Materials and Methods
4.6 Future Perspectives
No seu esforço para construir uma sociologia do poder simbólico, Bourdieu levantou temas importantes a cerca das relações entre ação, estrutura social e cultura. São temas
recorrentes na sua obra que se interceptam e interagem entre si de forma dinâmica, guardando, inclusive, uma certa circularidade.
Seja investigando camponeses argelinos, estudantes e professores universitários, escritores e artistas, ou a Igreja, há uma preocupação central nas investigações de Bourdieu em entender como sistemas sociais estratificados de hierarquia e dominação persistem e se reproduzem através das gerações sem uma forte resistência e sem o reconhecimento consciente por parte de seus membros. Bourdieu argumenta que a resposta dessa questão pode ser encontrada explorando como recursos culturais, processos e instituições mantêm indivíduos e grupos na hierarquias de dominação em posições competitivas e que se auto- perpetuam.
Todos os símbolos e práticas culturais, desde gostos artísticos, estilos de vestuário e hábitos de alimentação, até a religião, ciência, filosofia, e mesmo a própria linguagem, incorporam interesses e contribuem para acentuar as distinções sociais (BOURDIEU, 1984). A luta por distinção social, independente da forma simbólica pela qual se expressa, oculta um jogo de relações de poder entre indivíduos, grupos e instituições. De fato, poder não é um domínio de estudo isolado para Bourdieu, mas está no centro de toda a vida social, e o exercício bem sucedido do poder requer legitimidade. Legitimidade, portanto, não é um fim em si mesmo, como argumentam os neo-institucionalistas (DIMAGGIO e POWELL, 1983; MEYER e ROWAN, 1977), mas o meio para assegurar uma posição dominante e evitar resistência ou questionamento. A análise neo-institucional se afasta das suas formulações iniciais (SCOTT, 2001; SELZNICK, 1996) ao enveredar pela dimensão cognitiva, fazendo uso do conceito de esquemas interpretativos para defender-se de críticas de imobilismo social, e ao colocar um foco excessivo nos aspectos simbólicos e nos processos de isomorfismo para explicar a necessidade das organizações de obterem legitimidade para aumentar suas probabilidades de sobrevivência. Adquire, assim, um tom conservador e torna-se mal equipada para explicar novos cenários ou processos de mudança institucional, ocasiões onde se manifestam novas configurações de poder, de interesses, valores e forças (CARVALHO, GOULART, VIEIRA, 2004).
Ao longo de seu trabalho, Bourdieu busca compreender como lugares de socialização cultural (a família e o sistema educacional, principalmente) posicionam indivíduos e grupos de forma competitiva nas hierarquias de status, como campos de conflito relativamente autônomos engajam indivíduos e grupos em disputas por recursos reconhecidamente valiosos, como essas lutas sociais são refratadas por meio de classificações simbólicas, como atores
lutam e perseguem estratégias para alcançar seus objetivos nesses campos, e como, ao fazerem isso, os atores reproduzem inconscientemente a estratificação da ordem social.
Nesse sentido, Bourdieu parece se distanciar do conceito mais amplo de cultura, bastante usual na literatura da administração, que a define como um conjunto de concepções, normas e valores que são tomados como certos, permanecendo submersos à vida organizacional, e que devem ser afirmados e confirmados aos seus membros, seja na forma tangível dos artefatos visíveis, seja na forma intangível das orientações que governam os comportamentos e dos pressupostos inconscientes que influenciam os modos de percepção e de pensamento dos indivíduos (FLEURY, 1996). Fica evidente que a questão do poder e das relações de dominação nas configurações sociais representam uma preocupação secundária nessa perspectiva. Coerente com o seu projeto de elaborar um “estruturalismo genético”, Bourdieu faz uso da noção de habitus para isolar os elementos constitutivos (ou estruturais) da cultura, aqueles que não podem ser facilmente transmitidos ou convertidos e que funcionam como um sistema de disposições cultivadas que operam como um princípio gerador de práticas. Todos os demais elementos presentes na definição usual de cultura são tratados por Bourdieu como uma forma de capital, portanto, sujeitos às regras e aos processos de acumulação, transformação, conversão e troca que definem a estrutura de distribuição de capitais nos campos onde atores disputam posições sociais. Para Bourdieu, portanto, cultura não é despojada de conteúdo político mas, sim, uma de suas expressões mais representativas (BOURDIEU e PASSERON, 1990). O exercício e a reprodução do poder e dos privilégios de classe são temas substantivos e, de certa forma, unificadores na sua obra.
Assumindo uma postura provocativa, traço característico em seus trabalhos, Bourdieu (1991b) argumenta que os sociólogos devem formular em suas pesquisas a pergunta por onde toda sociologia deveria começar: questionar não somente a existência das coletividades propriamente ditas, mas também o modo dessa existência, temas que foram eventualmente descritos por Bourdieu como uma "teoria genética dos grupos" (BOURDIEU, 2004b, p. 94). Por trás desse questionamento, existe o foco no papel que a cultura desempenha nos processos de reprodução social, como grupos perseguem estratégias para produzir e reproduzir as condições de existência de suas coletividades, e como a cultura representa um elemento constitutivo desse processo reprodutivo.
Seguindo essa perspectiva de análise sobre a cultura, Bourdieu desenvolve, assim, uma economia geral das práticas que compreende uma teoria sobre os interesses simbólicos, uma teoria sobre o capital, e uma teoria sobre o poder simbólico. Sua teoria sobre os interesses simbólicos reconceitualiza as relações entre os aspectos materiais e simbólicos da
vida social, extendendo a noção de interesse econômico ao domínio da cultura. Para Bourdieu, a sociologia e a economia são, na verdade, partes de uma única disciplina, cujo objeto de análise são os fatos sociais, dos quais as transações econômicas representam apenas um aspecto.
"Mesmo quando apresentam toda a aparência de desinteresse porque escapam à lógica do interesse 'econômico' (no sentido restrito) e são orientadas para apostas que não são facilmente quantificáveis, como em sociedades pré-capitalistas ou na esfera cultural, práticas nunca cessam de sujeitarem-se à lógica econômica. As correspondências entre os diferentes tipos de capital e os respectivos modos de circulação nos obrigam a abandonar a dicotomia econômico/não-econômico, a qual torna impossível ver a ciência das práticas 'econômicas' com um caso particular capaz de tratar todas as práticas, incluindo aquelas que são experimentadas como desinteressadas ou gratuitas, e consequentemente libertadas da 'economia', como práticas econômicas visadas à maximização de lucro material ou simbólico” (BOURDIEU, 1990 , p. 122).
E para descrever adequadamente os assim chamados processos econômicos, é necessário recorrer ao método sociológico (BOURDIEU, 2005b). Sua teoria sobre o capital fornece as bases para o entendimento das hierarquias sociais e do comportamento dos agentes. Cultura é definida como uma forma de capital, com regras específicas para seu exercício, e para acumulação, transmissão e troca. Uma vez que o exercício do poder exige legitimidade, Bourdieu propõe uma teoria sobre o poder simbólico e sobre a violência simbólica, que estressa o papel ativo desempenhado pelas formas simbólicas, entendidas como os recursos (ou capitais) que constituem e mantêm estruturas de poder.