E dessa forma a linguagem literária segue uma trilha pela qual ela desenvolve seus desideratos de conferir sentido à vida e às coisas, fazendo com que, pelos caminhos das relações entre Literatura e sociedade, o recurso individual ou associado a conteúdos ideológicos, ao mito, ao silêncio, aos estereótipos, às modalidades de discurso adotadas e a toda e qualquer possibilidade de estratégia discursiva provida de pregnância ideológica, constitua-se como canais por onde a linguagem possa fluir, e é nesse processo de fluência, como sói acontecer, que ela obtém consectários muito mais pela prática do que pelas idéias. Nesse desdobramento associativo convém ressaltar que não podemos perder de vista o fato de que a qualquer um desses elementos discursivos cabe como função precípua o mister de conferir contornos quase mântricos a conteúdos que, embora se apresentem como uma sucessão de fatos dotados de sentidos já definidos, são na verdade partes constitutivas de acontecimentos que na sua essência postulam sentidos.
3.6- Entrecruzamentos textuais
U
MA VEZ ORGANIZADA a questão sobre os elementos discursivos estrategicamente utilizadosna topografia literária, bem como tratadas as implicações advindas de sua utilização, é chegado o momento de ser retomada a discussão acerca da análise do diálogo efetuado entre textos possuidores de densidades díspares, mas que, a despeito disso, executam empréstimos mútuos, penetram-se reciprocamente e, de certa forma, transformam-se uns em outros, de maneira a apresentar como consectários dessa interação, artefatos cujo processo de elaboração de um, em grande medida, apresenta e mantém convenções e conveniências impostas pelas relações sociais cotidianas, e por isso hegemônicas, presentes na conformação do outro.
Como o mapeamento sobre os textos de natureza histórica já foi desenvolvido e neles se procurou demonstrar os pressupostos utilizados na descrição da trajetória traçada pelo negro, à imersão nos textos literários caberá construir condições viáveis de se verificar com propriedade as formas e os artifícios a partir dos quais esta estrutura produtiva se vale para, numa esfera da expressão humana de eminência estética, reverberar e manter situações semelhantes àquelas que se encontram nos textos históricos, tudo em função de tratamentos, também semelhantes, que ambos dispensam, de maneira prioritária, à presença do negro.
Por ser histórica e tradicionalmente construída com base em informações indigentes e simplistas, a imagem do negro enfrenta como conseqüência mais imediata o fato de quase nunca ter a realidade de seu cotidiano considerada em toda sua dimensão, quando o assunto em pauta o coloca no centro de discussões efetuadas, quer no dia-a-dia, quer nas esferas das expressões humanas, estéticas ou não. Esse tipo de proposta limita em muito qualquer linha de raciocínio interpretativo que se queira desenvolver sobre questões das quais ele é parte considerável, principalmente se observarmos que, no caso em pauta, isto é, em se tratando de Brasil, as questões às quais ele integra são sempre polêmicas e mal resolvidas, quando a preferência não recai sobre o interesse em evitar qualquer discussão sobre elas. À medida que as circunstâncias que envolvem o negro deixam de ser reveladas e abstraídas em sua inteireza, o quadro resultante desse desdobramento espontaneamente passa a exigir, então, que o seu observador tenha acesso a outros espaços da atividade humana, para que neles possa contar com elementos que, por sua própria essencialidade, o auxiliem a formar sobre o negro uma concepção que, na verdade, consiga traduzir toda uma realidade do cotidiano que não tenha sua essência mutilada pela ausência de um ou outro dado imprescindível ao processo de formação quando se trata de representar alguém ou mesmo uma situação, a exemplo do que
normalmente estamos habituados a ver. Geralmente o que é muito valorizado numa atividade crítica de natureza social é o resultado imediato, aparente, como conseqüência de uma demasiada valorização de efeitos práticos, visto que pouco ou quase nada se concentram atenções na essência das causas que deram origem aos episódios sob julgamento. Se não por total desconhecimento, para não causar polêmica; se não pelo interesse em manter inalterável o mundo ao redor, por simples comodismo, pois é muito menos complicado, menos trabalhoso e mais cômodo dispensarmos ao fatos sociais proeminentes,− já consagrados segundo uma tradição −, um tratamento que não problematize suas razões, do que sobre eles mapear condições que possam revelar outras facetas, principalmente porque nas teias das relações sociais quanto mais se contribui para o continuísmo, menos se é cobrado, menos se é questionado. E tendo-se em vista que esse processo analítico se desenvolve largamente a partir de propostas que permitem chegar a uma representação pela disposição em supervalorizar o que é fachada, considero sintomáticas as observações de Moscovici, para quem
