A obra teatral de António Aleixo compreende três textos aos quais o próprio autor classificou como autos: o Auto da Vida e da Morte (1948), o Auto do CURAndeiro (sic)(1949) e o Auto do Ti Jaquim (1969).96 São “composições simples, obtidas pelo processo
de versos e rimas nos moldes clássicos”97, cuja classificação como auto dada pelo autor em
seus títulos reforça o caráter de teatro popular. Seus personagens são, em geral, tipos bastante conhecidos de Aleixo – os elementos populares, as figuras de aldeia de um Algarve periférico e empobrecido –, com exceção à interessante incursão alegórica do poeta em um dos textos a seguir brevemente descritos.
Graça Silva Dias considera que a trajetória de Aleixo da poesia para o teatro “era lógica” dentro do sentido de “regeneração visada pelo artista”, que melhor “se [veicularia] através do modo ideal da expressão direta”98. Além disso, suas quadras indicam,
com relativa constância, diálogos com interlocutores vários do universo social do poeta, sugerindo sua vocação natural ao gênero dramático. Contudo, cabe ressaltar a importância de que a forma teatral escolhida tenha sido a do auto99, popular em sua origem e em seu público,
em todos os tempos, visto que “os gêneros literários”, como recorda aquela pesquisadora, “têm também os seus pergaminhos de classe e de família”, e o autos “sempre se ajustaram entre [os portugueses] ao gosto tradicional”, pois “através deles, propunham-se os autores moralizar, mesmo pela sátira de costumes, e inculcar de modo vivo e acessível as verdades da fé” – uma fé que em Aleixo relacionava-se à esperança do surgimento “de uma sociedade regida pela ciência e pelos valores laicos” 100.
Tal visão de mundo é constante no teatro de Aleixo, cujo surgimento deu-se de forma incidental: seu primeiro texto teatral, o Auto do CURAndeiro, foi escrito a pedido do artista plástico Tóssan – alcunha de António Fernando Santos –, companheiro de Aleixo em seu período de internação no Sanatório dos Covões, em Coimbra, onde o poeta internara-se, por ingerências do próprio Tóssan, para tratar-se da tuberculose. O artista plástico, já então
96 Em MARTINS, 1978, p.14, há uma referência a um quarto texto teatral de autoria de António Aleixo, intitulado Tremem de medo os tiranos. Segundo o autor, o trabalho encontrar-se-ia, à época, “inédito, a ser editado brevemente”. Contudo, não foram encontradas quaisquer outras referências bibliográficas a esse quarto texto teatral de Aleixo.
97 MARTINS, 1978, p.37. 98 DIAS, 1977, p.55.
99 Sobre o auto como forma teatral, ver o capítulo 3 deste trabalho. 100 Ibid., p.56.
renomado em toda Portugal, atuava como cenógrafo e conhecia os meandros das artes cênicas e da dramaturgia. No intuito de incentivar Aleixo a que prosseguisse a compor sua poesia durante o período de internação, Tóssan sugeriu a Aleixo que ele escrevesse uma peça teatral em homenagem ao aniversário de um dos médicos do sanatório. O poeta, então, decidiu-se por retratar a figura dos curandeiros de aldeia, que então eram figuras bastante conhecidas no imaginário popular.
O Auto do CURAndeiro foi publicado pela primeira vez na cidade do Faro, em 1949, pouco antes do falecimento do poeta. Uma segunda edição do texto sairia em 1964, antes ainda de sua inclusão na antologia Este livro que vos deixo... (1969). É um texto de “temática popular com estruturas humanas bastante concretas e definidas no papel que cada personagem desempenha”101, contrastando com seu texto posterior, o Auto da Vida e da Morte (1948)102, de forte caráter simbólico.
A ação do Auto do CURAndeiro “passa-se numa aldeia de província onde o analfabetismo e o obscurantismo seculares davam lugar a superstições de ordem muito primária, como a fé acalorada na cura da benzedura”103: um curandeiro gaba-se das conquistas
financeiras obtidas com seu “serviço”, quando entra um doente a quem ele tenta “curar” com seus remédios caseiros; este último piora e o curandeiro foge, sendo socorrido pelo médico da aldeia; o texto encerra-se com uma fala do irmão do doente, que alerta para os perigos da medicina popular e a importância de se lutar contra a ignorância do povo.
É significativo o fato de que o texto surgiu de uma encomenda ao poeta- cauteleiro de uma peça teatral que homenageasse um dos médicos do sanatório onde ele se encontrava então internado para tratamento da tuberculose. Ele, que no passado muito sofrera por seguir recomendações populares para a cura de um mal crônico estomacal, decidiu então escrever sobre a fé absoluta do povo nesses curandeiros de aldeia, tão comuns no Algarve de seu tempo. O título original, porém, que assinala CURA em letras maiúsculas na palavra
curandeiro, reflete também certa desconfiança no clero, o que fez diversos biógrafos do poeta
descreverem-no como ateu – ainda que não haja, na obra de António Aleixo ou em fontes biográficas, nenhuma assinalação nesse sentido.
No Auto do CURAndeiro, Aleixo denuncia a superstição ao colocar em cena a atitude das camadas populares face ao charlatanismo dos curandeiros. Sua crítica à medicina sem diploma ecoa uma temática presente nos contos populares portugueses, na figura do
101 MARTINS, 1978, p.14.
102 Cabe assinalar uma inversão ocorrida na ordem editorial dos textos teatrais de António Aleixo: seu primeiro auto publicado foi o Auto da Vida e da Morte, que em verdade foi o segundo texto por ele escrito para o teatro; o primeiro texto, o Auto do CURAndeiro, seria publicado apenas um ano depois daquele.
