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Results and discussion

4.5 Overall performance discussion and future work

4.5.2 Future work

Nesta seção, abordaremos o conceito de numeramento adotado por alguns de nossos referenciais teóricos (BARWELL, 2004; MENDES, 2001; PONTE, 2002; TOLEDO, 2003) e, concomitantemente, identificaremos aspectos que caracterizam a(s) relação(ões) que

esses autores estabelecem entre a matemática escolar e/ou a educação matemática e o numeramento.

O termo numeramento é adotado pela autora Jackeline Mendes (2001, p. 72) para traduzir o termo numeracy em uma relação de analogia que ela estabelece entre o conceito de numeramento e o conceito de letramento (tradução de literacy), “sob o ponto de vista da pluralidade de práticas sociais existentes em torno da escrita”. A autora aborda o numeramento em referência a “práticas que estão relacionadas a contextos específicos de uso do conhecimento matemático, as quais diferem, em sua maioria, da forma como é conduzido o ensino de matemática na escola formal, ou seja, a prática de numeramento escolar” (MENDES, 2001, p. 73, grifo nosso).

Os estudos sobre letramento foram seu ponto de partida para o delineamento do conceito de numeramento. Ao analisar diferentes enfoques dados aos estudos sobre letramento, utilizando a distinção proposta por Street (1984) entre dois modelos de estudo sobre letramento – o “modelo autônomo” e o “modelo ideológico” –, a autora contrapõe matemática escolar, por ela denominada “matemática acadêmica”, e numeramento.

De acordo com Mendes (2001, p. 65-68), estudos que abordam o letramento segundo o modelo autônomo caracterizado por Street (1984) baseiam-se, em geral, numa visão da escrita alfabética como um instrumento tecnológico neutro, objetivo e autônomo, cuja aquisição resultaria em aspectos positivos, como o desenvolvimento cognitivo e social. A aquisição da escrita é colocada como fundamental para o desenvolvimento das capacidades de raciocínio e abstração. O letramento é, então, tomado como base para estabelecer a distinção entre culturas orais e culturas letradas, entre o não-moderno e o moderno, entre as sociedades primitivas e as avançadas, o que, segundo ela, incorpora uma visão etnocêntrica ocidental letrada. Desse modo, a concepção de escola subjacente a esse modelo de letramento pertence à classe letrada dominante.

A autora assume que a visão de letramento em que se baseia para discutir o numeramento se enquadra no modelo ideológico de Street (1984), em que se observa a escrita “relacionada aos seus contextos sociais de uso, sob a perspectiva de que diferentes culturas dão ênfases diferentes à aprendizagem da escrita e fazem usos específicos do meio oral, os quais variam conforme o tempo, o espaço e os objetivos” (MENDES, 2001, p. 71). Ela afirma que, segundo esse modelo, o letramento é entendido em termos de práticas sociais e ideologias, baseando-se na compreensão de que a escrita não é neutra; pelo contrário, é envolvida por diferentes significados sociais.

A matemática escolar é associada pela autora ao modelo autônomo de letramento. Segundo ela, a visão da matemática como detentora do poder de desenvolver as capacidades de raciocínio e abstração que está presente nos guias curriculares tradicionalmente voltados para o ensino de matemática e que, em grande parte, sustenta sua inclusão no currículo, é análoga à visão da escrita como tecnologia neutra naquele modelo. Nesse sentido, “saber matemática” é algo que está exclusivamente ligado à escolarização. Apoiando-se em Lave (1988 apud MENDES, 2001), ela salienta a existência de diversas crenças e valores (exatidão, racionalidade, lógica, infalibilidade, neutralidade) associados à matemática e valorizados pela escola, os quais não são necessariamente os mesmos presentes em práticas matemáticas de outros contextos.

A argumentação de Mendes se desenvolve no sentido de negar as dicotomias geradas por um modelo autônomo de letramento (letrado/oral, letrado/iletrado, numerado/inumerado, saber/não saber matemática, matemática oral/matemática escrita), dicotomias que, segundo ela, acabam tomando como referência a escolarização. O conceito de numeramento adotado por Mendes parte, então, da “perspectiva que relaciona o conhecimento matemático e as práticas matemáticas aos seus contextos específicos, visualizando o uso das noções de quantificação, medição, ordenação e classificação em sua relação com os valores socioculturais que permeiam essas práticas” (MENDES, 2001, p. 81).