o status dos fenômenos da representação social é o de um status simbólico: estabelecendo um vínculo, construindo uma imagem, evocando, dizendo e fazendo com que se fale, partilhando um significado através de algumas proposições transmissíveis e, no melhor dos casos, sintetizando um clichê que se torna um emblema.124
Pelas idéias que me passam as assertivas de Serge Moscovici, fica a certeza de que a consistência das representações sociais, que possibilitam chegar a conceitos terminantes, como os que são elaborados sobre o negro, estrutura-se sobre concepções fundadas em substâncias prontas, acabadas, e à medida que se constroem a partir desses componentes, aumenta o grau de limitação da
performance do sujeito exposto. Prescindindo de dados valiosos, próprios de segmentos expressivos do saber tanto quanto de abordagens multifacetadas que estimulem outras formas de visão e de análise do sujeito ou do objeto sob enfoque e invariavelmente priorizando os mesmos vieses e os mesmo interesses, o resultado obtido é sempre o mesmo: representações que são autênticas “crônicas de uma morte anunciada”. Apesar da prescindência dessas premissas e da in-consistência de seu teor, as impressões concebidas instalam-se como axiomas, fazem-se respeitar como tais e adquirem a capacidade de reservar ou mesmo de preservar espaços e significações sociais, negando ou conferindo acessos, segundo interesses em atender a propostas hegemônicas. Portanto, para que o olhar sobre o negro seja desferido de forma a obter respostas que traduzam a verdade de todos os fatos que o envolvem é preciso que esse olhar se faça valer de olhares paralelos, isto é, que procure considerar outros elementos que circulam ao redor de situações que, em princípio, são tratadas de
formas muito circunspectas, cunhadas no imaginário popular pela via da tradição oral ou por factóides lançados ao longo de séculos de dominação. Nesse processo de interpretação, é preciso, sobretudo, dimensionar e valorizar o lugar de onde se fala, de onde se olha e o que se vê.
O
S CONCEITOS QUE O DISCURSO não-literário propõe, e por vezes, impõe sobre o negro, quede fato são formas de traduzir uma concepção que o senso comum está habituado a construir sobre ele no interior do panorama sócio-histórico, consolidam-se e encontram ressonância na Literatura quando para lá migram e se manifestam, atuando na ocupação de espaços, na definição de enredos, na elaboração de temas, enfim, colaborando para a conformação da estrutura estética que eles agora integram. Uma vez instalados no locus literário é especialmente a partir da performance dos personagens que esses conceitos são difundidos, a exemplo do que podemos constatar nas intenções embutidas nas palavras de Mário, personagem criado por José de Alencar, segundo o qual “a miséria nas classes pobres da Europa é tal, que o escravo no Brasil deve considerar-se abastado”.125
A presença no universo ficcional de episódios dessa natureza me convence de que o discurso literário, conjugado com o discurso não-literário, seja ele histórico, político, antropológico, sociológico ou de conteúdo análogo, contribui sobretudo para gerar uma “situação circular” que, como tudo que tem essa forma, traz como principal característica a obscuridade que assinala tanto sua origem quanto seu fim. Na mesma proporção, perpassando o cotidiano das pessoas de modo tão percuciente, não sabemos, de fato, onde este estado de coisas começa e onde termina; se ele se desloca da Literatura para o cotidiano ou do cotidiano para a Literatura. Também não se tem como meta proceder a um inventário que detecte o ponto de encetamento dessa proposta discursiva porque o mais importante não é o sentido que ela adota para si. Inevitável é não perder de vista a contribuição que o discurso literário presta às formas de discurso com os quais dialoga, corroborando idéias e até teorias que esses textos tendem a disseminar, bem como a contribuição que presta para a formação de mundividências viciadas, quando, em casos como este, decide pela adoção de comportamentos estéticos semelhantes aos adotados pelos textos de natureza sócio-histórica. A visão de Mário, como vimos, um personagem de uma ficção da Literatura brasileira do século XIX, é em toda sua dimensão uma fotografia muito fiel que abriga com nitidez o pensamento da classe dominante da época, de presença tão incisiva nas produções sócio-históricas daquele tempo, e o que é mais importante, de tendências muito atuais. Neste particular, o texto alencariano tem como envoltório as mesmas pretensões tão presentes em textos de natureza histórica: um acentuado teor
ideológico, grandes interesses em manter a hegemonia da classe dominante e a intenção em convencer a todos de que eram boas as condições de vida dos escravos.
