6. Concluding remarks 95
6.2. Future work
Para analisar as cenas, o caminho metodológico escolhido foi a abordagem qualitativa, tendo como instrumento a análise de conteúdo. Na primeira fase do trabalho, foi inestimável a ajuda de uma “pessoa virtual”, um “personagem” do site de relacionamentos Orkut: Lee Looper. Essa pessoa digitalizou todas as principais cenas do casal Jenifer e Eleonora e disponibilizou os arquivos em um site (que mudou diversas vezes de endereço ao longo da veiculação do folhetim na televisão)20.
Essa seleção preliminar, feita por Lee Looper, era acompanhada diariamente por mim. O material editado por Lee foi, todos os dias, comparado com o veiculado na novela
Senhora do Destino (entre 28 de junho de 2004 e 11 de março de 2005) pela Rede Globo ou no site Globo Media Center (http://gmc.globo.com/), na Internet, onde cada capítulo da novela ficava disponível por alguns dias.
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O texto deve ser considerado como o meio privilegiado das intenções comunicativas. É através da textualidade de onde se realiza não só a função pragmática da comunicação, mas também, onde é reconhecida pela sociedade. Se trata de um conjunto discursivo coerente por meio do qual se levam a cabo estratégias de comunicação. Daí seu caráter de processo comunicativo, capaz de aceitar – como constituintes de igual importância – tanto os signos lingüísticos como os não lingüísticos (tradução minha).
A edição realizada por Lee Looper – com o objetivo “de ajudar as meninas que não podiam acompanhar diariamente a novela”, de acordo com a explicação postada por ela no site Orkut – foi de grande utilidade, pois não só permitiu acesso às cenas já selecionadas, como também as disponibilizou já passíveis de serem manipuladas de forma digitalizada, o que facilitou sua reprodução, análise e armazenamento.
No total foram produzidos 161 arquivos com cenas da novela e outros 18 contendo entrevistas com as atrizes Mylla Christie e Bárbara Borges em outros programas, como Vídeo Show, Domingão do Faustão (ambos da Rede Globo) e Contemporâneo (da GNT). A coletânea produzida por Lee Looper é tão completa que registra até a participação de Mylla Christie e Bárbara Borges no desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro em 2005.
Algumas cenas da novela em que o casal de lésbicas não aparecia no vídeo, mas em que as duas eram assunto de conversas de personagens membros da família ou de amigos, não foram disponibilizadas no site. Por este motivo, fiz a transcrição dessas cenas direto do
Globo Media Center, do qual fui assinante no período em que a novela foi ao ar.
As cenas digitalizadas por Lee Looper foram nomeadas por mim com a data de exibição e organizadas em uma pasta no computador para cada mês da novela. No total, os vídeos ocuparam dois CDs graváveis, de 700 Mb cada um. As cenas da novela foram analisadas de duas formas: uma a uma e, com auxílio do programa Adobe Premier, reunidas em ordem cronológica, condensando a narrativa - que levou oito meses para ser veiculada pela TV - em um vídeo único, com tempo total de duração de 5h04.
Tendo todos os dados armazenados em mídia segura e organizados cronologicamente, a etapa seguinte foi contar os arquivos. Em um caderno, fiz anotações gerais sobre cada uma das cenas – cenário, tipo de diálogos, personagens que contracenaram, roupas usadas, músicas de fundo, entre outros elementos que estruturam a dinâmica da linguagem audiovisual.
As anotações foram feitas da seguinte forma:
24/08/2004. Eleonora dirige o Uno vermelho e estaciona um pouco longe da casa de João Manoel, para o carro não ser visto. Toca a campainha. Na sala, Jenifer, de short e top, estuda deitada no sofá. Levanta e atende a porta. Eleonora (de casaco fechado até o pescoço e calça comprida) pergunta se ela é Jenifer (close nos rostos). As duas conversam sobre o namoro dos irmãos. Jenifer diz que está só em casa, que o resto da família foi com Regininha para o ensaio da escola de samba.
Com base nesse primeiro levantamento, foram selecionadas as cenas consideradas mais importantes, desprezando as que nada acrescentavam à trama, as que se relacionavam aos dramas de outros personagens e as que tratavam de temas considerados irrelevantes para a análise (como conversas das duas por telefone para combinar locais de encontro). No total foram selecionadas 68 cenas relevantes, que dispunham pelo menos de trechos interessantes para serem estudados como formadores de uma identidade lésbica. Como o número de cenas ainda era muito elevado, foi feita uma segunda seleção. Dessa vez foram escolhidos momentos-chave da narrativa, discursos políticos ou imagens com grande poder de significação. Essas cenas, armazenadas em 16 arquivos, foram transcritas na íntegra. No entanto, é sempre bom lembrar, como faz Diana Rose, que “o que é deixado de fora é tão importante quanto o que está presente” (BAUER, 2002, p. 343).
Mas, por motivos práticos, foi necessário realizar recortes no material a ser pesquisado. Tais situações são previstas por Rose:
Em vez de procurar uma perfeição impossível, necessitamos ser muito explícitos sobre as técnicas que nós empregamos para selecionar, transcrever e analisar os dados. Se essas técnicas forem tornadas explícitas, então o leitor possui uma oportunidade melhor de julgar a análise empreendida. Devido à natureza da translação, existirá sempre espaço para oposição e conflito. Um método explícito fornece um espaço aberto, intelectual e prático, onde as análises são debatidas. (BAUER, 2002, p. 345).
De posse desse roteiro, levantei os seguintes questionamentos:
• Eleonora e Jenifer são uma inovação na representação de lésbicas na mídia brasileira?
• Há diferenças na representação do casal de lésbicas em relação a como são apresentados os casais heterossexuais da novela?
• Que tipos de discursos permeiam a representação do casal e compõem a trama narrativa?
• Qual o público preferencial da novela em geral e das personagens Eleonora e Jenifer em particular?
• Como são as relações com a família, no trabalho e com outros setores sociais?
• Como é representada a adoção de uma criança por um casal de lésbicas? O passo seguinte foi partir para a categorização dos dados. A escolha foi selecionar o conteúdo temático. Surgiram, dessa forma, sete categorias para análise do casal:
1. Amor/Desejo
2. Discursos sobre a homossexualidade 3. Papéis de gênero/Machismo
4. Reações familiares
5. Preconceito e discriminação 6. Casamento/Coabitação 7. Adoção
Em seguida, selecionamos os trechos de transcrição das cenas previamente escolhidas onde constavam esses temas e analisamos como a construção da narrativa sobre Eleonora e Jenifer foi montada.