Para justificar a adoção dessa perspectiva, Mendes destaca a existência de práticas de numeramento19 diferenciadas das que se constituem no contexto escolar e enfatiza a origem sociocultural de todas essas práticas, apresentando a Etnomatemática – campo de estudos que compreende a matemática como uma construção social e cultural – em oposição a uma visão de universalidade atribuída à matemática. Segundo a autora, os estudos da Etnomatemática evidenciam o caráter ideológico dessa idéia de universalidade e questionam o não-reconhecimento, por parte das comunidades acadêmicas, da “validade” do conhecimento matemático produzido e veiculado por determinados grupos. Por trás desse não- reconhecimento, está a ideologia de que existe uma “matemática ‘verdadeira’ e uma ciência ‘correta’ que seriam independentes de qualquer linguagem, religião e do conjunto de valores próprios de uma cultura” (MENDES, 2001, p. 80, aspas da autora). Nesse sentido, ela ressalta a ligação entre a Etnomatemática e o modelo ideológico de letramento proposto por Brian Street.

Numeramento e matemática escolar ou, na denominação preferida pela autora – “matemática acadêmica” – são, portanto, vistas por ela como conjuntos de práticas que se distanciam, ou mesmo se confrontam, uma vez que sua perspectiva de abordagem do numeramento é tomada de empréstimo do modelo ideológico de letramento e de uma concepção de Etnomatemática que enfatiza os contextos socioculturais não-escolares: “numa visão Etnomatemática, o conhecimento matemático não se liga apenas à escolarização, antes está relacionado aos contextos de usos específicos de um grupo social” (MENDES, 2001, p. 81). Além disso, ao ressaltar que o conceito de numeramento pode apresentar questões ligadas a relações de poder e à legitimação de conhecimentos, a autora busca referir-se “ao confronto entre as práticas de numeramento em contextos específicos e a prática dominante, representada, principalmente, pela instituição escolar” (Ibid., p. 82).

O segundo estudo que abordamos é o de Maria Elena Toledo (2003). Ela também utiliza o termo numeramento como tradução para o termo numeracy. Entretanto toma como principal referência o próprio conceito de numeramento adotado por Cumming; Gal; Ginsburg (1998 apud TOLEDO, 2003)20. Segundo a autora, o numeramento refere-se a um

amplo conjunto de habilidades, conhecimentos, estratégias, crenças, hábitos, disposições, auto-conceito e sentimentos necessários ao manejo efetivo das e ao engajamento autônomo nas situações do mundo real ou em tarefas relacionadas a elementos matemáticos ou quantificáveis. (TOLEDO, 2003, p. 55)

Embora esse conceito denote uma analogia com conceitos de letramento que enfatizam o aspecto funcional desse fenômeno, a autora apresenta um enfoque que estabelece uma acentuada relação de “integração”21 entre numeramento e letramento22, ambos

considerados em seu aspecto funcional. Ela afirma que há “tarefas do mundo real que pedem a aplicação de capacidades de letramento ‘puro’ (p. ex.: ler, escrever, comunicar-se), outras requerem capacidades de ‘pura’ matemática” (TOLEDO, 2003, p. 61, aspas da autora). Mas destaca que algumas tarefas “podem requerer a aplicação de capacidades de matemática e letramento integradas” (Ibid., p. 61).

20 Para esses autores, o numeramento é “um agregado de habilidades, conhecimentos, crenças e hábitos da

mente, bem como as habilidades gerais de comunicação e resolução de problemas, que os indivíduos precisam para efetivamente manejar as situações do mundo real ou para interpretar elementos matemáticos ou quantificáveis envolvidos em tarefas” (Cumming, Gal, Ginsburg, 1998, p. 2 apud TOLEDO, 2003, p. 55).

21 Ressalta-se que ora o numeramento é visto como dimensão do letramento, ora o contrário.

22 A autora define letramento como “o conjunto de práticas sociais que usam a escrita como sistema simbólico e

Da crescente necessidade dessa integração nas sociedades atuais, surge o fenômeno numeramento, que é visto por ela como um “domínio de capacidades que envolve um subconjunto de capacidades essenciais tanto da matemática como do letramento” (TOLEDO, 2003, p. 61). “Ser numerado”, para a autora, envolve possuir tanto habilidades de letramento como habilidades de matemática e a “aptidão para usá-las em combinação, de acordo com o que é requerido em uma determinada situação” (Ibid., p. 61).

