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Experiments and results

6.1 Future work

A análise apontou que a clareza sobre os objetivos do tratamento torna-se um fator favorável à adesão aos ARVs , uma vez que os entrevistados relacionam o uso da medicação com a manutenção da vida com qualidade. Esta clareza é uma

construção social, na qual as informações sobre as drogas, os resultados dos exames, os resultados observados em si mesmos e os comentários de outros pacientes se conjugam para se definir os objetivos do tratamento, assegurando, mais ou menos, a implicação do sujeito com este. As falas a seguir mostram como os entrevistados relatam para que servem os ARVs , com mais ou menos segurança sobre o que sabem e como se sentem:

“Eu continuo tomando o remédio por causa do vírus, pra controlar o vírus. Eu entendo que ele pode virar se eu não fizer o tratamento, que eu posso ter a aids, se eu não controlar, não tomar os remédios direitinho. Eu não entendo muito bem não, só sei que tenho que tomar esse remédio, pra evitar, pra controlar o vírus, pra ele não se manifestar.” (O348, I318)

“Eu quero viver. [...] Não sei se ele vai me garantir [tempo de sobrevida], mas pelo menos ele vai controlando pra essa doença não manifestar no meu corpo.” (O177, I037)

“O tratamento te traduz uma outra perspectiva que é....de vida. Expectativa de vida, de qualidade de vida.” (O101, I228)

“Eu acho que eu tomo pra viver. Mas não devia ser assim, né? Porque se um dia esse remédio, o vírus tiver lá dentro da célula sem poder sair, eu tô vivendo, né. Se largar, aí eu vou acabar definhando, vou acabando, né?” (O326, I323)

“Eu estou dando a comidinha dos ‘meninos’ (os vírus). Da mesma forma que preciso de arroz, feijão e não sei o quê, os ‘meninos’ precisam desses remédios, que hoje eu não considero remédios; são o alimento deles. Eu tratando direitinho deles, eles vão tratar de mim direitinho, nós vamos viver pacificamente até onde Deus permitir.” (O206, I413)

“Pois é, mas enquanto ele (o vírus) está quietinho ali né? [...] Ah, isso pra mim vai me ajudar muito! [...] Eu sei que ele vai estar em alguma parte, mas não vai estar livre. Vai estar escondidinho ali, guardadinho. É como se fosse assim, na minha cabeça, um bichinho que tá ali e que só vai voltar se eu não tomar os medicamentos...” (O285, I465)

Nessas falas, explicita-se, primeiramente, o desejo de não morrer por causa da aids e de viver com qualidade, mas também de ter uma vida considerada normal, de afastar os sinais e sintomas da aids, de ter carga viral indetectável, de viver numa forma de acordo tácito com os vírus, de se enxergar como alguém acometido de uma doença crônica como outra qualquer. Tais assertivas estão de acordo com o

apresentado na pesquisa de Cardoso e Arruda (2005), em que se relata que a dissociação (não existe a necessidade de tomar remédios) e a negação da soropositividade (a vida passa a ser normal) são estratégias de enfrentamento daqueles pacientes não aderentes que preferem acreditar que a doença não existe.

Houve entrevistadas, porém, que não vislumbram os benefícios do tratamento para si mesmas, como se só o aceitassem pelo fato de estarem grávidas, devendo prevenir a transmissão vertical. Conforme encontrado em outro estudo de Cardoso e Arruda (2003), as mulheres apresentam uma preocupação maior voltada para os outros (filhos/familiares) do que em relação a si mesmas, indicando que diferenças de gênero podem interferir na adesão ao tratamento.

“Ela (a médica) pediu pra eu tomar pra não passar pro menino. Ela pediu para mim tomar o AZT, né? Pra evitar do ‘contamínio’, pra ele ser mais forte.” (O324, I549)

“Quando eu fiquei grávida eu vim aqui, procurei o Dr..., Aí, ele me xingou, e eu falei que eu estava com três meses (teve antes cinco abortos). Aí, ele falou assim: 'Tá na época boa pra começar a tomar o AZT.' Eu fui e tomei o AZT a minha gravidez todinha. [...] Aí, eu fui e procurei ele e comecei a tomar remédio direitinho, e a gravidez foi normal. Da data que o médico marcou direitinho o menino, nasceu normal, parto normal. [...] Aí, eu fiquei fazendo tratamento até meu filho nascer. Aí, depois eu abandonei. Eu tomava só o AZT.” (O377, I328)

Os relatos apresentados estão de acordo com os resultados do estudo de Cardoso e Arruda (2005, p. 154), que mostrou dois momentos no grupo de pacientes aderentes: “o de antes como tendo sido algo difícil de aceitar, associado à morte, e o de depois sendo vivido como uma nova condição, mais adaptada à nova situação”. As autoras relatam que um paciente aderente “descreve o ser soropositivo como tendo uma ‘bomba-relógio’ dentro de si” e para os não aderentes “predomina um só momento extremamente perturbador. A impressão que dá é que o paciente não aderente ainda está sob o impacto do diagnóstico de HIV ("difícil"/'morte"/"doença ruim")”.

Nesse mesmo trabalho, as autoras constatam que para os pacientes aderentes os benefícios dos remédios são mais valorizados do que os efeitos negativos. Se, de um lado, a medicação é forte, porque a pele muda ou porque produz reações estranhas no organismo, como "uma bomba que jogam no

organismo, que entala, intoxica, sufoca e maltrata", de outro, ele é igualmente forte porque levanta e ajuda, segundo os participantes desse estudo. Dessa forma, estar consciente dos objetivos da terapia e apropriar-se dessa nova condição de vida dá novo sentido à doença, sendo uma forma de tornar-se sujeito ativo e aderente ao tratamento.

Assim, Leite e Vasconcelos (2003, p. 781), citando Dowell e Hudson (1997), declaram que,

[...] apesar de haver em uma parcela da população a consciência sobre seu tratamento e deste acontecer como resultado de um processo de decisão, ele não está mais preocupado com o seguimento do tratamento propriamente dito do que com a melhora dos sintomas, a volta à vida normal, a superação da fragilidade.

Citando Conrad (1985), completam que "o paciente não está preocupado em desobedecer ou não aderir ao receituário médico, mas sim lidar com sua condição de vida da forma que lhe convenha e que lhe permita maior autocontrole e liberdade" (LEITE; VASCONCELOS, 2003, p. 781).

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