Hardware Setup
9.2 Future work
Conjunto desportivo Baby Barioni; Rua Germaine Buchard, n 451 – Água Branca- SP.
O número de participantes foi de 366, divididos em: mulheres- 63. Homens- 303 [50 anos acima- 11].
O expediente de coleta foi feito pela abordagem direta das pessoas mediante o preenchimento do formulário com os dados de interesse de minha pesquisa, divididos em três tipos de entradas: em primeiro lugar, formulários destinados aos professores de Kendo. Em segundo, formulários destinados aos atletas e por último, destinados ao público em geral dos campeonatos. Neste momento apresentarei os dados sobre os professores e atletas agrupando-os. Em relação aos formulários dos atletas e dos professores, buscamos dividir a coleta – no formulário – sobre dois campos de variáveis: 1- Dados pessoais e 2- Dados sobre o Kendo. Sobre o primeiro campo, obtivemos respostas sobre as seguintes variáveis: 1- Nome e nomes dos pais- a razão de buscar coletar esses dados apontaria para a possibilidade de comparação das pessoas que praticam Kendo se tem algum parentesco com japoneses ou se tratam de
descendentes. Normalmente os descendentes de primeira geração possuem prenomes japoneses, ao passo que os descendentes de segunda geração à frente já possuem prenomes brasileiros31 e a permanência do patronímico [sobrenome] assegurado. Para os fins dessa dissertação, a indicação do sobrenome acompanhada dos nomes e sobrenomes dos pais é fonte relativamente segura de que estamos a falar de descendentes de japoneses. Em segundo lugar, coletamos informações sobre o gênero dos atletas, visto ser uma informação valiosa e que fornece suporte a algumas hipóteses e, como primeira observação, que é uma prática com maioria masculina. Em terceiro, informações sobre o nascimento dessas pessoas de forma a conseguir perfazer uma média de idade e compor um campo geracional. Procuramos obter dados sobre a escolaridade, profissão ou ocupação e informações sobre nacionalidade, uma vez que se houvessem registros de dupla nacionalidade, teríamos indicações de um trânsito entre Brasil e Japão32. Em segundo lugar, coletamos dados sobre Kendo. Esse campo de dados possibilitou que compuséssemos informações sobre idade de início, academias, graduações e, o mais importante, obtivéssemos algumas explicações para a prática do
Kendo – o início e prosseguimento. Evidentemente tomando essas informações com a
devida cautela, podemos formar um quadro possível de atitudes e de razões, que na dissertação aparecerão de forma diluída.
Dados gerais sobre o Kendo e aritmética do coletivo Estrutura Organizacional Cefalóide
A organização do Kendo no Brasil possui três instâncias inter-relacionadas e comunicantes. As associações – que ficam em variados locais no Brasil, mas que substancialmente se concentram no estado de São Paulo, a Federação Paulista de Kendo e a instância máxima no Brasil, que é a Confederação Brasileira de Kendo e que garante a validação das graduações perante a Federação Internacional de Kendo.
Associações
As associações são as franjas de recepção de novos ingressantes e onde acabam por serem desenvolvidas as competências mínimas para a prática do Kendo. Também são nelas que a Confederação Brasileira de Kendo recebe grande parte dos recursos para
31 Por prenomes brasileiros temos uma lista dos nomes mais comuns utilizados no Brasil no seguinte site: http://www.certidao.com.br/buscas/ranking.php . No momento presente não nos aventuramos pela análise dos sistemas de nomeação dos japoneses e esperamos fazê-lo no futuro.
32 Para novembrores detalhes, pode-se consultar o apêndice 2- Algumas estatísticas e perfil do coletivo, no setor de Anexos.