A autora explicita uma visão de numeramento como uma dimensão do letramento, quando afirma ser “impossível falar do desenvolvimento completo do letramento – em termos das habilidades de comunicação, leitura e escrita – sem também estabelecer um entendimento dos vários conceitos quantitativos e da habilidade para comunicar-se sobre eles efetivamente” (Ibid., p. 61). De outro lado, explicita uma visão do letramento como uma dimensão do numeramento quando afirma que

[...] a linguagem tem um papel crítico tanto na aprendizagem matemática (ex: lendo livros-texto de matemática, interpretando palavras dos problemas, etc.) como no manejo de tarefas da vida diária envolvendo elementos matemáticos (ex: leitura de instruções de embarque; obtendo o sentido de um artigo jornalístico com elementos estatísticos; etc.). (TOLEDO, 2003, p. 61) O numeramento, segundo essa pesquisadora, é mais do que o domínio de habilidades básicas de registro matemático e mais do que conhecimentos técnicos (regras matemáticas, operações e princípios). Além de conhecimentos específicos e estratégias, envolve habilidades cognitivas gerais e conhecimento de mundo adquirido dentro e fora da escola. Relaciona-se, ainda, às disposições, às crenças, aos hábitos e aos sentimentos do indivíduo sobre as situações por ele enfrentadas. Ademais, o desenvolvimento e o uso das habilidades matemáticas a ele relacionadas ocorrem em função dos diferentes tipos de atividades diárias realizadas pelos sujeitos, dependem das suas circunstâncias pessoais de vida e de trabalho, das mudanças tecnológicas dos contextos em que vivem, das suas motivações e dos seus propósitos (cf. TOLEDO, 2003, p. 181).

A relação de distanciamento que Toledo (2003) estabelece entre numeramento e matemática escolar é evidenciada estritamente quando ela discorre sobre a educação matemática. A autora afirma concordar com Gal (1993 apud TOLEDO, 2003)quando este afirma que o numeramento é um terreno mais amplo e de natureza mais funcional do que o que vem sendo denominado “educação matemática”. Ao enumerar uma série de habilidades que envolvem diferentes níveis de interação entre habilidades de letramento e a linguagem

matemática, ela enfatiza que a educação matemática deve considerar especialmente a linguagem e o letramento.

Além de estarem intimamente envolvidas no processo de aprender matemática, as habilidades de linguagem constituem-se como o veículo através do qual adultos se comunicam com os outros para obter informações, fazer requerimentos ou clarificar normas. Isso sugere que há áreas significativas onde letramento e numeramento se misturam numa única habilidade e que ambos servem de suporte para habilidades gerais de resolução de problemas. Há, também, várias situações do mundo real, quantitativamente ricas, que requerem um mínimo de uso das habilidades de linguagem. (TOLEDO, 2003, p. 63)

Com essa visão que considera que a educação matemática deve promover “habilidades de letramento” integradas com “habilidades de numeramento”, a relação de distanciamento entre numeramento e matemática escolar se evidencia quando ela afirma que o ensino de matemática na escola “pode impedir o desenvolvimento de habilidades integrativas e úteis de numeramento” (TOLEDO, 2003, p. 61). Isso ocorre, segundo ela, “em parte porque as situações funcionais nas quais as habilidades são requeridas não se encaixam nas tarefas instrucionais tradicionalmente usadas para ensinar matemática” (Ibid., p. 61) e também porque há uma separação entre o ensino da matemática e o ensino das outras áreas. A autora ressalta, por exemplo, que geralmente os educandos adultos têm pouco contato na sala de aula com materiais textuais ou verbais que envolvem elementos matemáticos e que são freqüentemente encontrados na mídia ou em documentos do local de trabalho (TOLEDO, 2003, p. 61-62).

