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Com Bakthin (1995) entende-se que “o texto é o dado primário e o ponto de partida de qualquer objeto de estudo e de pensamento”, mais especificamente a comunicação do pensamento entre os indivíduos dar-se através de textos falados ou escritos (MARCUSCHI, 1992), sejam estes formais e informais. Os textos formais ligam-se aos gêneros textuais secundários e, os informais, referem-se aos gêneros textuais primários, também manifestados por meio da fala e da escrita (BAKTHIN, op cit).

As pessoas alfabetizadas ou não, letradas ou pouco letradas, utilizam-se dos “gêneros textuais primários ou secundários” falados ou escritos (BAKTHIN, 1995), para realizarem suas práticas sócio-comunicacionais cotidianas. Os primeiros são textos falados/escritos utilizados para atender necessidades conversacionais imediatas nos relacionamentos familiares, entre amigos, vizinhos, etc, bem como utilizados em forma de escrita preliminar mediados ou não, por alguém em bilhetes, lembretes, anotações, cartões, cartas entre amigos e familiares., etc.

Isso significa uma maneira de se usar a língua oral/escrita informalmente, sem maiores preocupações de planejá-la com os usos dos recursos linguístico-discursivos da língua padrão, que são compreensíveis sem maiores problemas de interpretação entre falantes/escritores no mundo vivido. Estes são construídos em “co-autoria” nas interações coletivas e fundados no conhecimentos prévios e histórias de vida do falante/escritor (KOCH, 1977). Ao passo que os usos dos gêneros textuais secundários falado/escrito exigem níveis de planejamentos lingüístico-discursivos mais complexos, pois relacionam- se com às práticas de letramentos sociais exigidas na sociedade do conhecimento e da informação (AUBERT, 2004) e, referem-se aos textos da literatura, filosofia, acadêmico- científico, veiculados na comunicação midiática e técno-informática, além de outros. As pessoas analfabetas ou, pouco escolarizadas, que não têm acesso aos usos efetivos dos gêneros textuais secundários orais/escritos circulantes em muitos setores da sociedade, muitas vezes, limitam-se à elaboração de textos primários falados/escritos. Entretanto, as pessoas idosas analfabetas e pouco escolarizadas, pesquisadas nesse tabalho, tiveram acesso a diferentes “gêneros textuais orais/escritos secundários” em sala de aula próximos àqueles circulantes na sociedade, sendo “co-autores” da sua produção e “co- interpretantes” no partilhamento dos seus significados e, da sua construção coletiva in locus ao “rascunharem” suas próprias idéias (KOCH, 2001).

Essas atividades em conjunto fundamentaram-se no dialógo-interativo em sala de aula que proporcionaram aos FIs, não apenas o desenvolvimento (reelaboração) das habilidades lingüístico-discursivas referentes à estrutura dos textos secundários, mas possibilitaram-lhes maiores condições de usá-los no “continuum” de suas práticas sócio- comunicacionais orais/escritas em contextos sociais mais amplos. As interações de sala de aula favoreceram o contato com os gêneros textuais orais secundários, despertando os FIs para refletirem sobre as práticas sócio-comunicacionais institucionalizadas de pretensões hegemônicas.

A participação dos FIs fundada na pedagogia dialógica (FREIRE, 1987) e, nas enunciações interlocucionais (BAKTHIN, 1995), tornou a sala de aula em um espaço público aberto aos diversos falares (textos orais) sócio-culturais. O diálogo interativo ao longo do curso permitiu aos FIs o desenvolvimento progressivo das suas experiências de fala livres de entraves sociais ou, de maiores planejamentos lingüístico-discursivos de

natureza conservadora ou apenas decodificadora. Suas experiências de fala cotidiana não sofreram rupturas, mas passaram por reelaborações quando usavam operações linguístico- discursivas construídas e mediadas em sala de aula com outros interlocutores.

Isto não significando que as estruturas lingüístico-discursivas referentes ao gêneros textuais primários foram negadas entre si, ou mesmo substituídas por outras, mas que foram reconstruídas num diálogo problematizador que motivou a auto-gestão do texto falado e seu gerenciamento nas interações verbais/não-verbais (KLEIMAN, 1989). Se a linguagem em forma de texto falado é um instrumento efetivo na comunicação sócio- interacional em diversos contextos da sociedade (trabalho, comércio, bancos, empresas, hospital, escolas, igreja, família, indústria, etc), não basta que os FIs os reelaborem em sua progressividade primário-secundário em sala de aula, mas que estejam conscientes de que os mesmos constituem um direito básico para efetiva comunicação sócio-familiar e intergeracional, usados para desconstruir preconceitos sócio-lingüísticos enfrentados em seus relacionamentos sócio-comunicacionais.

Os enfrentamentos sócio-comunicacionais por meio do texto falado exigem regras de planejamento adequadas aos diferentes eventos de fala e que sejam “compreensíveis aos falantes” (HABERMAS, op cit), as quais são geradas e signficadas interacionalmente tendo em vista à construção do entendimento mútuo. Nesse sentido entende-se que apenas o aspecto linguístico não pode determinar o acordo comunicacional travado entre falantes/ouvintes, entretanto é por meio dele que os interlocutores materializam pretensões comunicacionais e constroem “possibilidades mútuas de alinhamentos” (GOFFMAN, 2002) pelos quais o texto do entendimento conversacional é redirecionado e resignificado no jogo interacional verbal/não-verbal.

