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A área acadêmica nos contempla com inúmeros estudos acerca da motivação, a partir de diferentes matrizes epistemológicas, seja ela cognitiva, comportamental ou psicanalítica. Contudo, essa tese contemplou o estudo da motivação permeado pela teoria da autodeterminação. Vansteenkiste e Deci (2006) realizaram um estudo sobre a qualidade motivacional para aprendizagem em 04 grupos de estudantes na fase escolar e em universitários. Com base na teoria da Autodeterminação proposta por Ryan e Deci (2000), os autores compreendem que existem diferentes qualidades motivacionais que estão relacionadas aos tipos de motivação intrínseca e extrínseca. A primeira está relacionada a mais alta qualidade motivacional e possui pouca, ou nenhuma, influência do ambiente (o lócus da causalidade é interno). Enquanto a segunda, depende dos diferentes tipos de regulação que interferem na autonomia e regulação da ação, quanto mais a regulação da ação for internalizada, melhor será a qualidade motivacional. Ambientes que dão apoio à autonomia, aumentam a motivação intrínseca, já os contextos controladores, diminuem a motivação autônoma e aumentam a motivação controlada (VANSTEENKISTE; DECI, 2006). À vista disso, o que irá distinguir a qualidade motivacional dos diferentes tipos de motivação extrínseca é o grau (degree) de autonomia ou autodeterminação que as pessoas podem desenvolver ao internalizar a regulação externa do comportamento.

De acordo com essa premissa, Vansteenkiste e Deci (2006) pontuaram que a regulação externa (external regulation) é o tipo de motivação extrínseca menos autônoma, pois o comportamento é todo motivado por contingências externas, como: punição, recompensas e as razões não internalizadas pela pessoa. A causalidade da ação é sempre orientada por uma força externa.

Gagné e Deci (2005) pontuaram, também, que a Teoria da Autodeterminação-TAD nos permite realizar a distinção entre motivação autônoma e motivação controlada, ambas opostas à desmotivação. Assim, para os autores, na motivação autônoma acontece uma identificação do sujeito com a atividade, permitindo uma sensação de prazer e bem-estar ao realizar determinada atividade. Logo, a motivação autônoma é intrínseca. Assim sendo, a motivação controlada pode ser constituída tanto por fatores intrínsecos, como por alguns tipos de fatores extrínsecos internalizados por meio de uma identificação com o significado do motivo extrínseco. Na motivação controlada prevalece a regulação externa sobre a ação do sujeito, regulação

introjetada. O sujeito sente que sua ação é controlada, ele sofre pressão para comportar-se, sentir, pensar de modo específico, diferente de como ele agiria se tivesse autonomia.

Ainda sim, não podemos desprezar as ações que são motivadas extrinsecamente e são parcialmente autônomas através da internalização. Apesar de possuírem padrões autônomos, são controladas extrinsecamente. No caso da regulação identificada, ocorre um enaltecimento dos valores e expectativas em que o sujeito é submetido, apresentando um caráter moderadamente autônomo. Contudo, há ainda a regulação integrada, na qual acontece uma coerência maior entre os valores, que são expectativas a que o sujeito é submetido, permitindo uma maior liberdade e vontade para que o sujeito execute as suas tarefas, já que é apresentada num contexto congruente com as metas pessoais e a própria identidade do sujeito (GAGNÉ; DECI, 2005).

A fim de visualizarmos melhor as explanações anteriormente apresentadas, segue abaixo a figura da taxonomia da motivação humana (RYAN; DECI, 2000, p. 61) que representa o continuum dos estilos regulatórios:

Figura 1: A Taxonomia da motivação humana (RYAN; DECI, 2000, p. 61).

Nesta figura podemos visualizar o continuum da teoria da autodeterminação, que compreende os diferentes tipos de motivação, a partir dos diferentes graus (degrees) de autonomia ou autodeterminação, além de considerar os diferentes lócus de causalidade. É importante destacar que o continuum não é linear. Os diferentes tipos de motivação estão interligados e possuem uma relação dialética, um interfere no outro. Podemos citar como exemplo uma pessoa que inicia uma atividade desmotivada e depois de certo tempo há uma

MOTIVAÇÃO EXTRÍNSECA E INTRÍNSECA

ESTILOS DE REGULAÇÃO Ausência de motivação Motivação Extrínseca Motivação Intrínseca

