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E é um p o uc o p o r c o mp ro misso ig ua l q ue , se o s so nho s tê m p o r funç ã o a sse g ura r a c o ntinuida de do so no , o s o b je to s a sse g ura m a c o ntinuida de da vida .

Je a n Ba ud rilla rd

Ab ro o livro Le via tã . Pa ul Auste r, no s a p re se nta Ma ria Turne r, a rtista c ujo tra b a lho p a uta va -se na c ria ç ã o d e situa ç õ e s d ife re nte s d a s d e finid a s c o mo a rte . Na c o ntra mã o d o simb o lismo d e Le via tã31, e la se

fa z no ta r a tra vé s d e jo g o s simp le s e livre s a p a rtir d e ritua is c o tid ia no s. C o m o e nvo lvime nto d ire to d o o utro , a o a g ir, nã o fa z ma is do q ue

de se nro la r a s ida s e vinda s de um de se jo , q ue e la a p re se nta e re p re se nta se m fim32.

31 O nome vem do monstro bíblico que o filósofo Thomas Hobbes tomou emprestado para

simbolizar o Estado opressor. No livro de Paul Auster, dois escritores lutam por vias distintas contra o silêncio que lhes é imposto, em meio à era Reagan, ao terremoto de Los Angeles, a fatos históricos/políticos, que são utilizados como pano de fundo da História, regida pelo acaso, tendo a estátua da liberdade como pretexto e metáfora.

Instig a d a p e la s histó ria s d a s histó ria s d e Ma ria , q ue a o me smo

te mp o , é a histó ria de c a da um de nó s33, me rg ulhe i numa via g e m

a tra vé s d a p e rso na g e m. Ne ste se ntid o , a e stra té g ia d e Auste r: e ra c ria r e m se u ro ma nc e a p e rso na g e m Ma ria Turne r, fo tó g ra fa , q ue e xe c uta o s p ro je to s/ tra b a lho s d e So p hie C a lle34.

Diz e le , q ue se u tra b a lho e ra e xtra va g a nte de ma is, idio ssinc rá tic o

de ma is, p e sso a l de ma is35 p a ra se r visto c o mo p e rte nc e nte a q ua lq ue r

ve íc ulo o u d isc ip lina s p a rtic ula re s. Ela e ra p o ssuíd a p o r sua s id é ia s, d e d ic a va -se a o s se us p ro je to s (se m o d e se jo d e fa ze r a rte ), ma s c o m a ne c e ssid a d e d e e ntre g a r-se à s sua s o b se ssõ e s, vive r sua vid a e xa ta me nte c o mo q ue ria . A vid a lhe a p re se nta va ma p a s q ue d e ve ria p e rc o rre r, a liá s, vive r se mp re vinha e m p rime iro lug a r. C a lle o u Ma ria Turne r? De q ue m fa la Pa ul Auste r?

Q ua nd o Auste r fa la d e Ma ria Turne r, fa la a o me smo te mp o d e So p hie C a lle . Q ua nd o fa la d e So p hie C a lle fa la ta mb é m d e Ma ria Turne r. Se nte -se q ue a ima g e m d e si me smo é uma e xte nsã o d a ima g e m d o o utro . Ne sse e fe ito d e a p re se nta r tra b a lho s c o mo re a lid a d e a tra vé s d e fa lsa s a p a rê nc ia s, e m q ue só se q ue stio na a e xistê nc ia a tra vé s d o jo g o d o se ntid o d e re a lid a d e , so b fo rma d e simula ç ã o , se d á no

a p a re c ime nto do dup lo q ue c ria e sse e fe ito de se duç ã o , de c a p ta ç ã o

33 AUSTER, 2001, p. 72.

34 A obra desta artista francesa foi a mim apresentada por Giovanna Martins, a partir do

território dos afetos; quando de conversas em atelier em que se falou sobre memória e relações de afeto que ela aborda em sua produção artística, e que está desenvolvida na dissertação de Mestrado em Artes Visuais: 3 Personagens no território dos afetos. Belo Horizonte. UFMG. 2006.

c a ra c te rístic o do tro mp e -l’ o e il36. C o mo p o ntua d o p o r Ba ud rilla rd , a

re a lida de nã o é c a p tá ve l se nã o q ua ndo no ssa ide ntida de ne la se p e rde , o u q ua ndo e la re ssurg e c o mo no ssa p ró p ria mo rte a luc ina da37.



