No primeiro semestre do curso de História, comecei a me interessar pela história de minha cidade. De “minha aldeia”. Como não encontrara, em meus primeiros esforços, obras que suprissem minha curiosidade resolvi, como mais nova profissional da área, desenvolver meu próprio estudo histórico. Pensei que uma cidade como Canindé necessitava de uma “HISTÓRIA”, uma obra que aparecesse, já que, procurando, nada encontrei sobre o assunto. Logo descobri, dentre outras coisas, que não havia procurado bem e que uma “HISTÓRIA”, como pensava no momento, completa, “Total”, era impossível.
A impressão era a de que quanto mais se aprendia, mais complicado ficava. No decorrer do curso, às voltas com vários modelos ou abordagens históricas e outros temas, esqueci por um tempo o “projeto Canindé”. No entanto, parecia que o tema me acompanhava, como uma sina. Quis arriscar outras temáticas, mas Canindé, São Francisco e os romeiros me perseguiam. Então concluí que a forma de me libertar do problema era mergulhar de cabeça nele. Renovei os ânimos, as leituras, busquei novas fontes e elaborei a proposta de pesquisa que culminou nesta dissertação, idealizada e escrita com certas dificuldades, e que encerro com satisfação.
A busca pelas experiências religiosas dos romeiros, seu relacionamento e formas de comunicação com o sagrado, objetivo inicialmente proposto e considerado até aqui, levou-me a discutir importantes aspectos e a explicitar contradições, práticas e atribuições inusitadas, desconhecidas e inimaginadas sobre os devotos, suas formas de crer e agir diante de São Francisco. Sinto-me feliz neste sentido, uma vez que partilho do direcionamento teórico segundo o qual o historiador deve focalizar uma “invenção contínua do cotidiano”, evidenciando as contradições do “vivo”377
377 Evidenciar as contradições do vivo, (ser, que é histórico) em oposição à tendência de o
com suas reelaborações, reinvenções e desvios. Desta forma o que encontrei e procurei ressaltar foram homens e mulheres, pessoas de todas as idades, a maioria pobre, vivendo suas vidas e buscando modificá-las com o auxílio de forças sagradas. O que vêm fazendo através de uma comunicação que se torna eficaz por sua materialização na escrita de cartas, produção de fotografias e outros objetos.
Gostaria de destacar que julguei necessário traçar considerações sobre a constituição do espaço sagrado, no primeiro momento, não para buscar “as origens” ou configurar um pretenso “contexto” em que a crença se desenvolve, mas para discutir o que outras obras sobre Canindé não discutiam: “os mitos”, os “primeiros milagres” ou outros muito difundidos. Estes são apresentados, na maior parte dos trabalhos, como “a origem” do santuário. Simplesmente narrados, sem nenhuma problematização. Procurei relacioná-los com outros aspectos formadores para não iniciar mais uma vez como nos trabalhos citados, afirmando a origem sagrada do santuário. E sim pensando a sacralização como processo, para tentar perceber o espaço e a crença como construções humanas e históricas, de memórias, escolhas, narrativas e vivências.
Outro aspecto que gostaria de destacar é que os romeiros de Canindé, em comparação com o estudo de Régis Ramos sobre os devotos de Juazeiro do Norte, compartilham da mesma construção e resignificação contínua de sua fé e confiança nos poderes do santo. E buscam, a partir de suas “experiências sociais historicamente situadas”, “sentir-se parte de um universo coerente, justo e previsível.”378 Entretanto, acrescento que para os devotos aqui estudados, este “universo coerente, justo e previsível” não é o mesmo para cada devoto, assumindo várias faces de uma lógica do “eu”, onde cada um pede exatamente o que lhe convém e para fazer justiça a si mesmo é necessário desmerecer o outro. Pois, o santo deve ajudar na luta por um melhor porvir, em que muitas vezes há que se vencer o outro (tomar sua vaga no vestibular ou num concurso público, ganhar no jogo do bicho em detrimento de outros que também
vista. Diálogo proposto por Certeau. CERTEAU, Michel de. A Cultura no Plural. Campinas- SP: Papirus, 1995.
378 RAMOS, Francisco Régis Lopes. O Verbo Encantado: a construção do Pe. Cícero no
apostaram e perderam, merecer o amor de alguém por quem outro(a) sofre, etc.).
