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Há um fato concreto e real de que o ser humano é um ser histórico e social que se desenvolve na perspectiva da formação cultural, como resultado de sua atividade de

transformação da natureza, que o leva a transformar o seu psiquismo. O desenvolvimento das Funções Psíquicas Superiores, por meio da mediação da cultura e do social, propiciou aos seres humanos superarem sua condições apenas biológica, implementando os processos de humanização.

Os princípios de atividade enunciados na Teoria Histórico-Cultural como processo dialético de formação humana, processo de apropriação e objetivação e processo de desenvolvimento do seu psiquismo (consciência), marcaram nossa inquietação por caracterizar e analisar os sistemas de atividade e suas implicações nas práticas pedagógicas da Educação Infantil, especificamente com crianças de 4 a 6 anos.

Esta preocupação não teve origem apenas na teoria, mas também na prática como docente na Educação Infantil onde, enquanto pesquisador, tive a oportunidade de vivenciar e experimentar que nem toda atividade possui essa essência de desenvolver o pensamento conceitual da criança.

A inquietação pauta-se em saber quais as peculiaridades psicológicas da atividade que devem ser fomentadas para obter esse pleno desenvolvimento do pensamento conceitual empírico da criança no contexto da Educação Infantil; assim, temos a intenção de estudar a atividade na sua essência, a sua unidade lógica que é a ação da própria atividade que se direciona ao objeto e ao próprio sujeito.

Compreender as peculiaridades psicológicas da atividade resulta crucial e significativo para os docentes e para as crianças, porque não se trata de qualquer tipo de ação, mas de uma atividade social, prática e compartilhada por meio da qual a apropriação de signos e símbolos, e a utilização das ferramentas culturais, atuam como mediadores para esse desenvolvimento humano. É na atividade que se inter-relacionam as pessoas: crianças com crianças, adultos com adultos e crianças com adultos, além da própria relação do ser humano com a natureza e com as ferramentas. Por isso, a essência da atividade é a de produzir e criar sentidos para a formação da atividade dos docentes, potencializando o desenvolvimento das Funções Psíquicas Superiores das crianças e integrando os aspectos práticos, emocionais, relacionais e cognitivos. Mas em quê consiste a atividade no plano psicológico, especificamente dentro do plano das Funções Psíquicas Superiores?

A atividade é uma forma de relação dialética entre sujeito e objeto, na qual o ser humano ao transformar o objeto se transforma a si mesmo; e ao relacionar-se com o objeto dá-se a objetivação dele próprio como ser humano.

Em Vigotsky (1996) temos os pressupostos da teoria da atividade de acordo com o seu postulado: a) o social visto como a essência do desenvolvimento psíquico e o caráter mediatizado da psique humana por meio de instrumentos e signos; b) a estrutura da sociogênese como formas superiores de comportamento e de conduta, denominadas Funções Psíquicas Superiores; c) a lei genética do desenvolvimento cultural na qual o desenvolvimento da função psíquica aparece como resultado do plano social (interpsíquico) e do plano psicológico (intrapsíquico).

Ao refletirmos sobre esta temática da atividade somos levados a caracterizar os tipos de sistemas da atividade sob a base da filosofia dialético-materialista e dos autores clássicos e continuadores da Teoria Histórico-Cultural. Também, percebemos o quão necessário é trabalhar temáticas que dizem respeito ao desenvolvimento psíquico das crianças e às suas implicações nas práticas pedagógicas dos processos de ensino e de aprendizagem dos docentes da Educação Infantil, tais como: aprimorar as discussões sobre as particularidades psicológicas da atividade para uma melhor compreensão para a sua aplicabilidade na prática docente da Educação Infantil; promover debates sobre os tipos de ação da atividade para fortalecer os processos de ensino e de aprendizagem no contexto educativo; trabalhar estruturas e conteúdos de atividades para aprimorar o desenvolvimento psíquico das crianças. Assim, estas questões temáticas sobre a atividade se tornam essências no contexto da Educação Infantil e, como tal, devem ser caracterizadas e analisadas de forma a revelar a especificidade das possibilidades da formação da personalidade e funções afetivas e cognitivas das crianças de 4 a 6 anos da Educação Infantil.

Vigotsky (1996) desenvolve a teoria da atividade mediadora usando o conceito de trabalho, que Marx (1999 e 2008) desenvolveu para mostrar que o trabalho em si é o responsável pelo processo de desenvolvimento humano, ou seja, o trabalho compreendido na sua essência ontológica e não só econômica. Neste sentido, se faz necessário analisar os conceitos marxistas de trabalho, produção, reprodução, consciência e pensamento para termos um melhor entendimento quanto à fundamentação dialética da atividade, como propõe a Escola de Vigotsky.

Vygotski (1996) não conceitua a atividade, senão que a indica como processo quando afirma o seguinte sobre signos e ferramentas:

Por medio de la herramienta el hombre influye sobre el objeto de su actividad, la herramienta está dirigida hacia fuera: debe provocar unos u otros cambios en el objeto. Es el medio de la actividad exterior del hombre, orientado a modificar la naturaleza. El signo no modifica nada en el objeto de la operación sicológica: es el medio del que se vale el hombre para influir psicológicamente, bien en su propia conducta, bien en la de los demás; es un medio para su actividad interior, dirigida a dominar el propio ser humano: el signo está orientado hacia dentro. (VYGOTSKI, 1996, p.94).

A ferramenta em si mesma é o resultado da própria atividade humana concretizada no trabalho. Por meio da ferramenta, o ser humano modifica a própria natureza e ele próprio se modifica. Significa que a ferramenta é mediadora do próprio processo de transformação da natureza e do ser humano.

O signo tem essa função de modificar o ser humano na sua própria essência. O signo atua no interior do ser humano, possibilitando a superação da contradição que se dá no próprio ser humano. O signo, como atividade mediadora, possibilita essa revolução intrínseca no próprio ser.

Neste sentido, é muito importante compreender que o signo modifica a própria consciência humana. Modificando essa consciência, o ser humano começa a superar o seu estado biológico para chegar ao estado do processo de humanização. A modificação da consciência pelos signos nos indica que:

El signo opera inicialmente en la conducta infantil como un medio de relación social, como una función interpsíquica. Posteriormente se convierte en un medio por el que el niño controla su conducta de modo de que el signo simplemente transfiere al interior de la personalidad la actitud social hacia el sujeto. (VYGOTSKI; LURIA, 2007, p.51).

O signo é uma função interpsíquica, já que modifica o interior do ser humano e atua como função mediadora no desenvolvimento histórico-cultural da própria conduta humana. Assim, destacamos a importância da internalização como fundamento do desenvolvimento das Funções Psíquicas Superiores. A internalização é única do ser humano, porque se caracteriza na compreensão e execução daquilo que se mostra próprio do social, que está na exterioridade do ser humano.

Assim, Vygotski (1996) enfatiza a importância da cultura como forma do desenvolvimento do psiquismo humano:

La cultura origina formas especiales de conducta, modifica la actividad de las funciones psíquicas, edifica nuevos niveles en el sistema del comportamiento