João Pedro da Ponte (2002), autor português, define o numeramento (por ele denominado numeracia ou literacia matemática) como a “capacidade de aplicar ferramentas matemáticas elementares – sobretudo ferramentas numéricas, estatísticas, probabilísticas e referentes ao uso de medidas – em contextos complexos” (PONTE, 2002, p. 3)23. Essa

23 Nesse mesmo artigo em que apresenta sua visão de numeracia, o autor explicita como esse conceito tem sido

abordado em Portugal. Ele afirma que, de modo geral, a literacia matemática (também denominada literacia

quantitativa, numeracia, literacia matemática, matemacia e materacia) envolve “a capacidade de utilizar conhecimentos matemáticos na resolução de problemas da vida quotidiana – em especial, conhecimentos ligados aos números e operações numéricas – e a capacidade de interpretar informação estatística” (PONTE, 2002, p. 3), mas que na literatura portuguesa há, basicamente, três diferentes campos de discordância a respeito do tema: num primeiro campo estão as questões relativas à escolha das áreas da matemática – aritmética, geometria, probabilidade e estatística, álgebra – que devem ser consideradas no estabelecimento de competências fundamentais de numeracia; no segundo, estão as divergências em relação ao seu aspecto mais funcional (de aplicação imediata de conhecimentos e procedimentos em situações concretas) ou ao seu aspecto mais “crítico”; no terceiro campo, por fim, estão os estudos que focalizam conhecimentos elementares e procedimentos básicos, em detrimento da utilização desses conhecimentos e procedimentos em situações do contexto real.

capacidade, de acordo com o autor, “tem pouco a ver com a compreensão de conceitos matemáticos abstractos e sofisticados” e envolve o “uso crítico” não só de informações quantitativas, mas também de “todo o tipo de informação formalizada (números, gráficos, diagramas)” (PONTE, 2002, p. 3). Para ele, a numeracia se distancia da matemática escolar, especialmente no que diz respeito ao grau de abstração que envolve cada uma delas:

[...] enquanto que a matemática escolar é um corpo de conhecimento, progressivamente mais abstracto, que visa uma formação cultural básica e uma capacidade para compreender e lidar com conceitos e modelos usados em diversas áreas do conhecimento, a numeracia é uma competência que diz respeito ao uso de noções matemáticas relativamente pouco sofisticadas em contextos reais complexos e, muitas vezes, dinâmicos. (PONTE, 2002, p.3) A despeito dessa afirmação que distancia numeracia de matemática escolar, a discussão que esse autor propõe em torno do conceito de numeramento ocorre em uma perspectiva muito associada às práticas escolares, no sentido de se pensar a numeracia como uma competência que precisa ser desenvolvida, na escola, de modo interdisciplinar. Ele afirma, ao se referir ao currículo escolar, que a numeracia e a “matemática”, mesmo sendo domínios diferentes, são “naturalmente ligados entre si” e podem ser vistas como “complementares” (PONTE, 2002, p. 3, aspas do autor). Argumentando nesse sentido, considera que a relação entre a matemática escolar e a numeracia é análoga à relação entre a disciplina língua materna e a literacia:

Tal como a literacia (em sentido estrito) é uma competência interdisciplinar, que não se desenvolve exclusivamente na disciplina de língua materna, mas tem de ser trabalhada em todas as disciplinas escolares, também a numeracia é uma competência interdisciplinar que tem de ser trabalhada por todas as disciplinas que usam informação numérica e outros conceitos matemáticos. (PONTE, 2002, p. 3)

O último autor sobre o qual falaremos, Richard Barwell (2004), assim como Mendes (2001), se apóia nos estudos sobre letramento para referir-se ao numeramento, transpondo conceitos do campo do Letramento para conceituar o numeramento. Para acentuar o caráter social desse fenômeno, em oposição a uma concepção que o compreende como “habilidade autônoma”, esse autor chega a propor uma caracterização do numeramento em que troca a palavra “letramento” pela palavra “numeramento” na seguinte citação:

Letramento é basicamente algo que as pessoas fazem; é uma atividade, localizada no espaço entre pensamento e texto. O letramento não apenas reside na cabeça das pessoas como um conjunto de habilidades a serem aprendidas, e não reside apenas no papel, capturado como textos a serem

analisados. Assim como toda atividade humana, o letramento é essencialmente social, e está localizado na interação entre as pessoas. (BARTON; HAMILTON, 1998, p. 3 apud BARWELL, 2004, p. 20, tradução nossa) 24

O autor afirma que práticas de numeramento são um subconjunto das práticas de letramento. Assim sendo, “práticas de numeramento são práticas de letramento que envolvem textos ‘numerados’, isto é, textos que incluem informação numérica, inclusive informação na forma de diagramas” (BARWELL, 2004, p. 21, aspas do autor, tradução nossa)25. Com essa conceituação de numeramento como dimensão do letramento, o autor chega ao que considera a natureza do numeramento: “se o letramento é o processo social de produzir significado com um texto, então numeramento é o processo social de produzir significado com um texto numerado” (Ibid., p. 21, tradução nossa)26.