Para tratar dessa situação com propriedade vou enveredar pelos caminhos da crítica sociológica e, uma vez eleita essa modalidade de análise crítica, os textos considerados são aqueles que priorizam fatos históricos e sociais, além de trazerem dentro de suas prioridades aspectos englobantes de outros segmentos do saber ou de outros setores de atividade humana vinculados àqueles tópicos, fatores que do ponto de vista discursivo serão estabelecidos como referência de assimilação, de cruzamento e de trocas mais imediatas. É pela via da imersão no discurso literário que são adquiridas as possibilidades para se demonstrar em que medida fatores externos dos mais diversificados matizes estão integrados neste discurso. A primazia pelo texto literário encontra razão de ser fundamentalmente numa exigência que lhe é congênita e pela competência com que ele preenche este requisito ao configurar- -se como “campo minado de tensões”,126 legitimado pelo fato de trazer embutido em si um repertório de efeitos produzidos pelas estruturas sociais.
Campo minado de tensões! É justamente a presença dessa perspectiva de formatação do texto, imprescindível para sua condição de literário, que julgo encontrar-se distorcida em determinados casos e até ausente em situações não raras − e é lógico que essa referência diz respeito exclusivamente às obras que trazem a presença do personagem negro −, a ponto de eliminar possibilidades de algumas formas de apreensão da criação literária. Tal prejuízo acontece a partir do momento em que se configuram como dominantes os efeitos produzidos pelas estruturas sociais que esses textos priorizam. Em sendo assim, o prejuízo maior recai sobre o próprio objeto estético literário que se torna menos opulento à medida que a construção de sua categoria de ação transformadora sobre o mundo passa a receber investimento apenas parcial. Em função de especificidades que não contribuem para aumentar seu grau de literariedade, mas que lhe são impostas pelo poder de preencher lacunas criadas e, porque não dizer, até pelo poder de fazer com que lacunas fiquem abertas, o texto literário se vê posicionado diante de uma situação que requer olhares diligentes que dimensionem essas marcas, tendo em vista que ele não mais se desenvolve impulsionado apenas por elementos próprios de sua tessitura estética, mas o faz em grande medida ancorado em significações sociais ideológicas, e como já devidamente destacado, de carateres dominantes.
Entendo que a condição de campo minado de tensões, − básica numa criação literária por conferir a ela diferentes possibilidades de apreciação −, nem sempre é levada a efeito como deveria
de modo a viabilizar discussões mais diversificadas, numa leitura e numa análise mais aprofundadas. E o fator que mais contribui para neutralizar a presença desse requisito no texto literário tanto quanto nos textos de teor sócio-histórico, embora não veja neste a necessidade imperiosa de assim se manifestar, é exatamente a prevalência de seu teor ideológico, que se manifesta também a partir dos mais variados elementos discursivos e, conforme convém ressaltar, ideológico sempre ao nível da dominância.
A partir da minimização e até da ausência de tão decisiva componente, começa a haver entre textos pertencentes a diferentes topografias um diálogo que, na maioria das vezes, encontra resultados práticos na capacidade que o texto literário tem em reverberar propostas ideológicas oriundas de outras instâncias.
Raízes do Brasil reproduz a insatisfação do autor diante das transformações que o país começa a empreender, mas reproduz, sobretudo, a insatisfação de uma classe dominante. Casa-grande e
senzala representa a visão de Gilberto Freyre lançada sobre uma topografia sócio-histórica, entretanto, certamente, mais que uma mirada individual, é também a representação do olhar de uma classe marcada por uma incompreensão que continua aí. Vigendo ideologicamente.
Os textos literários que contemplam a presença do negro, apesar de apresentarem restrições ao nível estético, ainda assim são dotados de uma predisposição em oferecer elementos inerentes, e, em alguns casos, vitais até a uma leitura interpretativa, que os textos sócio-históricos teimam em abdicar. As restrições a que me refiro configuram-se por meio da exploração de uma linguagem responsável pela elaboração do contorno do personagem negro que lhe permita plasmá-lo segundo uma circunstancialidade social. Já a oferta de figuras literárias, por sua vez, apresenta-se sim, porém, de forma acanhada, no recôndito do texto, justamente por ser asfixiada por uma proposta ideológica proeminente que, neste particular, não por acaso se assemelha à do texto sócio-histórico.
Neste cenário de textos que se entrecruzam, vale a pena ressaltar que o sócio-histórico conta com um expressivo poder de penetração nos mais diversificados âmbitos sociais, muito em função de seu menor grau de exigência interpretativa e de significação mais literal, condições que lhe proporcionam uma possibilidade maior e mais imediata de convencimento. Contrariamente, no mesmo espaço, o texto literário é dotado de menor poder de penetração até mesmo em função do seu maior grau de exigência interpretativa, de presença multissignificativa e, com todas as deficiências que ele possa vir a ter, por seu grau de literariedade que, associado às demais características, transformam-no num artefato de absorção acessível a um menor número de leitores. No entanto, é preciso que se diga que essas diferenças não inviabilizam o diálogo que eles estabelecem entre si, que acaba formando um todo de interesse comum.