“médico à força”104, cujas indicações causam mais mal que bem aos pacientes crédulos que
procuram seus préstimos. Aleixo associa o curandeirismo à exploração a que as classes mais pobres sempre estão submetidas – nesse caso, reconhece o poeta, por força de ser uma “medicina” mais barata e do caráter “sobrenatural” nela contida. Ele busca, então, “matar no espírito do povo a ‘essência’ de ‘virtude’ da medicina curandeirística”105 contrapondo-a ao
saber e à filantropia da personagem do médico de formação universitária e expressa nas palavras do irmão do doente vitimado pela “cura” infeliz do curandeiro.
O Auto da Vida e da Morte, primeiro texto teatral publicado por Aleixo – em verdade, sua segunda incursão no gênero –, teria sido inspirado por uma apresentação do Auto
da Alma, de Gil Vicente, pelo Teatro Estudantil da Universidade de Coimbra, a qual o poeta
teria assistido, a convite de Tóssan. O caráter alegórico, o simbolismo das personagens e das imagens cênicas desse auto de Aleixo remetem o leitor ao universo vicentino, sendo clara sua influência – ainda que calcada apenas nessa única apresentação à qual o poeta algarvio teria presenciado.
O texto, de um ato único, mostra o diálogo entre a Vida Fútil e a Morte, a qual se descreve como uma mera “ilusão” da primeira; entra em cena o Tempo, que critica os desperdícios da Vida Fútil a qual, por sua vez, culpa a Morte e a própria passagem do Tempo por suas desventuras; a Vida Fútil perece e é substituída em cena pela Vida Útil, que expulsa o Mordomo e suas excessivas vênias e ressalta o valor do trabalho e da honestidade, o fim da hipocrisia, da “vida dos artifícios / das ilusões e dos vícios”106.
No Auto da Vida e da Morte, Aleixo também aponta para uma regeneração futura, na qual a vaidade, o preconceito e a veleidade desapareceriam em nome de um viver mais simples e honesto. Se no texto anterior há uma valorização do saber científico, neste o autor trata de um tema que é recorrente em sua pequena obra poética: o valor do conhecimento empírico sobre aquele conhecimento científico/artístico que leve apenas à arrogância e à soberba. Ainda que oculta por trás da personagem simbólica como a Vida Fútil, vê-se no palco a mesma crítica aos doutores que usam seu saber apenas como instrumento de opressão, expressa em muitas de suas quadras:
104 DIAS, 1977, p.57. 105 DIAS, 1977, p.59. 106 ALEIXO, 1983, p.139.
És um rapaz instruído, és um doutor; em resumo: és um limão, que espremido, não dá caroços, nem sumo.107
Sem que o discurso eu pedisse, ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse; do que disse não gostei.108
À gente que não precisa, Às pessoas importantes... às vezes os sem camisa dizem coisas interessantes.109
Seu último texto teatral, Auto do Ti Jaquim, permaneceu inédito, posto que inacabado, até a sua publicação como parte integrante da antologia Este livro que vos
deixo...(1969). Trata-se de uma tentativa de dramaturgia mais elaborada de Aleixo, em uma
peça de dois atos cuja incompletude não impede sua análise, nem o encantamento em sua leitura. Curiosamente, o auto tem sido encenado em Portugal da forma que o deixou o poeta, tanto em espetáculos teatrais que reúnem um ou mais de seus textos em uma única apresentação quanto como peça teatral autônoma.
Esse auto “incide na figura dum operário de construção civil que, durante a vida inteira, contribuiu, com o melhor de seu esforço, para o progresso e o bem-estar do país. Alquebrado pelo peso dos anos consecutivos de trabalho duro sem nunca conseguir juntar pé- de-meia; alquebrado ainda pelas contrariedades do cotidiano, o Ti Jaquim chega ao fim da vida desprovido de todo o conforto social e humano”110. As aproximações entre o
personagem-título e a biografia de Aleixo são várias; não só o protagonista, mas toda a sociedade retratada na peça teatral é muito semelhante àquela de desequilíbrios sociais, preconceitos e injustiças em que viveu o próprio António Aleixo. O texto é repleto de personagens que, pela primeira vez na obra do poeta, aparecem nominados, ainda que nem sempre caracterizados como individualidades, funcionando mais como tipos. O texto, de
107 Ibid., p. 42.
108 ALEIXO, 1983, p.46. 109 Ibid., p.39.
traços tão marcadamente autobiográficos, oferece a possibilidade de estabelecer diversas associações entre o autor, António Aleixo, e a personagem Ti Jaquim: a condição humilde, a miséria, a sabedoria fruto do sofrimento, a desconfiança para com os poderosos, a profissão de pedreiro – uma das que Aleixo exercera na juventude. Além disso, o Auto do Ti Jaquim trespassa diversos temas presentes em outros textos do poeta: o acúmulo de dinheiro e o desprezo dos poderosos em relação aos mais carentes; a velhice desamparada; a juventude como força a impulsionar a mudança – que o aproxima do Auto da Vida e da Morte, no qual a alegórica personagem da Vida Útil é representada por um jovem trabalhador; a importância de lutar contra a alienação por meio da filosofia, do pensar; e a defesa dos valores morais sobre os bens materiais.
O teatro de António Aleixo tem sido mais lido que encenado. Incorporado às coletâneas de sua obra poética, seus três autos despertaram ainda pouco interesse das companhias teatrais, em parte por sua curta duração em cena111.
111 O Centro de Estudos de Teatro, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, registrava, em outubro de 2007, doze montagens teatrais dos autos de António Aleixo, encenados separadamente entre 1958 e 2001. No ano de 2007, uma apresentação do Auto do CURAndeiro fez parte, no Algarve, da programação oficial do Dia do Idoso.
3 O TEATRO DE GIL VICENTE E SUA SPOCA