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Segurança e Tolerabilidade

O LSD é reconhecido como uma substância fisiologicamente segura quando administrado em doses moderadas (50 a 200 μg), especialmente em ambientes controlados, com apenas elevações modestas da pressão arterial, frequência cardíaca e temperatura corporal observada (24,51). Apesar do uso indevido do LSD e outros alucinogénios, estes não são substâncias que causam dependência, nem levaram ao uso compulsivo de drogas, abstinência ou a autoadministração quando testado em animais (10). A evidência sugere que os psicadélicos clássicos, como o LSD, têm muito melhor perfil de segurança do que outras drogas aditivas e menos efeitos simpaticomiméticos do que estimulantes, como o MDMA (78).

Com uma substância tão potente como o LSD, é de extrema importância uma correta dosagem. A dose limite para efeitos simpaticomiméticos mensuráveis em humanos é de 0,5 a 1,0 μg / kg de LSD per os, sendo estes efeitos similares com uma dose 100 ou 200 μg (24,79).

As alterações autonómicas refletem uma estimulação de ambos os ramos do sistema nervoso autónomo. A estimulação simpática geralmente predomina no quadro e é evidenciada, na maioria dos indivíduos, por pupilas midriáticas e aumentos leves a moderados da frequência cardíaca e pressão arterial, mais inconsistentemente pode provocar hiperglicemia e, raramente, hipertermia e taquipneia. Ainda assim, existem grandes variações individuais, sendo que a estimulação parassimpática pode sobrepor-se causando bradicardia e hipotensão. Os efeitos parassimpáticos manifestam-se frequentemente através da diaforese e sialorreia; náuseas podem ocorrer, mas a emese é atípica (24,51,80). A maioria dos efeitos somáticos atribuídos ao LSD, principalmente aqueles relatados em estudos menos metodologicamente sofisticados, podem ser secundários à reação psicológica causada pela droga (81).

Os efeitos adversos agudos ocorrem até 10 a 24 horas após a administração de LSD e incluem dificuldade na concentração, cefaleias, tonturas, falta de apetite, xerostomia, náusea, desequilíbrio e sensação de exaustão; esta sensação e as cefaleias podem durar até 72 horas (51). Nenhuma reação adversa grave foi relatada em estudos modernos de LSD (51,63,64), corroborando a visão de que o LSD é relativamente seguro quando usado em ambiente médico e de acordo com as diretrizes de segurança (75).

A nível hormonal, o LSD aumentou agudamente as concentrações plasmáticas de cortisol (75), prolactina, ocitocina e epinefrina (47,51).

Visto que o LSD não é fisiologicamente tóxico, o seu consumo recreativo, fora do contexto medicinal, poderá, ainda assim, apresentar outros tipos de perigos. É importante salientar que um dos maiores perigos do consumo recreativo de LSD reside no uso de preparações de origem desconhecida. À partida, estas preparações de LSD acessíveis no mercado negro não são

Segurança e Tolerabilidade

Assim, a sua administração, especialmente em ambientes não supervisionados, poderá exibir certos riscos psicológicos. Visto o peso do set e do setting, potência e instabilidade deste composto, em vez da característica sensação de êxtase e de uma experiência transcendente, por vezes o indivíduo torna-se agitado e desorientado, exibindo sentimentos de ansiedade, pânico e paranoia, as vulgarmente chamadas bad trips (75). Ainda assim, as bad trips raramente foram associadas a mortes acidentais e suicídios.

As mortes atribuídas ao LSD descritas na literatura são dúbias, visto serem necessárias doses massivas para causar a overdose. Existem também, fortes indícios de que estas mortes tenham sido erroneamente associadas ao LSD. Após uma análise minuciosa da literatura cientifica, investigadores concluíram que o LSD não tem a toxicidade relatada, sendo que as prováveis causas destas fatalidades foram atribuídas a outras drogas psicoativas substituídas por LSD (p.e. o 25i-NBOMe, tem fortes efeitos na regulação da temperatura corporal a nível do sistema nervoso central, podendo causar hipertermia extrema) e a restrições físicas excessivas, em que indivíduos com agitação psicológica, após doses padrão de LSD, foram colocados em posições de restrição física máxima pela polícia, provocando colapso cardiovascular fatal (82).

O mesmo se aplica para as sequelas psicológicas e sintomas psicóticos contínuos relatados após consumo de LSD, pois para além de muito raros, estes casos podem estar relacionados com a predisposição pessoal ou familiar para transtornos psicóticos. Não existe evidência que comprove a ocorrência e persistência rotineira de outras complicações, em pessoas saudáveis que consomem LSD num ambiente familiar (1,82).

Uma potencial complicação psiquiátrica é a Perturbação Persistente da Perceção por Alucinogénios (flashbacks), que se caracteriza pelo aparecimento espontâneo e recorrente das alterações da perceção provocadas pelo LSD, após várias semanas ou meses de abstinência. Apesar da sua baixíssima prevalência, sendo esta maior em consumo recreativo, estes “flashbacks” podem durar anos após a interrupção do consumo, com tendência a diminuir a sua frequência, duração e intensidade ao longo do tempo de abstinência (83).

