Professor Imigrante Digital com menor nível de percepção das NTIC:
“O diálogo, na minha opinião como professora, enquanto educadora, ele é importante em todos esses pilares, porque sem diálogo como é que você ministra uma aula, como é que você ensina, como você passa o conhecimento para o seu aluno, sem você conversar ou falar sobre aquilo que você está ensinando, e porquê que você está ensinando. Então o diálogo, ele faz parte desses quatro pilares, e ele abrange todo o espaço da Educação Física. Ele não fica só na sala ou só entre eu e aqueles alunos, ele faz parte da gestão, ele faz parte da família daquele aluno, ele faz parte de todos, de todos os segmentos da Educação, o diálogo, para que realmente podemos ter uma Educação de qualidade [...]”.
Professor Imigrante Digital com maior nível de percepção das NTIC:
“O diálogo é o mais importante eu acho, da aula. Você dá oportunidade de o aluno expor o que ele acha ali, o que ele sabe, você dá uma autonomia para o aluno, e muita das vezes que você dá aquela autonomia para o aluno você começa a mudar a tua postura como profissional.
[...] O professor na minha visão ele está no mesmo patamar do aluno. Ele vai trazer as atividades para estar compartilhando com o aluno, compartilhando eu acho, que é a palavra [...]. Porque eu acho que tem tanta coisa hoje em dia, que aflorou essa criatividade. A criança é muito criativa. Você dá duas, três coisinhas para ela e ela cria um monte de coisas. [...] E é legal que eles relacionam muito a atividade que você está dando com o meio que eles vivem. Eles fazem muito essa relação, a atividade que está acontecendo ali com o meio que vive, e o que ele já viu em TV ou em vídeo [...]. Então eu acho que o mais importante é o diálogo. Deixar o aluno se expressar”.
Professor Nativo Digital com menor nível de percepção das NTIC:
“Aí acho que essa é a maior ferramenta do professor, é o maior poder que ele tem de mediação, de saber dialogar e argumentar, incentivando os mecanismos certos, incentivando a aprendizagem. Acho que essa é maior ferramenta que nós temos para estar realmente passando nosso conhecimento para a criança. E esse diálogo, a gente pode abrir para um campo mais amplo, de até questionar o porquê desse poder científico e tecnológico está afastando o próprio diálogo. É um problema isso mundial de pessoas que não comunicam mais, que não se falam mais, só se falam por meio de mensagem de texto, e a interação social corpo a corpo ali, a presença afetiva do professor nessa hora ela é muito importante. [...] E essa é uma tendência mundial, então talvez um dia nós vamos ser substituídos por máquinas, mas quem vai abraçar as crianças, quem vai informar, quem vai transmitir um conhecimento moral. Então a questão do diálogo é fundamental para a educação”.
Professor Nativo Digital com maior nível de percepção das NTIC:
“O diálogo entre professor e aluno tem que ser constante [...] o professor tem que escutar o aluno, muitas vezes o aluno vem com coisas diferentes para contar e o professor hoje tem que ser mais afetivo. [...] O aluno hoje está inserido no mundo muito tecnológico, então se torna benéfico porque ele também recebe estímulos e o professor tem que trabalhar também trazendo a criança pouco dentro desse mundo que ela vive, não pode voltar só para o tradicional, e o diálogo entre o professor e as novas tecnologias, o professor tem que está em constante busca por essas novas tecnologias, aliando-se a elas para tornar as aulas interessantes, porque se a criança está nesse mundo, se a criança hoje é uma criança que está no mundo onde ela tem tablet, possui computador e acesso à internet, o professor tem que
trazer é... tem que planejar suas aulas aliando a esse mundo [...] esse tripé tem que estar em constante formação porque se o professor utiliza das novas tecnologias. A criança está aprendendo através das novas tecnologias e se o professor utiliza apenas do método tradicional aonde a criança está inserida num mundo mais informatizado, as aulas não se tornam mais interessantes para aquelas crianças, ele não consegue prender aquelas crianças de uma determinada maneira se ele conseguisse fazer a interação entre novas tecnologias para determinada faixa etária onde ele está trabalhando”.