O texto falado permeia “os diversos tipos de ações humanas” no cotidiano social, sendo manifestado nos “atos de fala” construídos por FIs nos cenários de fala interacional em diversos espaços públicos da sociedade (KOCH, 2001). Isso implica em saber o que os interlocutores dizem entre si, e como dizem um ao outro, para que o que foi dito entre eles sejam passíveis de entendimento mútuo (HABERMAS,2003). Neste sentido os interlocutores a todo instante da interação estão se explicando entre si, sobre o que dizem/fazem mediante os atos de fala de justificação, desculpas, esclarecimento, compreensão, agradecimento, solicitação, tendo em vista repararem possíveis mal-

entendidos ou, assegurarem a devida compreensão “do que está se passando aqui agora” (GOFFMAN, 2002).

Vale frisar que os atos de fala são enunciados lingüístico-discursivos únicos construídos por cada falante nas interações enunciativas e a sua compreensão depende das co-negociações mútuas, pois estão submetidos a contextualização das condições de produção que transcendem a mera relação “Eu-Tu” (MARCUSCHI, 2007). Isso implica em saber o que os interlocutores dizem entre si, e como dizem um ao outro, num determinado cenário de fala vivenciado em um determinado espaço físico-temporal para assegurarem a devida compreensão do que está sendo negociado entre si (GOFFMAN, 2002).

Os atos de fala relacionam-se com diferentes contextos sócio-histórico- culturais e com diferentes falantes em seus diversos papéis sociais (médico/paciente, professor/aluno, etc), gerando relacionamentos de distância/aproximação, despertando expectativas de registros linguístico-discursivos (diferentes falares), intenções comunicacionais, subjetividades dos interlocutores (idade, sexo, classe social, estado civil), perfil educacional, e outros (KOCH, 2001). Dessa contextualização, procedem as condições favoráveis a um jogo interacional de fala que serve de cenário para a construção dos sentidos das enunciações (dizeres).

Os atos de fala são imanentes ao próprio curso gestacional das falas interativas entre interlocutores como atores sociais (GOFFMAN, 1989), ou como falantes potenciais (HYMES, 1995), que negociam mutuamente as conversações (SACKS&SCHEGLOFF&JEFERSON, 1997), num mesmo plano de compreensão lingüístico-discursiva (GARCEZ, 2008) e, entendimento sócio-comunicacional (HABERMAS, 2003). Do contrário, os interlocutores podem lançar mão de mecanismos de “reparos” para o entendimento mútuo (GARCEZ, 2008), para ajustarem desentendimentos surgidos na arena da comunicação interacional que, muitas vezes, comprometem a negociação do entendimento.

Para se entender o sentido de reparos interacionais buscou-se apoio na noção de “footings” que “representam o alinhamento, a postura, a posição do „eu‟ do participante na relação com o outro, consigo próprio e com o discurso em construção” manifestados lingüístico-discursivamente (GOFFMAN, 2002). O autor destaca a relevância de que os estudos da “relação língua e sociedade passam a ser vistos a partir do

uso da fala em contextos específicos” e, conforme suas colocações, os estudos que envolvem os usos da fala na interação social ainda tem sido negligenciada por muitas pesquisas humano-sociais.

Nesse sentido a fala em interação social acontece em “qualquer ambiente que proporciona possibilidades mútuas de monitoramento”, por sua vez, “qualquer lugar onde indivíduos tenham acesso aos sentidos nus no momento em que dois, ou mais indivíduos, se encontram em presença imediata e, a mesma dure até que eles saiam” (GOFFMAN, 2002). Para Goffman em qualquer cenário de fala os participantes estão introduzindo ou mantendo alinhamentos que (re)organizam o discurso em construção mútua, orientando-o conforme a sua realidade contextual, seus objetivos comunicacionais e interacionais. Assim, entende-se neste trabalho que os FIs ao ocuparem cenários de fala no espaços públicos da sociedade, eles criam, mudam, sustentam, redirecionam os sentidos da conversa interacional manifestos nos alinhamentos e, assim, conduzirem e assegurarem a compreensão dos atos de fala construídos entre os participantes de um evento de fala (GOFFMAN, 2002). O entendimento mútuo funda-se nas estratégias do “saber jogar o jogo dos atos de linguagem”, já admitido pelo filósofo Wittgenstein, para que os alinhamentos projetem o consenso gerado nas interlocuções situadas e conhecidas entre os interactantes numa ação conjunta de fala (MARCUSCHI, 2007).

É com base nessas contribuições teórico-metodológicas que pretende-se entender, o desempenho progressivo da fala interacional vivenciadas pelos FIs ao realizarem suas práticas sócio-comunicacionais antes, durante e depois de participarem das aulas de alfabetização, a partir dos seus depoimentos. Nesse sentido, verifica-se se tais práticas foram resignificadas e também ampliadas de forma contínua nos seus relacionamentos sócio-familiares e intergeracionais.

4.2. FALANTES IDOSOS: INTERFACES DAS VOZES SILENCIADA, FALADA E