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6. Discussion

6.5 Future directions

Em meio a uma época de mudanças sociais de alta velocidade, presentes em todos os cantos do globo, embaladas por sistemas e redes sociais inseparavelmente ligados a um desenvolvimento tecnológico até bem pouco tempo inimaginável (STOCKINGER, 2001), surgem também novas formas de entender os processos comunicativos a partir de uma visão sociológica e mais complexa da comunicação.

Fala-se hoje não mais da “Era da Informação” - conceito da virada do século XX, que “denomina uma sociedade, na qual a informação aparece como uma energia efetiva, ou, do ponto de vista econômico, como um fator de produção”, que se iguala na sua importância aos fatores capital e trabalho, ou até as supera, “dominando a formação social” (STOCKINGER, 2001, p.2) – mas numa transição para o que seria a ‘Sociedade da Comunicação “, na qual a realidade social não tem outra maneira de se expressar a não ser em forma de comunicação e onde, mais do que um “fator de produção, a comunicação opera a base dos macro e microssistemas sociais” (Idem). Nessa transição, os indivíduos de sociedades complexas encontram-se saturados e sobrecarregados de dados e informação que, muitas vezes sem sentido, tornam-se inúteis. A Internet globalizada é o melhor exemplo disso.

Já não se trata apenas de discernir, acumular e comercializar dados e informações, mas, sobretudo de processá-los de forma cada vez mais diferenciada. É por isso que novos sistemas e ambientes de comunicação desafiam o espírito

contemporâneo que afeta especialmente responsáveis de todos os tipos – pais, educadores, cientistas, gerentes, empresários e políticos - e oferecem a qualquer um inúmeras possibilidades de participação social ativa (STOCKINGER, 2001, p.3).

1.1.2.1 A comunicação segundo Luhmann

Nessa vertente, um dos autores mais citados na atualidade é o sociólogo e filósofo alemão Niklas Luhmann (1927-1997), que fornece essa compreensão da comunicação como construtora da sociedade. Luhmann aspirava contrair uma superporia sociológica para a era da comunicação, pela combinação de três teorias, que até então se desenvolveram paralelamente, ainda que com pontes de ligação e convergências em vários momentos de sua construção. Trata-se da teoria de sistemas, da teoria da evolução e da teoria da informação e comunicação.

Segundo Luhmann (1998), a comunicação é justamente o que distingue os sistemas sociais dos outros sistemas, onde ocorreriam simplesmente processos informacionais, ou seja, onde haveria apenas transmissão de sinais quantificáveis de um lugar a outro, conforme modelo matemático de Shannon -Weaver. Nesta nova visão, dentro de uma reinterpretação da teoria da evolução, ”os sistema sociais usam a comunicação como seu modo particular de reprodução autopoiética”, termo que deriva dos radicais gregos auto (“próprio”) e poiesis, (“criação”, “produção”), utilizado originalmente pelos chilenos Marturana e Varela (1974) para designar a capacidade de auto-reprodução de sistemas biológicos. Ao final, o sistema, tanto biológico quanto social, seria tanto produtor como produto. A idéia é de que a vida é um processo de conhecimento, construído de forma incessante e interativa.

Ao focar a comunicação de forma inusitada, complexa e sofisticada, Luhmann reordena e/ou reinterpreta os elementos constituintes básicos do processo de

comunicação. A informação , vem a ser na teoria sistêmica de Luhmann o resultado de uma certa seleção entre alternativas disponíveis com determinada intenção (MATHIS, 2001). Mensagem é aquilo que na prática objetiva a informação, o que a materializa e a coloca à disposição dos interlocutores para que dela possam partilhar (ESTEVES,1993). Os Interlocutores ou agentes de comunicação, são designados Alter e Ego. O código desempenha uma papel essencial no processo de comunicação na visão de Luhmann. É ele que regula o processo, que determina o que pode ser comunicado e revela ao longo do tempo as transformações na capacidade de comunicação de acordo com aquilo que cada época entende como o seu “centro de sentido”. Trata-se de um código binário, ou seja, um puro operador capaz de trabalhar com as duas alternativas do binário– “afirmações” e “negações”. Um último elemento, a compreensão, é reordenado na concepção de Luhmann já para além do processo de comunicação propriamente dito. É tida como uma consequência sempre contingente deste mesmo processo, “a ponto de se poder considerá-la como o derradeiro processo de seleção” (ESTEVES, 1993, p.13). pode-se dizer que, para Luhmann, a comunicação transforma a diferença entre informação e ato de comunicar na diferença da aceitação ou recusa da comunicação (LUHMANN, 1998).

