Neste ponto, faz-se necessário justificar, já que estamos adotando pressupostos Minimalistas, o que torna possível (e, portanto, obrigatório) o movimento do DP que resulta nos diferentes posicionamentos do quantificador “todos” em uma sentença. Não incluiremos neste ponto os exemplos com movimento do DP interno à projeção nominal, por estes já terem sido abordados no capítulo 3, mas aqueles que apresentam o movimento no nível oracional. As possibilidades, dividindo-as em quatro grupos, de acordo com os tipos de construções que nos propusemos analisar, são as seguintes:
(71) Inacusativas
a. Todos os mágicos desapareceram. b. Os mágicos desapareceram todos. c. Desapareceram todos os mágicos. (72) Passivas
a. Todos os votos foram contados. b. Os votos foram todos contados. c. Os votos foram contados todos. d. Foram contados todos os votos. (73) Transitivas
a. Todos os alunos leram a revista. b. Os alunos leram todos a revista. c. Leram a revista todos os alunos. (74) Inergativas
a. Todas as meninas telefonaram. b. As meninas telefonaram todas. c. Telefonaram todas as meninas.
De acordo com pressupostos minimalistas, cada um desses movimentos tem uma justificativa, e resulta em interpretações diferentes. Sugerimos que essas diferenças de interpretação dizem respeito ao foco da sentença, não havendo outras diferenças significativas no significado da sentença. Afirmamos, portanto, que os movimentos vão ocorrendo até que o elemento a ser focalizado se encontre na posição mais à direita da
sentença.126 Assim, em um exemplo como (71a), o foco é a ação de desaparecer; em (71b), fato de 100% dos mágicos terem desaparecido; em (71c), o fato de “os mágicos” terem desaparecido, e não “os trapezistas”, por exemplo. Arriscamos dizer que, em (71c), “todos” também pode ser focalizado, e isso teria a ver com a nossa hipótese de, nessa posição, “todos” + DP formarem um só constituinte.
Dividiremos os objetos de nossa exposição em dois grupos: (i) o grupo das construções nas quais o DP é capaz de se mover três vezes na estrutura, a saber, as construções passivas e inacusativas, e (ii) o grupo das construções nas quais o DP é capaz de se mover duas vezes na estrutura, a saber, as construções transitivas e inergativas. Por motivos de exposição, vamos utilizar as construções com o quantificador encalhado na posição pós-verbo-lexical.
Passemos à análise do primeiro grupo. Recordando, abaixo, as derivações propostas anteriormente para as sentenças inacusativas e passivas, notamos que o DP quantificado pode, ao todo, sofrer três movimentos:
(75) a. Sentença inacusativa AgrSP
3 DP AgrS’ 1 3 [os mágicos]i AgrS TP
3 DP T’ 4 3 tj T AgrOP | 2 desapareceramk DP AgrO’ 4 2 [todos tj]i AgrO VP | | tk V’ 2 V DP | 4 tk ti 126
De acordo com comentário feito por Acrisio Pires (c.p.), uma proposta bem específica nesse sentido foi feita por Cinque (1993), que postulou uma regra de foco nuclear começando à direita da sentença, e dependente da estrutura oracional.
(76) Sentença passiva
AgrSP 3 DP AgrS’ 4 2 [Os votos]i AgrS TP
2 DP T’ 4 2 ti T AgrOP | 2 foram DP AgrO’ 4 2 ti AgrO VP | | contadosj V’ 2 V DP | 4 tj [todos ti]
Notamos, em ambos os tipos de construção, que o DP é gerado em posição de complemento verbal, no âmbito-θ, sofrendo um primeiro movimento para [Spec, AgrOP]. Vimos que esse movimento intermediário se justifica pelo fato de os sujeitos das passivas e inacusativas apresentarem algumas características semelhantes às dos objetos em geral. Em seguida, o DP se move para [Spec, TP], mas não permanece nessa posição, reservada aos pronomes resumitivos em geral. Por fim, sofre mais um deslocamento que, tanto pode ser para [Spec, AgrSP], como está ilustrado, como para uma posição adjungida a essa projeção, se se pressupõe a análise de Costa & Galves (2002).127 Como havíamos dito anteriormente, não tomaremos partido em relação à questão da posição exata do sujeito no PB. A questão que se coloca, então, é: o que, no sistema computacional, justifica esses movimentos todos, e o que torna o DP ativo para o movimento?