Regulação externa Introjeção Identificação Integrada

PROCESSOS DE ASSOCIAÇÃO Percepção da ausência

de contingência Baixa competência Processos associados

Recompensas e castigos Implicação do eu

Conformidade e Resistência Foco na autoaprovação Aprovação de terceiros Valoração consciente Autoapropriação de metas e Síntese de metas hierarquizadas Congruência Interesses/Satisfação Inerente

LÓCUS DE CAUSALIDADE PERCEBIDO Impessoal Externo Externo em parte Interno em parte Interno Interno

internalização parcial e/ou total dos valores da atividade, modificando o tipo de motivação, melhorando a qualidade motivacional para a atividade (DECI; RYAN, 2001). A primeira parte da figura 1 (lado esquerdo) representa a desmotivação, enfatizando a falta de motivação e a ausência de regulação intencional. No centro da figura, concentra-se a motivação extrínseca (regulação externa, regulação introjetada, regulação identificada e regulação integrada). Já na última parte da figura 1 (lado direito), consta a motivação intrínseca (GAGNÉ; DECI, 2005, p. 336).

Sendo assim, a primeira parte da figura 1 apresenta a desmotivação que é um nível desprovido de motivação, intenção, há percepção de ausência contingências e autodeterminação, baixa competência e relevância para o sujeito, não há envolvimento nesse caso com o trabalho docente, logo não há qualidade motivacional; a segunda parte é representada pela motivação externa, tida como mais elementar e que possui pouca autonomia de motivação – nesta fase a ação do indivíduo é controlada de acordo com elementos do meio externo, há uma conformidade ou resistência, o lócus da causalidade é externo, os comportamentos não são autodeterminados, configurando assim uma baixa qualidade motivacional.

A terceira, motivação extrínseca integrada, localiza-se no continuum entre a qualidade motivacional inferior e a segunda melhor qualidade motivacional de ordem extrínseca. Segundo Lens, Matos e Vansteenkiste (2008), o indivíduo desenvolve as suas ações com base em reconhecimento externo, produzido por pressões internas (culpas, ansiedade, busca por reconhecimento social), há uma implicação de ego (eu), o foco é na auto aprovação e na aprovação de terceiros, é em parte externa, os comportamentos são heterodeterminados; em seguida a regulação identificada, de acordo com Guimarães e Bzuneck (2008), é a mais autônoma das motivações anteriores, mas a realização da ação do indivíduo ainda é voltada para as consequências, benefícios e valores do meio externo, mesmo possuindo contribuições de elementos internos, no qual o sujeito também julga a razão como importante, há uma identificação com os motivos externos (LENS; MATOS; VANSTEENKISTE, 2008). Gerando uma boa qualidade motivacional, pois ocorreu a internalização parcial dos valores externos e envolve comportamentos autodeterminados, que também são regulados através do meio externo.

Além disso, a regulação externa possui como último tipo motivacional a regulação integrada. É considerada a motivação extrínseca que possui melhor qualidade, pois possui maior índice de autodeterminação e autonomia, apresentando-se de modo coerente com o autoconceito

da pessoa, posto que tem a percepção de regulação sobre a ação, mesmo a ação ainda sofrendo influência do meio externo, entretanto o lócus da causalidade é interno. A última parte da figura 1 está representando a motivação intrínseca. O lócus da causalidade é percebido internamente pelo indivíduo. A ação é controlada pelo interesse intrínseco, há engajamento, é intencional, gera prazer e satisfação, coincidentes com a motivação autônoma. Logo, com a autodeterminação, quanto maior a autonomia e a autodeterminação nas ações do sujeito, melhor a qualidade motivacional, caracterizando a motivação intrínseca. Além disso, o sujeito possui o senso de autonomia, competência e pertencimento, gerando o comportamento Autodeterminado.

Mediante o exposto, analisamos os dados da pesquisa empírica sobre os aspectos da qualidade motivacional docente a partir da teoria da Autodeterminação proposta por Deci e Ryan (1985). Contudo, não podemos esquecer que o limiar entre os motivos extrínsecos e intrínsecos diminuem a partir do momento em que a internalização acontece. Sendo assim, os conceitos de internalização que foi apresentado anteriormente é de extrema importância para a compreensão da relação entre a qualidade motivacional e a profissionalidade docente nessa tese.