Com vistas nos argumentos dos professores notamos que o diálogo é valorizado comumente na fala dos quatro indivíduos. Entretanto, podemos verificar, com base em uma análise minuciosa da fala dos professores, que o nível de percepção sobre a tecnologia ocasionou duas vertentes no modo em que os professores interpretam a relação da ação dialógica, a tecnologia, e a prática educativa. Constatamos que os indivíduos das duas categorias com maior nível de percepção das NTIC veem a importância de manter ações dialógicas na prática de ensino levando em consideração os conhecimentos prévios dos alunos, que são favorecidos pelos estímulos informacionais que estes recebem por sua inserção no mundo tecnológico. Ou seja, tanto o professor Imigrante Digital como o Nativo Digital com maior nível de percepção das NTIC visualizam e, consequentemente, enfatizam a existência de uma relação dialógica entre a dimensão crescente do contato dos alunos com informações providas pelos recursos tecnológicos e a relação com diálogo estabelecido entre educador e educando nos processos que levam a construção dos saberes nas aulas.
Freire (2001, p. 75) diz que:
A comunicação e a informação se servem de sofisticadas linguagens e de instrumentos tecnológicos que “encurtam” o espaço e o tempo. A produção social da linguagem e de instrumentos com que os seres humanos melhor interferem no mundo anuncia o que será a tecnologia.
A percepção elevada dos elementos da nova tecnologia mostrou ser um mecanismo auxiliador aos professores no que se refere ao afastamento do olhar sobre o fenômeno das relações dialógicas mantidas na escola no contexto da Era da Informação, beneficiando, desta maneira, um melhor entendimento sobre as potencialidades didáticas que os recursos da nova tecnologia ofertam aos processos educativos em âmbito escolar, como também as novas habilidades e competências desenvolvidas pelos educandos Nativos Digitais inseridos neste quadro.
Sob essa ótica verificamos um avanço na percepção dos professores inqueridos nos aspectos relacionados à não redução dos potenciais das NTIC aplicados em processos educativos, que remeteria a minimização a mera dimensão instrumental dos recursos e ferramentas tecnológicas. A ampliação do olhar sob o fenômeno da apropriação das NTIC nos processos educativos contribui para a elaboração de estratégias com base em razões analíticas. Sobre isso Habermas (1997, p. 57) compartilha:
A ação instrumental orienta-se por regras que se apoiam no saber empírico. Essas regras implicam em cada caso prognoses sobre eventos observáveis, físicos ou sociais. [...] O comportamento da escolha racional orienta-se por estratégias que se baseiam num saber analítico. [...] A ação racional teleológica realiza fins definidos sob condições dadas; mas, enquanto a ação instrumental organiza meios que são adequados ou inadequados segundo critérios de controle eficiente da realidade, a ação estratégica depende apenas de uma valoração correta de possíveis alternativas de comportamento, que só pode obter-se de uma dedução feita com o auxílio de valores e máximas.
Habermas (2012a e b) define ação instrumental como uma ação orientada ao êxito considerada sob aspectos de observância das regras técnicas de ação no qual o sujeito avalia o seu grau de eficácia na intervenção em um dado estado físico pertencente ao mundo objetivo, ou que podem apresentar-se, assim como serem produzidos, mediante uma adequada intervenção do sujeito na ação. Nesta vertente, Habermas (2012a e b) explica que a ação teleológica se amplia e se converte em ação estratégica, definida também como ação social orientada ao êxito, quando, no cálculo que o agente faz de seu êxito, intervém a expectativa de decisões de pelo menos outro agente que também atua com vistas a realização de seus próprios propósitos considerada de acordo com a observância de regras de escolha racional, e avaliado o grau de eficiência obtido na tentativa de influenciar as decisões de outro sujeito. A ação estratégica se aplica às ações sociais em que os sujeitos se regem por regras de escolha racional, levando em conta as consequências que podem ter nas decisões de um outro sujeito.
Na dimensão da ação racional comunicativa, vemos a atuação dos professores com maior percepção da tecnologia agindo estrategicamente vislumbrando um cenário no qual buscam intervir conscientemente tendo por parâmetro as expectativas de seus educandos, que agem, mediados pela tecnologia, como nativos de um contexto informacional observado. Este diagnóstico efetivado pelos professores que mais se apropriaram das tecnologias vai ao encontro de demandas educacionais emergentes.