Uma das mudanças principais das concepções de Luhmann sobre a Teoria Geral dos Sistemas, aplicada à realidade social, que tinha como vertente Talcot Parsons, diz respeito à relação entre sistema e meio. Na visão de Luhmann, ao contrário da versão tradicional, onde a posição central na relação parte-todo estava sempre reservada ao indivíduo, “o homem deixa de ser considerado como parte (a fundamental) desse mesmo organismo social e torna-se-lhe exterior – passa a constituir um meio ambiente

do sistema e como tal, fonte permanente geradora de problemas, criadora de complexidade” (ESTEVES; 1993).

1.1.2.2 O contraponto de Habermas

Conterrâneo e contemporâneo de Luhmann, o sociólogo Jürgen Habermas vem lhe oferecer a crítica e o contraponto. Enquanto para Luhmann, a categoria central não é mais o ator, mas o observador, não é mais a ação mas a comunicação, Habermas assim como Boaventura Santos, valoriza as experiências, o cotidiano, o mundo vivido, o senso comum dos indivíduos em geral, buscando, com isso, aproximar realidades que estão distantes e isoladas (GUIMARÃES E SILVA & MARINHO JUNIOR, 1996). Enquanto para Habermas, a comunicação é considerada como sinônimo de consenso, de busca do entendimento, para Luhmann, pode-se comunicar também para se marcar o dissenso, pode-se querer o conflito.

Habermas em sua Teoria da Ação Comunicativa trabalha com três elementos principais: diálogo, linguagem e grupo. A linguagem, peça essencial da TAC, é entendida pelo ângulo de um processo racional no seu uso cotidiano, é o que o autor chama de razão comunicativa:

"(...) os indivíduos socializados, quando no seu dia-a-dia se comunicam entre si por meio da linguagem comum, não têm como evitar que se empregue essa linguagem também no sentido voltado ao entendimento. E, ao fazer isso, eles precisam tomar como ponto de partida determinadas pressuposições pragmáticas, nas quais se faz valer algo parecido com uma razão comunicativa". (HABERMAS, 1990, p. 98).

A transmissão da realidade da vida por meio da linguagem é que constitui o mundo das idéias. É a linguagem comum que revela, através de argumentos, a validade e a verdade do que pensamos e dizemos, mesmo que, no futuro, tal noção possa ser

alterada mediante novas informações e experiências (GUIMARÃES E SILVA & MARINHO JUNIOR, 1996).

Em Habermas, assim como em Freire, a comunicação é concebida como um processo dialógico, através do qual sujeitos capazes de linguagem e ação interagem com fins de obter um entendimento. O interesse emancipatório é o fio condutor da obra do autor e a comunicação é tida como “fundamento nuclear a partir do qual os processos sociais podem ser compreendidos e a realidade social modificada” (SAMPAIO, 2001, p.4).

A emancipação é um tipo especial de auto-experiência, porque nela os processos de auto-entendimento se entrecruzam com um ganho de autonomia. (HABERMAS, 1990, p.100). Mas, no lugar do termo emancipação, Habermas coloca os termos entendimento e agir comunicativo, que se referem àquilo que acontece constantemente na prática do cotidiano. A maneira de abordar os grupos com os quais se quer socializar a informação deve levar em conta que “em um processo de esclarecimento existem somente participantes" (HABERMAS, 1990, P. 97).

A crítica feita a Habermas é a da idealização de um contexto ou da realidade. Segundo ele próprio responde, não há interesse em “construir na escrivaninha as normas fundamentais de uma sociedade bem organizada” (HABERMAS, 1990, p. 98). E afirma: “O meu interesse fundamental está voltado para a reconstrução das condições realmente existentes" (Idem). Pondera, no entanto, que "(...) a prática cotidiana, orientada pelo entendimento, está permeada de idealizações inevitáveis" (Ibidem).