sua manutenção uma vez que por princípio um professor não cobra honorários para ensinar essa prática. Nas associações, forma-se uma diretoria eleita pelos associados que tem por função garantir o andamento dos treinamentos, inscrições nos variados eventos da CBK [Confederação Brasileira de Kendo] e demais burocracias. Normalmente os postos de projeção e respectivamente de contato com as outras associações em momentos de reuniões oficiais da CBK é o de Presidente e o de Diretor Administrativo [quando em falta do presidente]. A forma de seleção dos membros para as diretorias segue uma aparente liberdade de escolha para os cargos. Aparente, pois a última palavra sobre a recusa de uma indicação recai sobre os membros mais antigos, de forma que a escolha no mais das vezes é pré-determinada de antemão. Na associação São Carlos de Kendo, fiz parte de sua diretoria de 2007 ao final de 2008 enquanto Diretor Administrativo. A minha indicação foi discutida pelos professores mais antigos e aprovada, de alguma forma, pelo professor fundador da associação, prof. Dr. Yamamoto. Poderia ser questionado sobre o que significa esse fato para o estudo que proponho e para a chamada ‗comunidade nipo-brasileira‘; neste momento afirmo que a ‗inserção‘ precisou ser múltipla, somando-se a isso o trabalho na associação e, conforme veremos, a via de interpretação que proponho fornece uma explicação para essa captura de não-descendentes, confirmando em certa medida minha tese [a seguir]. Em suma, as formas de indicação e captura tomam base a participação nos eventos do Kendo e na vida social da associação e uma dada noção de mérito, de onde se deduz a capacidade de se levar as atividades de forma ordenada.
Federações- as federações acabam por congregar algumas associações estaduais e o seu
escopo é fornecer seminários e suporte técnico às academias em âmbito regional e local, como é o caso da Federação Paulista de Kendo, a Federação de Kendo do Rio de Janeiro e a Associação metropolitana de Kendo [DF], fundadoras da Confederação Brasileira de Kendo. A Federação Paulista possui um nível de organização mais fechado hierarquicamente em razão da proximidade com a CBK e ela é responsável por visitar as academias com professores convidados para tal finalidade.
São eleitas [diretorias] por indicação das academias em períodos bienais. O Estado de São Paulo possui a Federação que propõe mais atividades. A Federação Paulista tem um papel muito importante em visitar as diversas localidades – no estado de São Paulo – para ministrar seminários e treinos de Kendo durante todo o ano. O Kendo noutros Estados é regido pela CBK e pelas associações locais.
CBK- Confederação Brasileira de Kendo
Por fim, a CBK é a instituição que mantém o planejamento anual de torneios, palestras e eventos variados em todo o Brasil. Possui uma diretoria escolhida de acordo com a representatividade de cada academia, seguindo a indicação de cotas presente em seu estatuto. Funciona como diretoria de cunho meritocrático uma vez que as indicações são feitas de acordo com a capacidade realizada no divulgar o Kendo para o Brasil e em sua capacidade de articulação com o Kendo mundial. É o caso de Ciutoco Kogima [atual presidente da CBK] o qual fez parte da seleção brasileira na década de 70 e muito se esforça em divulgar essa prática, visitando variados locais no Brasil com esse objetivo, entre diversos outros professores.
Segundo uma estatística da FIK [International Kendo Federation] citada por Ito Tomoharu33, estima-se que no Japão existam cerca de 1,2 milhões de praticantes de Kendo e, no mundo, 2,0 milhões, distribuídos em quarenta países. No Brasil, estimativas com defasagem de cerca de nove anos indicavam a existência de 1500 descendentes de japoneses praticantes de Kendo, distribuídos em dez estados da federação, porém, o estado e a cidade de São Paulo respondiam por cerca de 80% desse montante. No momento estima-se que o número total de atletas seja menor, algo em torno de 1000 praticantes. O número de atletas federados34 oscila entre 850 e 1000, sendo imprecisa a quantidade real de atletas de Kendo no Brasil. De acordo com Yashiro Yamamoto (YAMAMOTO: 2008, P.14-15), a quantidade de academias em solo brasileiro é de 42. Porém, atualmente tenho em minhas estatísticas a presença e funcionamento de 36 academias de Kendo no Brasil35, sendo que 22 academias estão situadas no estado de São Paulo [o que representa cerca de 62% do total de academias, não de praticantes] e outras 14 estão situadas em 11 estados, sendo eles: Paraná [2], Alagoas [1], Pará [1], Rio de Janeiro [2], Santa Catarina [1], Mato Grosso [1], Paraíba[1], Distrito Federal [2], Rio Grande do Sul [1], Pernambuco[1] e Espírito Santo [1].