A discussão proposta sustenta-se, por um lado, na presença do negro, tendo como conseqüência sua condição original de escravizado no Brasil; por outro lado, sustenta-se na atenção que o universo literário dispensa a esse episódio em vista de sua relação com o campo oficial-historicista. Por isso, o sentido e a razão começam a fazer-se presentes a partir de um construtivismo que circunda a figura do negro na sua realidade cotidiana.
Quando recorro à expressão construtivismo, refiro-me a uma forma de ver o mundo e as contingências que o cercam que, num sentido mais sistêmico, formalizaram-se no século XVI, no momento em que o negro pisou em terras brasileiras pela primeira vez, segundo alguns historiadores, em 1534. Partindo do princípio de que o negro foi arrancado de seu país e trazido para o Brasil para ser submetido a um trabalho forçado, começamos a verificar que, como efeito e como situação paralela, ele o foi também para ser destroçado naquilo que o homem tem de mais sagrado: a sua dignidade humana. Uma prova incontestável desta predisposição é o fato de as famílias serem desintegradas quando aqui aportavam. Como o nível da presunção nos permite perceber, tal decisão tinha por objetivo causar o enfraquecimento moral e psicológico do escravo. Todos sabemos que foram inúmeros os expedientes utilizados com a finalidade de provocar neles toda sorte de abatimento. E para que a condição humana daquela gente pudesse ser vilipendiada a ponto de mantê- -la num constante estado de adversidades, tornava-se imperioso criar sobre eles uma imagem depreciativa dotada de um grande poder de persuasão.
O cotidiano do escravo negro de certa forma confirmava o que o imaginário do homem branco construía e internalizava sobre ele.
O construtivismo ao qual me refiro e que inicialmente posiciono lá no século XVI perpassa os séculos seguintes e no século XIX ganha status epistemológico. Essa condição torna-o mais percuciente em função de um caráter científico que agora o assinala e, por esse motivo, torna-o também mais abrangente e quase axiomático. A despeito disso é preciso que não se perca a referência de que seu aspecto cruel é congênito, aspecto que implica ressaltar que o século XIX, pela via do cientificismo, apenas estabeleceu como estatuto um conjunto de comportamentos que o século XVI, pela via das práticas do cotidiano, já antecipara.
Depois de quase quatro séculos de aplicação intensa e diária, o construtivismo, − ora de índole cientificista ora não −, se consolida definitivamente, tendo como causa principal sua introjeção na alma de um povo que aprendeu a cultivá-lo por meio das mais diversificadas formas de emprego que se possa imaginar, permanecendo atuante até nossos dias. É a partir do apelo a esse construtivismo, hoje muito mais congênito que cientificista e, em função dele que tudo se explica. É pela presença
dele que a classe dominante continua tendo dificuldades em assimilar a presença do negro fora de parâmetros “brancocêntricos” por ela estabelecidos, sejam eles éticos, morais, religiosos ou de teor que o valha.
Como vimos, inicia-se pois, no século XVI a trajetória de uma visão construtivista norteadora das atitudes que a classe dominante adota em suas relações sociais com o negro, evoluindo nos subseqüentes e adquirindo no século XIX uma consolidação que se faz presente até hoje. A Abolição “liberou” os escravos, sim, mas não mostrou competência suficiente para retirar da classe detentora do poder a sensação de superioridade que, no âmago de seus integrantes, adormece como a parte maior de um grande iceberg que emerge revelando sua real dimensão a cada movimento que o negro enceta para alterar sua própria vida, dando-lhe rumos que vão ao encontro daquilo que ele entende que é melhor para si. E o que o negro entende que é melhor para si, a classe dominante continua a entender que é pior para ela. Por isso, como ela vê como uma ameaça cada tentativa de transformação social imprimida pelo negro, recrudescem sentimentos dominantes que a um processo abolicionista verdadeiro também caberia discutir. Por esses motivos, não se poderia esperar resultado diferente de um mero ato administrativo que, por ser a empulhação que foi, demonstrou que ao inevitável cumprimento de uma obrigação que lhe foi imposta por circunstâncias de toda sorte, não associou o menor interesse em pensar alternativas que pudessem atuar sobre as mentalidades de então, de forma a influenciar as gerações futuras para que elas também viessem a construir condições de pensamento que não fossem petrificadas como as construídas naquele momento histórico.
Concluindo: o que pretendi demonstrar dentro deste capítulo é que nossa historiografia oficial é produto de uma perspectiva única construída ao longo de séculos e que, em sua essência, continua prevalecendo, ora de maneira consciente, ora não, mas, invariavelmente sustentada pela ideologia dominante. O importante é perceber que, de alguma forma e sempre por meio da linguagem, a topografia literária reverbera esta proposta, contribuindo em grande medida para sua celebração.