Estes devotos não seguem formas pré-estabelecidas para se dirigir ao(s) santo(s) ou para selecionar o que se deve pedir. Apesar de participarem das formas de culto direcionadas e bem administradas pela Igreja, o fazem de acordo com as suas necessidades e a aliança que estabeleceram com seu protetor. Não aceitando suas agruras cotidianas recorrem cheios de fé e “razão”. Julgam ter merecimentos, e se não o têm, prometem fazer por merecê- los. Dialogam, argumentam, com cuidados e artimanhas, sendo mais dóceis e submissos num ponto, ou mais incisivos em outro, vão se relacionando à sua maneira com o santo.
Quanto ao destinatário das cartas e fotografias, é geralmente São Francisco das Chagas, “o pobrezinho de Assis” em Canindé. Santo dos pobres, amante da natureza, santo da boa morte, merecedor das santas chagas de Cristo. Entretanto, desde cedo (1936) já há registros, inclusive oficiais (jornal da paróquia: “O Santuário”)379, de promessas e agradecimentos a outros santos em Canindé. Espaço de entrecruzamento entre este mundo e um outro gênero de existência, Canindé vem sendo vivenciado pelos romeiros como um canal entre este mundo e um outro, que permite a comunicação não apenas com São Francisco, mas com outros santos e até almas benfeitoras.
Os pedidos brotam do cotidiano dos devotos. Composto de labutas, conflitos, angustias, afetos, desejos e sonhos de consumo. Revela-se, então, uma fé encarnada, onde o sagrado deve estar à disposição, não apenas para resolução de problemas e necessidades básicas, a que “um operário tem direito”380, mas para prover qualquer desejo, necessidades “supérfluas” e até excentricidades. E para uns devotos em detrimento de outros. São pedidos que não se enquadram nas concepções oficiais de culto, ou na idealização de uma pretensa religiosidade típica.
Diante destas questões, ao final desta difícil trajetória — da dissertação, não da pesquisa — percebo que muitos aspectos poderiam ter sido mais bem trabalhados e algumas questões ficaram ainda por ser
379 Jornal O Santuário de São Francisco – Órgão oficial da Basílica de Canindé –
Quinzenário. (1915-1968).
exploradas. Não tento aqui justificar as limitações deste trabalho, que são muitas, mas justamente apontá-las como possíveis caminhos a serem desbravados por mim ou por outros pesquisadores em trabalhos futuros.
O que aqui vos ofereci foi um caleidoscópio de formas de crer e agir, expressado por essa impressionante produção dos devotos.
Fico em falta com uma análise ou uma elaboração mais trabalhada desta produção. Para uma interpretação mais delineada sobre essa prática de materializar a aliança, principalmente no que tange à produção em si da escrita e das imagens votivas dos romeiros.
Outra preocupação que permeou a feitura deste texto foi a escolha de como apresentar a complexa variedade de pedidos. Neste sentido caberia a verticalização de muitas questões. Porém, entendo que isso não poderia acontecer antes da explicitação deste mar de contradições, para vislumbrarmos suas profundidades, e como dizer, “comermos com os olhos esse prato cheio” de temáticas a serem problematizadas, historiadas. Optei por trazer à tona a abundância de questões como se apresentavam a mim, digo ao santo, demorando-me aqui, apenas tocando ali, para confrontar as contradições do “vivo”, e deixar vivas as ousadias, liberdades e inventividades dos romeiros em vivenciar o sagrado a partir de suas experiências sociais.
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Músicas
A Morte do Vaqueiro - Luiz Gonzaga/Nelson Barbalho Noves Fora – Raimundo Fagner/Antônio Carlos Belchior. Liforme – Luiz Gonzaga/Raimundo Granjeiro.
Cartas
Publicadas no Jornal O Santuário de São Francisco – Órgão Oficial da Basílica de Canindé – Quinzenário. Cartas a São Francisco (1958 a 1968).
Cartas, bilhetes (e versos de fotografias) escritos pelos devotos. Coletadas na Casa dos Milagres na paróquia de Canindé entre 1996- 2004.
Total que compõe acervo pessoal em processo de catalogação: 748 cartas.
Citadas no texto: 110
Retratos Votivos
Fotografias ex-votos coletadas na Casa dos Milagres de Canindé entre 1996-2004. Com datação entre 1980 a 2004. Total do acervo: 1.430
Reproduzidas no texto: 37 Outros Objetos
Os barcos de São Francisco – pequenos barcos enviados à Canindé por via fluvial.
1ª Cruz levada nas costas para Canindé pelo devoto Zé Paulino, em 1972, de Cabedeiro Paraíba.
Cruz de 40 kilos levada nas costas para Canindé pelo devoto Zé Paulino, em 1982, vindo de Castello – Piauí.
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