhões de habitantes, fracos recursos econômicos, grande número de iletrados e hábitos de
leitura reduzidos, não surpreende que os tempos livres domésticos sejam preenchidos em cerca de 95% pela televisão”. (Cunha, 2001, pp. 66-7) Pressupõe-se, assim, que à medida que aumentem o grau de escolaridade,
Assim, e ao contrário do que seria de esperar em termos teóricos, no caso de Portugal a alteração na variável nível de escolaridade – e a variável rendimento económico, que lhe anda em regra associada - parece não ter tido influência nem no grau de consumo de televisão - que permanecerá alto independentemente do nível de escolaridade -, nem no grau de consumos culturais - que permanecerão baixos independentemente do maior ou menor nível de escolaridade. No entanto, as estatísticas de consumos culturais que apresentámos atrás mostram que o nível de escolaridade é um factor relevante na variação dos consumos culturais, com os quais se encontra correlacionado de forma positiva.
Esta contradição – aparente? – pode ter simplesmente a ver com o facto de os dados e conclusões de João Teixeira Lopes e António Barreto que acabámos de apresentar se reportarem aos anos entre 1985 e 1995. Ora, como se sabe, verificou-se entretanto um enorme incremento a nível da escolarização e da formação dos portugueses, cujo início podemos situar na governação de António Guterres, a partir de 1995, e que depois disso se foi aprofundando – e que pode ter alterado as relações das variáveis em questão. Faz sentido, portanto, recolocar hoje as questões da relação entre nível de escolaridade e consumo de televisão, por um lado, e entre nível de escolaridade e consumos culturais, por outro.
Estas questões levam-nos directamente a uma outra, que constitui, verdadeiramente, a questão central desta Tese, e que é a seguinte: qual a relação entre consumo de televisão e consumos culturais?
Esta questão justifica-se na medida em que, apesar das suas diferenças, as teorias discutidas ao longo desta I Parte da Tese – referimo-nos, principalmente, à Teoria Crítica, aos Estudos Culturais britânicos, mas também a autores como Popper, Bourdieu e outros – parecem apontar, de forma mais ou menos clara, para a ideia de que o consumo de televisão está correlacionado, de forma negativa, com os consumos culturais (fora de casa); ou, indo mesmo mais longe, que o consumo de televisão é a causa directa do menor grau de consumos culturais (fora de casa). Mas será mesmo isso que acontece? Não atribuirão essas teorias e autores, à televisão, mais do que aquilo que se lhe poderá e deverá atribuir? Pode ser que o principal “efeito” da televisão seja – ou continue a ser – hoje o de fixar as pessoas em casa, de as “domesticar”; e que esse efeito seja produzido de modo tão perfeito que esbateu todas as diferenças: de instrução, de estatuto, de região, enfim, de cultura. Para além desta questão, e em conexão com ela, surgem questões como as seguintes: terá a televisão, ainda hoje – quer dizer, em tempo de mudanças profundas a nível do “ver televisão” – a centralidade no lar que teve em outros tempos, ocupando um espaço e um tempo privilegiados? E haverá diferenças significativas a nível do consumo televisivo e dos consumos culturais entre regiões do país com diferentes características sócio-económicas e de oferta cultural?
Foi a intenção de responder ao conjunto de questões enunciadas que esteve na base do estudo empírico que levámos a cabo, e que apresentamos na segunda parte desta Tese.
Capítulo 6. Metodologia e desenho da investigação
A presente Tese inclui, nesta segunda parte, a apresentação e discussão de um estudo empírico cujo objectivo central era analisar a relação entre consumo de televisão e consumos culturais. Por conseguinte, o estudo empírico centrou a sua atenção entre uma possível correlação entre dois mundos: o do consumo de televisão, centrado essencialmente no lar, e o dos consumos culturais em espaço exterior; a estes consumos culturais, e pela importância simbólica e material que (ainda) assumem na nossa sociedade, decidimos juntar os livros e os jornais, mesmo se o seu consumo pode fazer-se quer no lar quer fora dele. Escolheram-se, para o estudo, duas regiões bastante distintas em termos demográficos, sociais, económicos e de oferta cultural: a Cova da Beira e a Grande Lisboa. Com esta decisão pretendeu-se verificar se a disparidade do contexto social e económico se traduziria em igual disparidade em algumas das questões centrais do inquérito.