C a lle tra nsita livre me nte e ntre fo to g ra fia s, te xto s, ima g e ns, o b je to s. Em se u p e rc urso , vá rio s p ro je to s c ria d o s p e la a rtista e ra m a p e na s e e xc lusiva me nte se us, e nã o se c o nc e b ia m p e rte nc e nte s a o unive rso d a a rte , ta mp o uc o e ra m a p re se nta d o s a a lg ué m.

Era m jo g o s. Jo g o s d e sp re te nsio so s, se m q ua lq ue r inte nç ã o a rtístic a ne m d e re g istro c o mo ta l. Pe nso q ue o p ra ze r d e C a lle re sid ia na p ro p o siç ã o e a c e ita ç ã o d o s e nvo lvid o s à s re g ra s d e sse s jo g o s.

A a rtista to ma c o nsc iê nc ia , d e q ue ta is p ro p o sta s p o d e ria m se r mo vime nta ç õ e s q ue e stive sse m inse rid a s no c o nte xto d a a rte , q ua nd o a le rta d a p e lo c rític o d e a rte e e sc rito r, Be rna rd La ma rc he -Va ld e l, a o c o nhe c e r se u p ro je to e m e xe c uç ã o Le s Do rme urs. Inc e ntiva d a p o r e le , p a rtic ip a d o Sa lã o d e Jo ve ns, e xp o siç ã o re a liza d a no Muse u d e Arte Mo d e rna d a C id a d e d e Pa ris, e m 1979. Aí e ntã o , C a lle -C a lle , p e rmite d a r va zã o a C a lle -Artista o u vic e -ve rsa .

36 BAUDRILLARD, 1997, p. 16. 37 Ibdem, 1997, p.17.

C a lle , c o nsid e ra d a c o m fre q üê nc ia c o mo uma “ inve nto ra de

histó ria s38” , c o nstró i na rra tiva s e sc rita s, q ue sup le me nta m a s ima g e ns d e

uma sé rie d e a c o nte c ime nto s, re a is o u ima g iná rio s. Ela , c a ute lo sa me nte , o s e strutura , a p a rtir d e tra ma s e la b o ra d a s, na s q ua is suje ito , c o isa , p e rso na g e m, a uto ra , a rtista , d ivid e m o me smo e sp a ç o , o me smo te mp o . Se us jo g o s e stra té g ic o s p re nd e m o e sp e c ta d o r numa te ia d e se ntid o s, a tra vé s d e p ista s q ue c o nd uze m uma le itura d a q ue le s, c o mo me io s ne c e ssá rio s p a ra c o nfe rir ta lve z ve ra c id a d e a o s fa to s p o r e la na rra d o s.

As mo vime nta ç õ e s d e C a lle sã o ve rd a d e ira s? Nã o se sa b e . Sa b e - se q ue , a o e stilo d o s ro ma nc e s p o lic ia is, inc lui o e sp e c ta d o r na situa ç ã o d e um p a rtic ip a nte le a l, à p ro c ura d a s d ivisa s e ntre o q ue p e rte nc e a o mund o re a l o u o q ue p e rte nc e à ima g ina ç ã o .

So p hie C a lle , p e rso na e p e rso na g e m, é o e ixo e m to rno d o q ua l o s tra b a lho s vã o se nd o te c id o s, c o m a a jud a d e o b je to s se us e d o s o utro s, a d q uirid o s e o u d o a d o s, fo to g ra fia s d e sua a uto ria o u nã o . Se us c e ná rio s sã o se mp re c la rõ e s d e uma me mó ria , na q ua l se sup õ e a p re se nç a d a a uto ra .

Ne sse s jo g o s e stra té g ic o s, a re d e se fa z e nã o se sa b e , o u p o uc o imp o rta , q ue m p e rte nc e o tra b a lho . Ma s o se c re to e ma ra nha d o q ue se p ro d uz e m vo lta d e sua id e ntid a d e , fa sc ina , fa z um c o nvite a e nvo lve r-se no jo g o e c o nd uz a julg a r a p o ssib ilid a d e d e p a rtic ip a r d e sua s fa la s se c re ta s.