Coletei dados de praticantes de Kendo de oito unidades da federação, sendo que São Paulo apareceu com imensa maioria de atletas nos eventos em razão de haver maior
33 Ito Tomoharu - palestra realizada na sede da FPK (Federação Paulista de Kendo) em 17/05/2005 citando dados da Federação Internacional de Kendo- FIK. Atualmente, esses dados são confirmados pela Confederação Brasileira de Kendo e pela Federação Internacional de Kendo [FIK].
34 Atleta federado quer dizer aquele que possui graduação reconhecida pela CBK [conseqüentemente mediante registro] e pela FIK e pode competir nos eventos oficiais.
concentração relativa de descendentes de japoneses neste estado e pelo motivo de que a Confederação Brasileira de Kendo e a Federação Paulista de Kendo se situam neste estado e promovem eventos [campeonatos, palestras e exames de graduação] durante todo o ano.
Tabela 1- Amostra de praticantes consultada com residência fixa em uma unidade da federação durante a pesquisa de campo- período: julho de 2007 a julho de 2008
Estado da Federação No de pessoas Porcentagem
DF 2 1,6% ES 2 1,6% MT 7 5,8% PE 3 2,5% PR 1 0,8% RJ 3 2,5% SC 1 0,8% SP 101 84,2% Total de praticantes 120 100% Fonte: Lourenção, 2009 NOMES
Desse contingente de praticantes, fiz uma avaliação dos nomes e sobrenomes tendo por referência a observação fenotípica através do contato durante o preenchimento dos formulários e também a informação subseqüente, sobre os nomes dos pais, de forma a não incorrer em erro em relação ao patronímico, uma vez que as mulheres acabam adotando o sobrenome do esposo. A distribuição em termos de descendência étnica indica que, dos 120 colaboradores nesse levantamento, são japoneses36 ou descendentes de japoneses 56% ou 68 pessoas. Esse dado é importante
pois o Kendo é procurado ou inserido na vida dos descendentes de japoneses em pelo menos dois sentidos: ou pela influência da família e normalmente o pai tem alta relevância na inserção do filho ou filha no Kendo ou o Kendo é procurado depois da idade adulta. Não obstante, atualmente não se trata só de descendentes de japoneses, como atesta o dado, visto que do universo de pesquisa 44% possuem outras origens étnicas.
Em termos de nacionalidade declarada, de acordo com os dados coletados no que tange a nacionalidade brasileira, temos 91% de respostas que demonstram que o Kendo não tem tantos ―japoneses‖ como a um primeiro momento somos levados a acreditar. O Kendo acaba visto como uma forma de acesso a um dado campo simbólico japonês e vivido como um passado tornado presente. Um campo de significação e vivência de uma ética japonesa. Uma eterna atualização de uma forma de vida passada.
O que significa essa vivência do passado tornado presente? A vida atualiza-se e se contra-efetiva na dimensão da modernidade pela vivência desse passado mítico.
Não obstante, temos pessoas que possuem nacionalidade estritamente japonesa no computo dos 9% de respostas e que possuem trabalhos no Brasil. No projeto inicial, julgamos que o Kendo poderia funcionar como uma porta em termos de articulação de redes de contatos para o Japão. Porém, esta hipótese durante a pesquisa de campo foi deixada como não confirmada. O Kendo por si só não garante a entrada no Japão. O que pode ocorrer – e tenho relatos e dados – é viagem para o Japão por indicação da Confederação Brasileira de Kendo para atletas que se destacam no Brasil, para um período determinado e em treinos abertos a atletas estrangeiros efetuados pela Federação Japonesa de Kendo. O Sr Ivan Yamamoto37 participou de um desses seminários. Resulta que as redes de trabalho são autônomas em relação ao Kendo, embora a forma de sua ativação dependa em grande medida das pessoas e dos contatos pessoais, que também podem ocorrer nos salões de treino mediante a ampliação dessas mesmas redes no tempo de treino e exposição ao coletivo.
GÊNERO
Em relação ao gênero dos praticantes, as informações coletadas atestam a presença de 102 homens para 18 mulheres, ou seja, 85% dos praticantes de Kendo são do sexo masculino. A hipótese para tal distribuição desigual poderia ser pensada na observação de se tratar de um ―esporte‖ com alta exigência corporal, além de um investimento maior nas crianças do sexo masculino das famílias dos Kendocas em termos de aderirem à prática e as influências variadas de amigos, relacionamentos de namoro etc.. Porém, de acordo com minha observação nos eventos e campeonatos de Kendo e da análise das chaves de campeonatos mirins, infantis e juvenis, essa tendência geral vem se transformando, pois há contínuo crescimento de participação feminina.
