Especificamente no que diz respeito às estimativas DID, também foram realizados exercícios de falsificação com o objetivo de se impor requerimentos adicionais às estimativas anteriormente apresentadas em favor da inexistência de impacto nos indicadores de segurança pública do DF por ocasião da criação do FCDF em 2003.
Nesse sentido, falsificou-se o período de implantação do programa utilizando os anos prévios de 2001 e de 2002 (HECKMAN e HOTZ, 1989). A intuição consiste em averiguar uma possível tendência pré-existente para as variáveis de resultado em função de características não observadas e, portanto, não controladas no modelo proposto. Os resultados desses testes adicionais não indicaram reduções ou aumentos nas taxas de criminalidade do DF em relação ao grupo de controle no período em que o FCDF ainda não existia (período falsificado: 2001 e 2002), corroborando as estimativas anteriormente apresentadas tanto para os crimes contra a pessoa quanto para os crimes contra o patrimônio133.
No que diz respeito às estimativas por Controle Sintético, Abadie et. al. (2010, p.501) propõem verificação desses resultados por meio de testes placebo, anteriormente considerados também em Abadie e Gardeazabal (2003) e em Bertrand et. al. (2004). Consistem na averiguação de quão propensos ao acaso estão esses achados e podem ser operacionalizados por meio de designação falsificada ao tratamento para os outros entes que não o próprio DF. Assim, todos os 26 Estados passam a ser identificados como se tivessem recebido tratamento em 2003. A partir desse cenário hipotético, diferenças nas taxas de criminalidade dos vários placebos (em relação aos seus respectivos sintéticos) com magnitudes similares às apresentadas pelo DF (linha preta e cheia dos Gráficos 4.4 e 4.5) provêm evidências em favor da inexistência de impacto por parte do FCDF (as mesmas tendências estariam presentes nos demais entes). Em caminho contrário, se a trajetória apresentada pelo ente que realmente foi tratado for suficientemente diferente daquela apresentada pelos demais, ter-se-ão indícios de que o programa a que foi sujeito de fato produziu efeitos134.
133 Esses resultados, por serem qualitativamente semelhantes aos já apresentados, não foram incluídos em tabelas.
Contudo, podem ser requisitados ao autor a qualquer tempo.
134 Em Abadie et. al. (2015, p.499-500), os autores fazem diferenciação entre esse processo, chamado de “in-space
Gráfico 4.4 - Diferenças nas Taxas de Homicídios no DF e nos Placebos dos 26 Estados Painel “a” – 26 Estados Painel “b” – 12 Estados com MSPE ≤ ao do DF
Fonte: Estimativas obtidas por meio do programa STATA 13.
Tomando inicialmente a avaliação pelas taxas de homicídios, constantes do Gráfico 4.4, observam-se diferenças em relação às trajetórias dos respectivos sintéticos, tanto antes quanto depois do tratamento, que vão de extremos negativos a positivos, denotando grande variabilidade no comportamento dos 26 (vinte e seis) Estados (painel “a”). Com o intuito de se averiguar o comportamento apenas daqueles entes que, assim como o DF, tiveram bons ajustamentos na trajetória da variável de resultado no período pré-tratamento, restringiu-se a amostra apenas àqueles 12 (doze) Estados que possuíam MSPE pré-tratamento menor ou igual ao apresentado por esse ente tratado (painel “b”). Nesse cenário, é possível distinguir que o comportamento ascendente do DF supera 9 (nove) entes dessa subamostra, ficando abaixo de apenas 3 (três) outras unidades, o que indica relativa robustez na interpretação anterior de que o FCDF não melhorou as taxas de homicídios da Capital Federal, podendo até mesmo estar associado com algum grau de degradação relativo nesse indicador.
Esse comportamento fica ainda mais flagrante quando se analisam os testes aplicados às taxas de roubos e furtos de veículos, apresentadas no Gráfico 4.5. Como se evidencia no painel “a”, as diferenças do DF em relação ao seu DF Sintético já estão entre as maiores da amostra mesmo quando não se procedem os ajustamentos pela magnitude do MSPE. Ademais, é possível vislumbrar que a maioria desses entes tem apresentado reduções nas suas diferenças em relação aos seus respectivos sintéticos, ao contrário do que aconteceu com o DF no período pós-2003. Quando o foco passa para as comparações com os 15 (quinze) Estados com MSPE menores ou iguais ao do DF (painel “b), fica ainda mais nítido que o comportamento das diferenças do DF, predominantemente positivo após o tratamento, só é superado por um ou dois entes, enquanto que a maioria da subamostra conta com diferenças negativas. Esse quadro tem
-4 0 -20 0 20 40 D ife re nç as n as Ta xas d e H om ic ídi os 1995 1999 2003 2007 2011 Ano -4 0 -20 0 20 40 D ife re nç as n as Ta xas d e H om ic ídi os 1995 1999 2003 2007 2011 Ano
o potencial de reforçar a inferência de que a criação do FCDF pós-2003 não impactou beneficamente (reduzindo) a taxa de roubos e furtos de veículos do DF, mas que em caminho contrário, aparentemente a deteriorou, em termos relativos.
Gráfico 4.5 - Diferenças nas Taxas de Roubos e Furtos de Veículos no DF e nos Placebos dos 26 Estados
Painel “a” – 26 Estados Painel “b” – 15 Estados com MSPE ≤ ao do DF
Fonte: Estimativas obtidas por meio do programa STATA 13.
Conforme debatido, em favor desses resultados obtidos pela aplicação do CS ao setor de segurança pública do DF pesa o potencial de terem sido obtidos em um contexto em que há um ajustamento de melhor qualidade e mais transparente entre a unidade tradada e o seu contrafactual, agora gestado como uma combinação ponderada dos diversos entes disponíveis para a comparação no donor pool. A prudência, no entanto, sugere a utilização desses resultados com cautela, particularmente por conta dos desafios relacionados com a aplicação das técnicas convencionais de inferência e de robustez a esse contexto. Não obstante essas ressalvas, o horizonte para aplicações futuras que objetivem expandir a temática aqui iniciada parece promissor, haja vista a proposição recente de novos instrumentos destinados à operacionalização de técnicas inferenciais mais robustas para essa ferramenta de Controle Sintético (FIRPO e POSSEBOM, 2015).