Em termos minimalistas, um traço não-interpretável em um núcleo atua como sonda em busca de um outro traço, por sua vez interpretável – um gol – em posição de complemento da sonda. Conforme resumo apresentado no capítulo 1, segundo os avanços mais recentes da teoria, Agree pode estabelecer-se, sem que para isso seja necessário o movimento. Nesse novo modelo, é somente um traço-EPP, não- interpretável, na sonda, que é capaz de provocar um movimento e determinar a projeção
de uma posição de especificador para abrigar o elemento movido. Em relação ao caso específico das inacusativas e passivas ilustradas em (75) e (76), diremos, então, que todas as sondas dos núcleos (a saber, AgrO, T e AgrS) para cujos especificadores o DP se move possuem tal traço não-interpretável, forçando o movimento do DP. E o que torna o DP ativo para o movimento é o traço de Caso estrutural, portanto, não- interpretável, portado por esse elemento. Segundo o modelo de Chomsky (1995 em diante), entretanto, uma vez que o sistema computacional tenha se livrado dos traços não-interpretáveis indesejáveis, não é possível acioná-los novamente. Como justificar, então, o movimento cíclico do DP nos exemplos em questão? Em primeiro lugar, é plausível dizer que o DP em questão tem dois tipos de traços não-interpretáveis a serem checados/valorados, já que seu destino final lhe garante o status de sujeito, mas, que, ao mesmo tempo, apresenta características de objeto. Por considerarmos arriscado dizer que o DP tem dois tipos diferentes de traço de Caso estrutural a serem checados/valorados, diremos que o primeiro movimento ocorre a fim de seja checado/valorado algum tipo de traço não-interpretável que reconhece e estabelece, nesse DP, uma semelhança com objetos em geral. O objetivo do segundo movimento, este sim, dar-se-ia pela necessidade de se checar/valorar o traço não-interpretável de Caso do DP, nominativo. O que dizer do terceiro movimento? O que permite que o DP continue se movendo, se, como foi dito anteriormente, de acordo com Chomsky (1995 em diante), uma vez que o sistema computacional tenha se livrado dos traços não- interpretáveis indesejáveis, não é possível acioná-los novamente? Aqui se encaixa a idéia em Pesetsky & Torrego (2004) de haver a possibilidade de certos traços continuarem ativos, isto é, acessíveis a processos subseqüentes, ao longo de uma derivação. No modelo proposto pelos autores, cria-se uma nova instância de traço valorado, que pode servir de gol para uma posterior operação de Agree, acionada por uma instância não-valorada, em posição mais alta, atuando como uma nova sonda. Em outras palavras, mesmo já valorado, o traço de Caso estrutural em [Spec, TP], pode continuar ativo para entrar em uma relação de Agree com o núcleo posteriormente projetado, AgrS. O movimento propriamente dito se dá em função de a nova sonda possuir um traço-EPP, não-interpretável, que projeta [Spec, AgrSP] e requer o movimento do elemento em [Spec, TP] para aquela posição.
127
Se, por outro lado, tomarmos ao pé da letra a hipótese de Costa & Galves para o PB (e de outros autores, como Figueiredo Silva (1996), por exemplo), segundo a qual o sujeito dessa língua é adjungido, após sofrer movimento, então não teríamos que justificar esse último movimento para [Spec, AgrSP].
Passemos à análise do segundo grupo em questão, a saber, o das construções transitivas e inergativas, nas quais o DP sofre dois movimentos. O que difere esse grupo do primeiro é o fato de os sujeitos das transitivas e inergativas nada terem em comum com objetos. No caso mais específico das inergativas, AgrO nem é mesmo projetado, devido à ausência, nessas construções, de argumentos internos para o verbo. No caso mais específico das transitivas, por outro lado, AgrO é projetado e serve de local de pouso para o verbo, que ainda se move até T, mas, de acordo com a nossa hipótese de que o objeto direto não se move (pelo menos não abertamente) no PB, a posição de [Spec, AgrOP] nem mesmo é projetada, ou, ainda, na melhor das hipóteses, se for projetada, apenas recebe a visita do objeto em LF.128 Retomemos as representações para as construções em análise: (77) AgrSP 3 DP AgrS’ 4 3 Elesi AgrS TP 2 DP T’ 4 2 ti T AgrOP | | leramj AgrO’ 2 AgrO VP | 3 tj DP V’ 4 2 [todos ti] V DP | 4 tj a revista 128
A escolha por uma ou outra opção vai depender do modelo que se está pressupondo: (i) o de que há movimentos encobertos, em LF, pós-Spell-Out, ou (ii) o de que todo e qualquer movimento somente ocorre na sintaxe aberta, antes de Spell-Out, como proposto, por exemplo, em Kayne (1998).
(78) AgrSP 3 DP AgrS’