37 Ivan Yamamoto- Filho de Yashiro Yamamoto e Masako Kayasima Yamamoto, nascido em 23/10/1974 em SP, empresário e advogado, foi ao Japão em Julho de 2004 com permissão da Confederação Brasileira de Kendo para participar do Seminário de Verão promovido pela Federação Internacional de Kendo. A forma de permissão toma o seguinte procedimento: a FIK abre inscrições e avisa suas filiadas nos diversos países e as filiadas escolhem os atletas com interesse e alto rendimento. Normalmente os nomes passam pela confirmação das associações máximas de cada país, no caso, os nomes dos participantes, entre eles o do Sr. Ivan, foram aprovados em reunião da CBK. Nesta oportunidade, ele participou do exame de graduação para estrangeiros e obteve o 4º Dan. Participei de seu treinamento de preparação antes da viagem ao Japão e quando ele retornou, afirmou que havia sido um período de descoberta, pela experiência de treinamento em solo japonês, que qualificou como ‗intensa‘ [os treinamentos ocorrem três vezes ao dia durante esses seminários]. No apêndice 4, pode-se ver os documentos que atestam sua viagem.
Tomando por referência inicial as entrevistas e conversas, tenho indicações de que o Kendo foi uma prática essencialmente masculina, pois o lugar social da mulher estava vinculado a fornecer condições para o funcionamento das reuniões sociais – confraternizações, campeonatos e outras atividades coletivas. Não obstante, a posição da
mulher no Kendo é dúbia, pois tem de cuidar do funcionamento dos eventos e – como
no caso ocorre – competirem nos campeonatos. Porém, há grande procura pelo Kendo
atualmente no gênero feminino e pude notar essa procura pela observação dos eventos e pela própria configuração moderna, que tende a privilegiar uma igualdade ―aparente ou suposta‖ no acesso a atividades físicas.
O que é importante de ser observado é a faixa de mulheres em graduações mais baixas. Mas no que tange aos professores de Kendo, a maioria é composta pelo gênero masculino [ou seja 92% para 8% de mulheres], o que suporta a indicação que no passado o Kendo era uma atividade prioritariamente masculina. Em entrevistas, coletei algumas menções ao fato de que o pai levava os filhos [note-se: homens] para praticar Kendo em locais distantes e normalmente atrelados a associações de japoneses. O professor Toida me afirmou certa vez que seu pai o levava para praticar Kendo no interior de São Paulo [Lucélia/SP] e que tinha lembranças bastante dolorosas de percorrer longas distâncias a pé para poder praticar em um dojo que se localizava em uma associação distante de sua propriedade.
Em relação ao gênero dos alunos [82% para 18% de mulheres], vemos um incremento na faixa de dados referente ao feminino. É uma tendência atual a procura do Kendo pelas mulheres de acordo com declarações de praticantes e professores. Os ginásios parecem ser bons lugares para se conseguir um parceiro[a] e normalmente relacionamentos são tecidos durante os treinos. Tenho indicações de uma praticante que sofreu flerte da mãe de um atleta no sentido de conhecê-lo e esse não é um caso isolado. Os ginásios são espaços de sociabilidade nos quais são possíveis diversos tipos de arranjos e sistemas de trocas – seja de mensagens, bens ou homens e mulheres. Bom, o homem ‗japonês‘ é um objeto valorizado culturalmente tomando por referência o interesse em se ter como primogênito uma criança do sexo masculino [(VIEIRA: 1973, P. 113-144); em especial a discussão sobre primogenitura, sucessão, liderança e arranjos familiares na ‗colônia japonesa‘ de Marília- SP)] e que possui certa primazia nos sistemas de troca nos ginásios, mas como é um bem que possui mais oferta, acaba por
ter de demonstrar o seu ‗valor‘. Por outro lado, as mulheres disponíveis são disputadas nos espaços de sociabilidade38justamente pela sua relativa ‗baixa oferta‘.