A palavra linguística “começou a ser utilizada em meados do século XIX para enfatizar a diferença entre uma abordagem mais inovadora do estudo da língua, que
estava se desenvolvendo na época”, afirma Weedwood (2002, p.9). Além disso, a
Linguística é a área do estudo científico que estuda a língua(gem), tornando-se abrangente por “incluir todos os tipos de exame dos fenômenos da linguagem,
inclusive os estudos gramaticais tradicionais e a filologia”, diz Weedwood (2002,
p.10).
Diante disso, destaca-se a diferença entre o filólogo e o linguista. O primeiro, por um lado, se preocupa, especificamente, com o crescimento histórico das línguas,
pelas manifestações feitas por meio de textos escritos. O linguista, por outro lado, mesmo que venha a se interessar por textos escritos e pelo desenvolvimento da língua por meio do tempo, dá prioridade às línguas faladas (oralidade) e estuda seus problemas em um determinado período de tempo.
É de suma importância salientar que poucas sociedades se preocuparam com a investigação linguística, embora, as culturas chinesa, mesopotâmica e árabe tenham se preocupado com a gramática, todavia seus estudos estiveram muito aprofundados nos seus próprios idiomas, de tal modo que a Europa os desconheceu durante muito tempo. Destaca-se que os interesses linguísticos dos chineses elevam-se há mais de 2.000 anos, ressaltando a fonética, a ortografia e a lexicografia, particularmente, ligados ao estudo da lógica. Nesse sentido, é que a tradição gramatical não ocidental da Índia torna-se mais original, independente e relevante, considerada a mais remonta aproximadamente 2.500 anos, baseada na gramática de Panini, século V a.C, que estudava o sânscrito, língua sagrada da Índia.
Nessa perspectiva, foram três as formas principais de impacto da língua sânscrita à ciência linguística moderna: a primeira deu-se pela eclosão incontida da gramática comparativa indo-europeia, lançando as bases a todo edifício da filologia comparativa e da linguística histórica do século XIX. A segunda, porque a doutrina gramatical da Índia não desempenhou papel algum influente, diz Weedwood (2000,
p.14), pois “[...] os estudiosos do século XIX, porém, reconheceram que a tradição
fonética da Índia antiga era amplamente superior ao conhecimento ocidental neste campo”. Em virtude isso, tiveram, no Ocidente, decorrências relevantes ao desenvolvimento da ciência fonética, e, por último, existe uma descrição da gramática sânscrita nas regras (sutras) de Panini.
De acordo com Kristeva (1969, p.271), o fim do século XVIII foi marcante pela mudança ocorrida na ideologia, tal como na filosofia e nas ciências que serão desenvolvidas no século XIX, de maneira que, “à descrição dos mecanismos (incluindo o da língua) e à sistematização dos tipos (incluindo os das diversas
línguas), sucede-se a concepção evolucionista, histórica”. Assim, o historicismo será
a questão essencial do século XIX.
Para entendermos melhor a predominância evolucionista (histórica) na linguística do século XIX, convém citar Schleicher (botânico e grande admirador de
Darwin), que publicou, em 1863, a obra “Die darwinische Theorie und die Sprachwissenschaft e, em 1865, Ueber die Bedeutung der Sprache für die Natürgeschichte des Menschen”. O admirador das ideias de darwinistas destacou- se, na história da linguística, pelo seu trabalho ao estudar a evolução das línguas. Em relação a isso, explica Kristeva (1969, p.291) que Scheleicher:
Propõe uma forma hipotética de uma língua indo-europeia que estaria na origem de todas as outras. As línguas procederiam assim uma das outras segundo uma árvore genealógica; teoria sedutora, que foi geralmente admitida, antes de ser refutada e substituída pela de Johann Schmidt que propôs um outro esquema , o esquema dito das «ondas linguísticas». É neste último esquema que se vai basear na dialectologia indo-europeia. (KRISTEVA, 1969, p.291).