No caso dos professores Imigrante Digital e Nativo Digital com menor nível de percepção das NTIC constatamos outro viés interpretativo da pauta em questão. Baseados nos
argumentos apresentados observamos uma visão do termo ‘diálogo’ que permeia a relevância da aproximação das relações humanas entre educador e educando nos processos educativos, não focando exatamente uma dimensão dialógica com a tecnologia como ferramenta pedagógica que dialoga com os processos de construção do conhecimento como apontado pelos professores citados anteriormente. Essa tendência evidenciou em maior medida nos argumentos manifestados pelo professor Imigrante Digital com menor percepção das NTIC, que enfatiza a importância da manutenção de ações dialógicas tanto nos processos educativos como em outras esferas que compõem as instituições escolares, como a gestão escolar e a família dos alunos.
Na fala do professor Nativo Digital com menor percepção das NTIC notamos uma análise crítica sobre uma vertente negativa que pode se apresentar nos processos de apropriação da tecnologia pelos indivíduos na sociedade e, consequentemente, no âmbito escolar. Sua posição revela uma preocupação legítima sobre a configuração de um cenário no qual sujeitos engajam suas possibilidades dialógicas em uma dimensão virtual, quase que exclusivamente, minimizando desta forma as interações fora deste contexto, ou seja, na dimensão física, no “mundo real”. As constatações manifestadas pelo professor envolvem, inclusive, inquietação sobre o papel das relações humanas na escola. Destaquemos uma passagem de sua fala:
E essa é uma tendência mundial, então talvez um dia nós vamos ser substituídos por máquinas, mas quem vai abraçar as crianças, quem vai informar, quem vai transmitir um conhecimento moral.
Esta abordagem demonstra uma valorização do relacionamento humano. Tomemos por base a reflexão de Freire (2011, p. 142), para analisar esta constatação:
Como prática estritamente humana jamais pude entender a educação como uma experiência fria, sem alma, em que os sentimentos e as emoções, os desejos, os sonhos devessem ser reprimidos por uma espécie de ditadura racionalista.
Como ditadura racionalista, entendamos neste caso, como a apropriação indevida da tecnologia em educação. A robotização, a mecanização das relações humanas na escola, está aí a preocupação do professor ao visualizar uma sociedade que de forma crescente passa por um processo de viralização de relações humanas mediadas por dispositivos tecnológicos cada dia mais aperfeiçoados.
Ao analisarmos as respostas dos professores às pautas estabelecidas na entrevista, observamos, em suma, os seguintes elementos: a existência de um consenso entre os indivíduos entrevistados sobre a presença de novas demandas e exigências educacionais, estas ocasionadas pelo contexto da geração de alunos nativos de uma era informatizada; as dificuldades em lidar com este novo paradigma educacional podem ser observadas como potencial nos processos de ensino e de aprendizagem; a visão sobre os mecanismos de utilização de ferramentas tecnológicas aplicadas ao ensino destoam com base no nível de percepção do sujeito sobre a tecnologia em maior medida se comparado ao contexto geracional (Imigrante Digital ou Nativo Digital) no qual se enquadra; o reconhecimento da não-hierarquia das relações entre educador e educando nos processos de ensino; e, a consciência dos saberes inacabados e a necessidade constante do aprimoramento para o exercício docente.
Fundamentados na análise sistemática das manifestações argumentativas dos professores inqueridos, verificamos ainda que, as ações comunicativas com vistas no diálogo, e que englobam os agentes: educando, educador e, a tecnologia, no propósito de relações e compromisso na causa pela construção do conhecimento na escola, são, valorizadas pelos quatro sujeitos entrevistados. No entanto, constatamos, que o nível de percepção sobre a tecnologia é o fator, em detrimento do contexto geracional, que tende influenciar diferentes perspectivas na visualização dos fenômenos que permeiam a apropriação dialógica da tecnologia nos processos educativos no âmbito escolar, condição que proporciona noções estratégicas teleológicas na configuração de uma prática efetiva mediada pelos recursos da nova tecnologia.