Por fim, cabe dizer que geralmente o pedido frequente do conjunto dos docentes − que o docente de medicina também solicita − é que ‘coisas práticas’ sejam trabalhadas. Como a prática é muito importante para a formação médica, ela deve ser bem compreendida, não cabendo oferecer simplesmente ‘receitas curriculares’. Não
se trata de simplesmente colocá-los em ação. A pergunta a ser feita, sempre, é se a prática contribui para a humanização dos sujeitos envolvidos, se os alunos estão de fato aprendendo e se desenvolvendo ao máximo.
A atividade do discente que se realiza no trabalho em saúde é fazer com que o aluno pesquise, descubra e estabeleça relações, que serão o objeto de avaliação do estudante para seguir evoluindo em seu currículo de estudos. Desse processo, deve haver um ganho em termos de autonomia, decorrente do processo de tomada de decisão e dele ter que assumir responsabilidades pelas escolhas feitas, inclusive pela solidariedade em função do grupo com o qual ele realiza o trabalho. No caso da ESCS, a estrutura da atividade leva em conta que há um projeto socialmente referenciado, como, no caso, apoiar a organização dos serviços de saúde para que configurem redes de atenção à saúde conforme estabelecem as bases doutrinárias do SUS. Como ensina Vasconcellos75, deve-se ir sempre além, procurando evidenciar sensibilidade, motivo, projeção de finalidade, leitura da realidade, orientação para a ação, ação e avaliação, qualificando a relação do ensino e do estudo profissionalizante com a vida. Este alcance permitirá assumir plenamente que o papel da escola é a educação, isto é, a humanização através do ensino, com os alunos se apropriando dos elementos fundamentais da cultura, encontrando na escola um ambiente em que o conhecimento é valorizado, desenvolvendo-se plenamente como seres humanos.
Essa é a explicação para o desenvolvimento do programa de habilidades e das competências, e também do programa educacional IESC, que realiza ensino por
projetos construídos pelos alunos. Este plano de trabalho, feito pelos alunos − tem a supervisão do professor que lhes apresenta um roteiro geral de um dispositivo pedagógico construído e avaliado com rigor. A partir daí, em grupos, o aluno pesquisa, descobre e estabelece novas relações propiciadas por esta parte do currículo, ocorrendo um ganho em termos de autonomia. Como se trata de um projeto referenciado socialmente qualifica a relação do ensino e do estudo com a vida − a do estudante e dos outros. Sobre isso, Vasconcellos75 diz que os alunos “devem se apropriar dos elementos fundamentais da cultura, que encontrem na escola um ambiente em que o conhecimento é valorizado e que se desenvolvam plenamente como seres humanos” (p.199). Como se vê tanto o programa de habilidades e de atitudes como a IESC, envolvem a importantíssima área da comunicação.
Ocorrendo em ambientes diversos da rede da SES-DF, ampliam a relação a que os estudantes são sujeitados. O currículo, assim, propicia uma vivência e um significado marcados por sujeitos concretos, por sua vez marcados por seus tempos de vida. Então é nas relações estabelecidas que se pode buscar as explicações relativas ao sucesso do currículo da ESCS, pois essas relações devem exercer implicações sobre as características do perfil profissional que vai sendo formado. Como se vê, o currículo escolar, enquanto construção humana depende substancialmente dos sujeitos em relação, cuja ampliação − e orientações − resultam no aumento da realização das possibilidades definidas no próprio currículo. Daí reafirmarmos que o tipo de atividade é muito importante − e como! − enquanto prática curricular. O ser tem sua formação no social, na cultura, tanto que inspirado em Leontiev (1980), Vasconcellos75 diz que “fora das relações sociais a atividade humana não existe”
(Leontiev, 1980; apud Vasconcellos 2011, p. 59)75 e, como já o vimos embasado em Marx, explica que precisamos radicalmente do ‘outro’. Justifica-se, assim, a integração ensino-serviços, pois o objeto do projeto educacional deve estar enraizado na prática social dominante na sociedade e em suas variações, na realidade da vida, na história e na sua trama de relações. Uma estruturação ‘didática’ do currículo, retirada do contexto real, perde sentido enquanto objeto educacional. Concordamos com Vasconcellos75, que diz que a gênese do projeto surge como resposta a uma pergunta, a uma dúvida, a uma curiosidade, a um desejo, a uma necessidade, a um problema.
O currículo da ESCS não é um currículo ‘em si’ ou um currículo reducionista. Sua diferença com os currículo tradicionais é devido à integral e forte presença da SES- DF, a qual marca presença o tempo todo na realidade, por intermédios de seus gestores, profissionais e serviços, em função das necessidades de sua demanda de atendimento e tidas como referência por indivíduos, pelo sistema de saúde e pela comunidade − sejam eles ou não atendidos − com todos seus méritos, problemas e contradições. Para nós, o projeto deve ser socialmente determinado, cuja temática é efetivamente significativa para os alunos. Chamamos a atenção para a coerência que há entre os três programas educacionais que buscam uma integração horizontal e vertical, e, ainda que em escala menor, do próprio estágio curricular obrigatório do curso em tela, superando o que o professor Antonio Marcio Lisboa denominou (1999) ‘currículo ‘arco-íris’. Em todos eles, encontra-se a marca de um currículo integrador, que se estabeleceu com base na integração ensino-serviços e na gestão da aprendizagem, não tendo havido apenas uma mudança para um ‘currículo PBL’.
3.3.6 A Necessidade de uma Teoria de Currículo ser ampliada para abarcar um