As cidades, em especial as capitais, são muito dinâmicas, tanto do ponto de vista da atividade produtiva quanto da ótica demográfica. Com esse dinamismo, determinadas áreas do espaço urbano tornam-se mais valorizadas do que outras. O mercado de trabalho urbano, caracterizado por uma economia moderna e competitiva, impõe restrições à ascensão social, pois nem todos conseguem nele se incluir ou estabelecer-se de forma satisfatória, o que induz uma expressiva parcela populacional a ter subemprego, com rendimento financeiro aquém do exigido para o padrão de vida urbano, padrão este que requer, além de outras coisas, condições satisfatórias de residência. Considerando, ainda, que os núcleos urbanos são formados, em grande parte, de fortes correntes migratórias oriundas de regiões de estagnação econômica, cujos indivíduos chegam a esses
núcleos urbanos sem uma boa condição de residência, o ―onde morar‖ emerge como uma grande questão. Daí, a mobilidade residencial passa a fazer parte das alternativas de melhoria da condição de vida dos cidadãos urbanos, principalmente dos que vieram do meio rural, ou de cidades pequenas, e que têm dificuldade de se estabelecerem no núcleo.
Para discorrer sobre a mobilidade residencial, suas causas e efeitos, faz-se necessário, antes, distinguí-la, pelo menos conceitualmente, da migração propriamente dita. O termo mobilidade residencial se refere à alteração de residência fixa, porém sem, necessariamente, transpor as barreiras municipais do local de origem. Já a migração pressupõe a mudança de residência entre municípios. Assim, mudar de residência de uma região para outra, dentro de um mesmo município, será considerada, no presente trabalho, uma mobilidade residencial para a distinguir da migração. No entanto, quando a mobilidade residencial transpuser os limites geográficos municipais, os termos mobilidade residencial e migração serão equivalentes4. Nos estudos de deslocamentos populacionais intrametropolitanos, essa distinção se faz necessária, haja vista que, às vezes, mudar de residência dentro de um mesmo município tem, do ponto de vista analítico, efeitos tão expressivos quanto mudar para outro município. Assim, mudar de um espaço social de baixo status – região de baixa renda – para um espaço de alto status social – região de alta renda -, ou vice-versa, dentro de um mesmo município, pode ser mais relevante, do ponto de vista analítico ou para efeito de elaboração de políticas públicas, que mudar de residência, entre municípios distintos, para espaços sociais similares.
A mobilidade residencial intrametropolitana se dá, basicamente, em duas fases: a) na primeira fase, os deslocamentos ocorrem do núcleo para as periferias internas; b) na segunda fase, ocorrem os deslocamentos para os municípios do entorno do núcleo. Esses deslocamentos, tanto os da primeira quanto os da segunda fase, ocorrem sob os efeitos da descentralização espacial das atividades produtivas, da pressão do mercado imobiliário pelas terras mais nobres, normalmente localizadas nas áreas mais centrais, e pela ação do Estado, que regulamenta a ocupação e uso do solo urbano e promove a distribuição espacial da população
nos territórios segunda uma lógica de interesse da classe dominante, que é mais organizada politicamente. O preço da terra urbana constitui-se o fator determinante da dinâmica dos deslocamentos residenciais. As teorias clássicas de migração podem ajudar a compreender a mobilidade residencial nas metrópoles, embora essas teorias não a expliquem totalmente.
Da proposição de Ravenstein (in: Moura, org.(1980.)), a componente mais presente na mobilidade residencial intrametropolitana é a seletividade, que, no contexto metropolitano, tem como principais agentes o mercado de trabalho e o mercado imobiliário. Para os indivíduos com pouca influência da seletividade desses dois agentes, ou seja, os dos grupos sociais mais abastados, há uma maior liberdade na decisão de realizar a mobilidade residencial. Assim, eles podem escolher, para suas residências, os espaços urbanos mais valorizados – os providos de infra-estrutura urbana, tais como serviços de saúde, educação, lazer e cultura etc -, deixando para os demais grupos sociais os espaços menos interessantes – os desprovidos de infra-estrutura de saneamento básico, distantes dos centros de produção, de menores impostos urbanos e, em grande parte, de legislação urbanística menos rígida. A mobilidade residencial requer, também, a remoção de obstáculos intervenientes, feito os mencionados por Lee (in: Moura, org.(1980.)). O sistema de transporte constitui-se em um desses obstáculos. Assim, o investimento em grandes vias de acesso, tais como as vias expressas, interligando áreas densamente povoadas – geralmente os núcleos mais antigos – com áreas pouco povoadas – em geral, as periferias - facilitam a expansão urbana nas metrópoles. Os fatores de expulsão, mencionados por Singer (in: Moura, org.(1980)), são típicos da migração no sentido campo-cidade. No entanto, esses fatores também aparecem no contexto urbano-urbano. No caso da mobilidade residencial, a elevação do preço da terra nos núcleos urbanos mais valorizados funciona como fatores de expulsão, em especial dos pobres; já as perdas de amenidades nos espaços urbanizados, tais como, aumento de violência, caos no trânsito e poluição, atuam como fatores de expulsão dos ricos. Os fatores de atração, em geral nas periferias, são a possibilidade de acesso à casa própria, para os pobres, e a possibilidade de moradia com segurança, tranqüilidade e bem-estar social, para os ricos.