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Apesar de Ianhez & Nico (2003) afirmarem que a dislexia atinge entre 10 e 15% da população mundial, e essa estimativa ser aceita amplamente, encontrar alunos em idade escolar com o laudo de dislexia foi uma grande dificuldade nesta pesquisa. Isso nos permite levantar algumas hipóteses:

i. existem muitos disléxicos que, por falta de condições financeiras ou por desconhecimento da existência do transtorno por parte da família e dos professores, não sabem que são disléxicos e muito menos têm laudo;

ii. uma vez diagnosticado o quadro de dislexia, esse quadro não pode ser retirado. Ou seja, pode ser que alguns profissionais evitem diagnosticar a criança com dislexia para que ela não carregue consigo esse laudo para o resto da vida, mesmo que o não diagnóstico prejudique o rendimento ou desenvolvimento escolar do estudante; iii. as escolas, tanto na rede pública, quanto na rede privada, têm receio de expor seus

estudantes, mesmo sabendo que pesquisas não revelam nomes, tampouco imagens dos sujeitos participantes.

A segunda dificuldade está relacionada à primeira: complicações na hora de encontrar um campo para atuação. Em 2013, após decidir que a dislexia seria o tema de minha monografia, fui à Gerência Regional da Educação Básica – GREB, do Plano Piloto, com o objetivo de saber em quais escolas de ensino fundamental haveria estudantes disléxicos diagnosticados. Na época, fui surpreendida ao constatar que a própria Secretaria de Educação não tinha um controle muito eficiente da quantidade de estudantes disléxicos e em que escolas eles estudavam, já que, na relação de escolas que me foi passada, não havia aluno algum com laudo de dislexia. Então, resolvi ir a cada um dos Centros de Ensino Fundamental (CEF) do Plano Piloto para conversar com os coordenadores pedagógicos e com a direção a respeito da pesquisa.

Em 2016, conseguimos o contato da Coordenadora Pedagógica da Escola 1, que nos autorizou a conversar com a professora responsável pela Sala de Apoio para realizarmos as oficinas de língua portuguesa uma vez por semana em um horário em que alunos disléxicos estivessem presentes. Conseguimos o aceite da professora da Sala de Apoio, mas outra dificuldade apareceu: os dois alunos disléxicos não eram frequentes na sala, o que nos rendeu apenas dois encontros com ambos, não sendo o esperado para o prosseguimento da nossa pesquisa.

Em 2017, ao procurarmos novamente a Secretaria de Educação do Distrito Federal, orientaram-nos a ir à Escola de Aperfeiçoamento de Profissionais de Educação – EAPE, para que fossem tomadas as devidas providências antes de ter contato com as escolas. Ao chegarmos ao setor responsável, informaram-nos que, para realizar a pesquisa de campo em qualquer escola, precisaríamos da carta de aceite do Comitê de Ética. Entretanto, para obtermos essa carta de aceite, precisaríamos de um campo de atuação já definido, uma escola específica que tivesse alunos com laudo de dislexia. Não tínhamos essa informação, o que inviabilizou a entrada de documentação no Comitê de Ética e, consequentemente, não nos deu acesso às escolas da rede pública.

A partir de então, começamos a entrar em contato com escolas particulares do Plano Piloto. Conseguimos marcar uma reunião com a coordenadora pedagógica do ensino fundamental de uma delas, que demonstrou muito interesse pela nossa pesquisa, mas afirmou que não tinha alunos com laudo de dislexia. Depois disso, fizemos contato telefônico e via e- mail com outras nove escolas particulares, explicando nossa pesquisa, com o intuito de marcarmos uma reunião. Entretanto, não obtivemos resposta.

para encontrarmos um campo de pesquisa adequado. Ela nos indicou uma profissional que atua com o acompanhamento de crianças e jovens surdos e pessoas com distúrbios de aprendizagem, com quem marcamos uma reunião para apresentarmos nossa pesquisa e nossos objetivos. Após nosso diálogo, a profissional nos passou o contato de duas mães cujos filhos possuem hipótese diagnóstica de dislexia e já haviam sido acompanhados por ela em seu local de atuação. A partir do contato com as duas mães, tivemos o aceite de ambas para a realização da nossa pesquisa. Surgiu aí outra dificuldade na pesquisa realizada em 2017: encontrar um horário comum para trabalhar com os estudantes ao mesmo tempo. Como cada um estudava em uma escola diferente e tinha sua própria rotina com atividades extraclasses, foi inviável realizar as oficinas de língua portuguesa em um mesmo horário, com os dois alunos ao mesmo tempo, como era a nossa ideia inicial. Além disso, o espaço para a realização da pesquisa também foi uma dificuldade, tendo em vista que cada aluno morava em um local diferente, o que causaria o deslocamento dos estudantes a um lugar específico, expondo-os a possíveis situações indesejadas, como um acidente de carro, por exemplo. Por isso, optamos pela realização das oficinas de maneira individual na casa de cada um dos alunos, respeitando a rotina escolar e os compromissos extraclasses de cada um.

Após discorrermos aqui sobre os tipos de pesquisa escolhidos, as estratégias de geração de dados, os corpora, os locais em que a pesquisa foi realizada e as devidas identificações dos sujeitos participantes da nossa pesquisa, seguiremos para a análise dos dados gerados, a ser feita no capítulo seguinte.

3.7 Resumo do capítulo

Este capítulo tratou da metodologia desta pesquisa. A seção inicial, subdividida em quatro subseções, abordou os tipos de pesquisa empregados nesta dissertação. A segunda seção apresentou os corpora. Na terceira seção, definimos os locais da pesquisa. Na quarta seção, identificamos os sujeitos de pesquisa. A quinta seção teve como foco a pesquisa de campo e o protocolo de ensino de Português para disléxicos, tratando sobre as oficinas de língua portuguesa para disléxicos e abrangendo como se deu o planejamento, o uso da multimetodologia e a execução. Na sexta seção, apresentamos as dificuldades no processo.

4 A DISLEXIA EM (CON)TEXTOS REAIS

Neste capítulo, apresentaremos a análise dos dados gerados nas três fases da pesquisa. Na seção 1, apresentaremos as características da dislexia a partir da literatura, organizadas em um quadro-síntese. Na segunda seção, analisaremos os dados gerados na primeira fase da pesquisa, em 2013. Na terceira seção, faremos a análise de dados gerados na segunda fase da pesquisa, em 2016. Na quarta seção, analisaremos os dados da terceira e última fase da pesquisa, realizada no primeiro semestre de 2017. Na quinta seção, apresentaremos a frequência dos problemas linguísticos presentes nos textos analisados. Na sexta seção, trataremos sobre problemas tipificados na literatura não circunscritos à produção escrita.