Nas últimas décadas, tem se assistido a um decréscimo destes eventos adversos até mesmo fora do contexto investigacional e clínico, provavelmente devido ao uso exponencial de menores doses no mercado negro e ao acesso a informação mais precisa pelos utilizadores.

Após a associação da Talidomida a milhares de defeitos congénitos e mortes de crianças, houve um alarmismo geral por parte do público, em parte fomentado pelo sensacionalismo dos média, agravado por um estudo que aclamava que o LSD estava também associado a danos cromossómicos. No entanto, estas afirmações precoces e descontextualizadas foram posteriormente refutadas, não tendo sido possível replicar estes danos in vivo em humanos. Estudos empíricos não mostraram evidência de efeitos teratogénicos, mutagénicos ou carcinogénicos em humanos (84).

Assim, vários estudos se focaram em desvendar se realmente o LSD causa efeitos neuropsicológicos residuais, em usuários crónicos, e apesar dos inúmeros vieses, a revisão destes aponta para o facto das previsões iniciais parecerem injustificadas, apontando para efeitos inexistentes, ou se presentes, modestos (85).

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Dado o interesse renovado em psicadélicos, é importante alertar para as limitações metodológicas substanciais, sendo fulcral uma triagem atentada da pesquisa clínica (82).

Conclusão

Conclusão

A descoberta do LSD por Hoffmann, mesmo que acidental, gerou grandes expectativas na comunidade científica sobre o seu uso no campo da psiquiatria, designadamente no que concerne à vertente terapêutica e investigacional. No entanto, os seus efeitos psicotrópicos levaram à sua exponencial disseminação junto da comunidade para uso recreativo, que, rapidamente originou o seu mau uso e consequentemente a estigmatização social e política, tendo culminado com a sua proibição (14). Assim, o verdadeiro potencial deste e de outros alucinogénios permanece desconhecido.

Atualmente, a evidência indica-nos que os psicadélicos alteram a conetividade da rede cerebral e facilitam a desintegração da DMN, produzindo uma hiperconetividade entre regiões do cérebro que permitem a comunicação entre centros que normalmente não o fazem. Estes efeitos agudos e imediatos, tanto no comportamento como na conetividade, são provavelmente mediados por vias efetoras a jusante da ativação do recetor 5-HT2A, com estímulo do tónus glutaminérgico e síntese do BDNF, estimulando a neuroplasticidade (40).

Assim, os processos moleculares agudos do LSD parecem influenciar a plasticidade sináptica e facilitar mudanças a longo-prazo na neuroquímica cerebral, expressão génica e comportamento, explicando a possível eficácia terapêutica subjacente a uma única administração para atingir efeitos a longo-prazo. Por conseguinte, ao contrário dos ansiolíticos, antidepressivos e antiaditivos habituais, o potencial desta substância, passa por não exigir a toma diária, pois apenas são necessárias poucas ou uma única administração, além disso, os seus efeitos terapêuticos são alcançados em horas/dias e são mantidos por várias semanas/meses.

O pico da experiência aguda psicadélica é caracterizado pela perda do senso do “eu”, senso de unidade, transcendência do tempo e espaço e sentimentos positivos de humor, podendo ter impacto positivo sobre os hábitos e visões do paciente. A diminuição da reatividade da amígdala e do reconhecimento do medo, podem facilitar o processamento de informações negativas, bem como, o aumento dos sentimentos de proximidade, confiança e empatia podem aumentar a relação do paciente com o terapeuta, com possíveis benefícios na utilização do LSD como um adjuvante à psicoterapia. No entanto, ainda não é possível concluir os seus possíveis benefícios adicionais (6).

Vários estudos observacionais e ensaios clínicos abertos reportaram efeitos ansiolíticos, antidepressivos e antiaditivos, mas muito poucos estudos clínicos randomizados foram ainda realizados (11). Apesar dos relatos obsoletos da sua toxicidade, a evidência sugere que o LSD, tem um bom perfil de segurança e tolerabilidade, não causa dependência e está associado a uma mortalidade extremamente baixa, sem causalidade comprovada (15).

Para além do seu potencial terapêutico, é inegável o seu valor investigacional, sendo uma ferramenta para o estudo da função cerebral, capaz de fornecer novas perspetivas acerca da natureza da mente e de que forma esta surge da atividade cerebral. Não obstante aos seus

Conclusão

benefícios, permanecem dúvidas quanto ao uso do LSD, devido à sua imprevisibilidade e às profundas perturbações percetuais inerentes aos alucinogénios.

Apesar do grande volume de estudos sobre o tema, a grande maioria dos estudos iniciais possui erros metodológicos, visto não terem sido realizados de acordo com o regulamento atual da investigação moderna. Dado o interesse renovado pelos alucinogénios, novos estudos clínicos controlados foram já realizados, parecendo possível que estes ofereçam uma nova abordagem terapêutica para o tratamento de doenças psiquiátricas. Neste momento, é imperativa a realização de mais estudos para que se possa, finalmente, averiguar o potencial atribuído a este composto aquando o seu surgimento.

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