No entanto, Schleicher acreditava de fato que existia a língua indo-europeia primitiva. Para chegar a essa conclusão, o autor baseou-se nas ideias evolucionistas de Darwin, demonstrando, assim, que a evolução da linguagem apresentava dois estágios: 1. ascedente (pré-histórico), que conduz às línguas flexionais, e o 2. descendente (decadente ou histórico), caracterizado pela desagregação do sistema flexional. Diante dessas informações, para Schleicher, o sânscrito já não é a primeira língua, como pensado no início da época comparatista. Este pensamento linguístico de Schleicher que tratava a língua como organismo fez dele um dos pioneiros da linguística geral que se sucedeu à linguística histórica. O linguista alemão queria chamar esta disciplina de Glottik, com o intuito de fundar as leis análogas em leis biológicas. No entanto, acrescenta Kristeva (1969, p.293) que:
[...] este positivismo, transposto mecanicamente das ciências naturais para a ciência da significação, só podia ser idealista, pois não tinha em conta a especificidade do objecto estudado: a língua como sistema de significação e como produto social. Aliás encontrou imediatamente o seu complemento, aparentemente oposto mas profundamente necessário, o seu correlato ideológico para o domínio do estudo da sociedade, no hegelianismo que se apresenta como consciência histórica da expansão do modo de produção burguês. (KRISTEVA, 1969, p.293).
Diante disso, o final do século XIX teve forte predominância do pensamento positivista por meio do Cours de philosophie positive (1830-1842), de Auguste Comte (1789-1857). Nesse período, o desenvolvimento da ciência não contribuiu com as investigações linguísticas apenas (distanciando-se da gramática filosófica geral), mas também com o surgimento de uma linguística, verdadeiramente,
autônoma, baseada na gramática e na filologia. Enfatiza-se, de acordo com Kristeva
(1969, p.295), que “o momento marcante desta mutação do historicismo para
positivismo foi, como o assinalou Meillet, o trabalho dos neogramáticos Brugmann (1849-1919) e Osthoff (1847-1907)”.
No que se refere à Linguística Histórica, afirmam Mussalim; Bentes (2011,
p.77), que esta “estuda os processos de mudança das Línguas no tempo”. Nesse
sentido, “os estudos históricos, principalmente os desenvolvidos a partir do século XIX com o latim, o grego e o sânscrito, são tão importantes em linguística, que a
própria disciplina, a Linguística, afirmou-se como ciência a partir deles”.
Convém mencionar que a Linguística começou a ser considerada uma disciplina diferente dos estudos de linguagem dominantes do século XIX na
perspectiva pós-saussuriana – a filologia comparativa e a histórica –, diz Weedwood
(2002, p.18). Dessa maneira, a Linguística estuda a linguagem em todos os seus aspectos, sendo assim, a história da linguística deve fazer abordagens passadas do estudo da linguagem, em quaisquer métodos usados e resultados adquiridos. Vale
lembrar o surgimento de uma nova disciplina – a epistemologia histórica – que
estuda as diferentes maneiras de pensamento que distinguem diferentes povos e épocas. Essa disciplina tem contribuído bastante para a história da Linguística, uma vez que historiadores têm dado, cada vez mais, importância ao estudo do passado.
A Linguística iluminava os grandes estudiosos do século XIX, em especial, Franz Bopp, irmãos Grimm e Max Müller. Desse modo, começou a ser entendida como ciência, pois seus fatos poderiam ser descritos, analisados e comprovados. Desde então, foi inquestionável seu imenso crescimento, aprimorada na estrutura de Saussure, acrescentam Fávero; Molina (2006, p. 17) que o “elemento facilitador desse rápido caminhar repousa num constante jogo de oposições: é no momento de
crise, de contradição, de clivagem, que se fazem as mudanças”. Por isso, “o
comparativismo surgiu em oposição às teorias especulativas; o estruturalismo, ao comparativismo; a gerativo-transformacional, ao estruturalismo; e contra os estudos circunscritos no limite da frase vieram as teorias do texto”.
É necessário destacar que a Linguística e a História têm caminhos paralelos,
porém Fávero; Molina (2006, p.18) esclarecem o fato “de a História sempre ter se
valido da linguagem para registrar suas mudanças e desenvolvimentos”, todavia
História”. Dessa maneira, com o surgimento dos estudos histórico-comparativos, em pleno século XIX, a Linguística começou a ser compreendida como ciência. Com base nisso, de um modo geral, considera-se o método comparativo um efeito de suma importância, afirma Weedwood (2002, p.103) que:
[...] resultou num conjunto de princípios pelos quais as línguas poderiam ser sistematicamente comparadas no tocante a seus sistemas fonéticos, estrutura gramatical e vocabulário, de modo a demonstrar que eram “genealogicamente” aparentadas. (WEEDWOOD, 2002, p. 103).