38 Expressão usada por Hervé Guibert in Panégyrique d’une faiseuse d’histoire. Catálogo da

As sua s e stra té g ia s func io na m c o mo um e te rno d e svio d e á to mo s, á to mo s q ue uma ve z d e svia d o s d e sua s ro ta s, c o mo b e m p o ntua d o p o r Bo urria ud : p ro vo c a m um e nc o ntro c o m o á to mo vizinho e , de e nc o ntro

e m e nc o ntro , um ric o c he te , e e ntã o , o na sc ime nto de um mundo39. O

mund o p o ssíve l d e C a lle , q ue se a b re a no va s p o ssib ilid a d e s d e e nc o ntro s (a g lutina ç ã o ) d e e le me nto s q ue se ma ntinha m se p a ra d o s: c o mo e xe mp lo , a a usê nc ia e a p re se nç a ma nife sta d a c o mo ritua is.

O sig no d o d up lo é p re se nç a viva no s tra b a lho s d a a rtista , q ua nd o , a o to ma r-se p e la p e rso na g e m p o r e la c ria d a , e sta b e le c e um e sp a ç o se mp re a e sp e c ific a r, nã o a firma na d a , nã o fe c ha na d a . Há e m sua s a ç õ e s uma p o ssíve l e sc ritura , um tra b a lho d e re inve nç ã o d o mund o . C o m isso , sua s o b ra s a b re m o s se ntid o s d a a rte c o mo c o nd iç õ e s d o q ue p o d e a c o nte c e r, d a s mo vime nta ç õ e s p o ssíve is d e sse e sp a ç o e xp a nd id o , c o mo c a minho s a se d e se nha r.

A a rtista é a tra íd a , a g ita d a , nã o d ire ta me nte p e la o b ra , e sim p e la sua b usc a , o mo vime nto q ue a e la c o nduz40, o p rinc íp io e fe tivo d e

uma tra je tó ria q ue se fa z p o r me io d e sig no s, g e sto s, o b je to s. Se u tra b a lho e ste nd e -se na inve nç ã o d e sua re la ç ã o c o m e e ntre c o isa s e p e sso a s, e m me io a um fe ixe de re la ç õ e s c o m o mundo q ue g e ra ria

o utra s re la ç õ e s, e a ssim p o r dia nte , infinita me nte41.

Tra ta -se d e uma a rte q ue b usc a o re c o nhe c ime nto d e si, d o o utro e d o e sp e c ta d o r. Sua s fo rma ç õ e s ma nife sta m-se no s e sp a ç o s p o r e la

39 MARTINS, Giovanna. Estética Relacional. Separata traduzida pela autora a partir da obra de

Nicolas Bourriaud: Esthétique relationnelle. MIMEO, 2001.

40 BLANCHOT, 1994, p. 209. 41 MARTINS, Op. Cit.

c ria d o s, e sp a ç o s d a s insig nific â nc ia s, fre sta s a b e rta s e ntre a s re la ç õ e s huma na s, p o ssib ilita nd o o utra s tro c a s, q ue nã o a q ue la s vig e nte s no siste ma . Te nd o c o mo p o nto d e p a rtid a um c o tid ia no , q ue já nã o há te mp o p a ra o e nc o ntro .

Num p o ssíve l jo g o d e me mó ria , a o b ra de q ue nunc a [se ] é se nho r,

de q ue nunc a [se ] e stá se g uro , q ue nã o q ue r re sp o nde r a na da se nã o a si p ró p ria e q ue só to rna a a rte p re se nte no p o nto e m q ue a a rte se dissimula e de sa p a re c e42, C a lle no s c o nd uz a e sp a ç o s e fe tiva me nte

e mo c io na is, c a p a ze s d e d e sa fia r o e sq ue c ime nto no mund o c irc und a nte , mo stra nd o -no s q ue a re a lid a d e na d a ma is é q ue um mund o e nc e na d o .