Para esse autor, numeramento e matemática27 são essencialmente diferentes: “o numeramento, de alguma maneira, envolve o uso de números, cálculos ou diagramas na prática social, enquanto a matemática envolve algum grau de abstração ou preocupação com a estrutura” (Ibid., p. 20, tradução nossa)28.

Com essa visão de numeramento como algo diferente de “matemática”, Barwell aponta também diferenças entre práticas de numeramento e práticas matemáticas. Ele explica essa distinção através de um exemplo: ao dirigirem, os motoristas produzem vários significados para os sinais de trânsito (que são os “textos numerados”) – significados que são parte de um processo social de dirigir seus carros na estrada. Os significados produzidos informam, segundo o autor, as ações dos sujeitos enquanto eles dirigem e tais ações traduzem comportamentos que são práticas de numeramento envolvidas na leitura dos textos próprios desse tipo de atividade (textos que envolvem não só números como também mapas, indicações de direção, etc.). Essas práticas são inerentes ao ato de dirigir, mas não são práticas

24 Literacy is primarily something people do; it is an activity, located in the space between thought and text.

Literacy does not just reside in people´s head as a set of skills to be learned, and it does not just reside on paper, captured as texts to be analysed. Like all human activity, literacy is essentially social, and is located in the interaction between people.

25

Numeracy practices are literacy practices involving ´numerate´ texts, that is, texts that include numerical

information, including information in the form of diagrams.

26 If literacy is the social process of making meaning with text, then numeracy is the social process of making

meaning with numerate text.

27 Percebe-se que a denominação “matemática” usada pelo autor não se restringe à matemática acadêmica ou

científica, referindo-se, neste caso, sobretudo à matemática escolar.

28 Numeracy somehow involves the use of numbers, calculation or diagrams in social practice, whilst

matemáticas, na medida em que “o que poderia ser visto como matemático está embutido na prática da atividade” (Barwell, 2004, p. 20, tradução nossa)29.

Entretanto o autor afirma que práticas de numeramento podem ser “matematizadas” (mathematised), como ocorre em problemas escolares envolvendo carros e velocidades. É nesse sentido que o autor afirma que a resolução de problemas escolares estabelece vínculos entre práticas de numeramento e práticas matemáticas, possibilitando relacionar a experiência do cotidiano ao tipo de contexto construído em tarefas matemáticas escolares. Com essa idéia, percebe-se que, embora ele não veja o numeramento como idêntico à matemática ou às “práticas matemáticas” que se realizam na escola, enfatiza que é possível estabelecer ligações entre as práticas de numeramento e as práticas matemáticas escolares.

Na conclusão de seu artigo, ele ressalta que, embora argumente a favor de que o numeramento seja pensado mais como uma forma de letramento do que como uma forma de “matemática”, isso não significa dizer que o numeramento é uma noção de pouco interesse para os educadores matemáticos. Pelo contrário, considera que é potencialmente frutífero o diálogo entre as pesquisas do campo do Letramento e as pesquisas do campo da Educação Matemática.

Várias questões nos foram suscitadas quando identificamos os aspectos conflituosos que caracterizam, em graus variados, as relações entre matemática escolar (e/ou educação matemática) e o conceito de numeramento estabelecidas pelos autores que acabamos de abordar. Sentimos a necessidade de melhor compreender tais aspectos, de modo a vislumbrar possibilidades de uma investigação que pudesse abordar e discutir o fenômeno do numeramento no contexto escolar. A seguir, apresentamos o estudo que fizemos a esse respeito.

29 I hesitate to attempt to define mathematics in this article, but if mathematics involves some aspect of

abstraction or attention to structure, these activities do not necessarily involve mathematics, since what might be seen as mathematical is embedded in the practice of the activity.