Nessa perspectiva, genealogicamente, o italiano, o francês, o português se originaram do latim, de tal forma o latim, o sânscrito, o grego e as outras línguas
célticas, eslavas e várias outras da Ásia e da Europa – conhecidas como indo-
europeu ou protoindo-europeu – se originaram de alguma língua mais antiga ainda.
Consequentemente, a genealogia linguística indo-européia foi apresentada, pela primeira vez, pelos filólogos comparativistas no século XIX.
Com base nisso, de acordo com Mussalim; Bentes (2011, p.80), é ressaltada a relevância dos “estudos comparativos com as línguas indo-européias, nos séculos XVIII e XIX”. Em vista disso, contribuíram de forma fundamental “para o nascimento e progresso da lingüística Histórica e para o próprio estabelecimento da Lingüística como ciência”.
Segundo Weewood (2002, pp. 107-108), faz-se necessário mencionar o erudito e diplomata alemão Wilhelm Von Humboldt (1767-1835), um dos linguísticas que mais marcou todo o século XIX. Ressalta-se que seus interesses linguísticos não eram, especificamente, históricos, baseado no filósofo alemão Johann Gottfried (1744-1803), tornando-se contrário da grande parte de seus contemporâneos.
Diante disso, Von Humboldt deu ênfase aos estudos ligados às línguas
nacionais – característica normal do movimento romântico –. Destacou-se pela
teoria Humboldt da forma externa e interna. A primeira está relacionada aos sons (matéria bruta), em que as diversificadas línguas são moldadas. A segunda é que diferencia uma língua da outra por meio da estrutura de gramática, que era atribuída sobre os sons. Essa abordagem da estrutura da língua prevaleceu, em meados do século XIX, nos estudos linguísticos, e, mais que isso, a diferença da forma interna e externa pode ser percebida em Ferdinand Saussure (1857-1913). Porquanto, essa
concepção só foi entendida no século XX, por meio do linguista americano Noam Chomsky, como noções básicas da gramática gerativa.
No século XIX, houve mudanças na fonética, sintática e semântica, dessas, interessa-nos a sintaxe, em que propiciamos a nossa pesquisa. A língua pode perder uma distinção gramatical em sua forma verbal, apresentando o presente e o passado do modo subjuntivo, explica Weedwood (2002, p. 113):
[...] no português popular do Brasil, o presente do indicativo substituindo o subjuntivo (“você quer que eu faço isso?”), ao passo que em Portugal o futuro do pretérito é muitas vezes expresso pelo imperfeito do indicativo (“eu gostava de morar aqui”, no lugar de gostaria), fenômeno que também acontece no Brasil (“se eu tivesse dinheiro, comprava um carro novo”)”. (WEEDWOOD, 2002, p. 113).
Desse modo o que era apresentado por meio de um elemento gramatical pode ser apresentado por outro. Já nas línguas indo-europeias mais antigas, a função sintática dos nomes e dos sintagmas nominais em uma oração ocorria, particularmente, por meio das terminações de caso, assim como a antiga forma latina: ROSA, ROSAM, ROSAE, ROSIS, ROSARUM...). Essas funções sintáticas são mostradas, na maioria das modernas línguas indo-europeias, por meio da ordem das palavras na frase e pelo uso de preposições (Por exemplo: ROSA vem do latim ROSAE).
Diante do exposto, grande parte das várias modificações sintáticas é imposta na ação da analogia. Sobre a analogia, conceitua Crystal (2008, p.27):
Termo usado em LINGÜÍSTICA HISTÓRICA e COMPARADA e em AQUISIÇÃO da linguagem com referência a um processo de regularização que afeta as formas excepcionais da GRAMÁTICA de uma língua. As formas verbais irregulares do português, por exemplo, são tratadas, nos primeiros ENUNCIADOS infantis, com base nos paradigmas da conjunção verbal regular, como eu fazi, ele cabeu: as crianças produzem tais formas “em analogia com” os padrões regulares. [...] Os processos de “criação analógica” constituem uma das principais tendências da história das línguas, como foi o caso dos VERBOS que tinham passado irregular no inglês antigo e vieram a se tornar regulares modernamente (Ex.: help – helped). (CRYSTAL, 2008, p.27).
Assim, quando Weedwood (2002, pp.113-114) discorre das modificações sintáticas baseadas na ação da analogia, a autora diz que são transformações sintáticas que aconteceram em uma língua, deixando sua estrutura profunda sem nenhuma alteração e destinando-se a mudar os modos (seja, morfologicamente,
pela frase, preposição, verbos auxiliares, dentre outros), sem modificar as próprias funções e distinções.