3.3 Temporal variations in mycotoxins and mycotoxin-producing fungi
3.3.1 Fusarium infection levels in cereal seed production are autocorrelated
Quantas vezes, amor, te amei sem ver-te e talvez sem lembrança, / sem reconhecer teu olhar, sem fitar-te, centaura, / em regiões contrárias, num meio-dia queimante: / era só o aroma dos cereais que amo. / Te amei sem que eu soubesse, e busquei tua memória./ Nas casas vazias entrei com lanterna a roubar teu retrato. / Mas eu já não sabia como eras. De repente,
Enquanto ias comigo te toquei e se deteve minha vida: / Diante de meus olhos estavas, regendo-me, e reinas. / Como fogueira nos bosques o fogo é teu reino (NERUDA, 1998, p. 28).
Para Agambem (2007), quem escreve deve ter a consciência de que a sua escrita tem a pretensão de ser original, de ter estilo próprio, contudo, o autor é um selecionador criativo (quem sabe um alquimista?).
Concordamos com o mesmo quanto à tentativa de dessacralizar o lugar da autoria de ideias e abordagens em relação aos problemas, a partir dos quais o pesquisador volta o seu olhar. No entanto, entende-se ser impossível a qualquer “escritor” não estar efetivamente presente em seu texto. Entende-se que em ciência, na política ou mesmo na arte, nós (re)elaboramos e (re)significamos símbolos já criados, como dizia Fernando Pessoa, “nós nos admiramos com a eterna novidade do novo.”
Com base nesse entendimento, o que foi discutido aqui não foi especialmente a “descoberta” acerca da temática da modernidade e, a partir dela o olhar sobre a violência, mas repensamos essa temática trans-temporal a partir de um lugar que se pensa fragmentado, descontínuo e prenhe de diferentes possibilidades interpretativas. Com isso, se quer propor que o estudo sobre as vidas infames
Pensar nos registros em Boletins de Ocorrência ou pensar nas espetacularizações que a mídia constrói sobre fatos da vida privada sexual ou de cenas de violência, mais especificamente o linchamento, pois normalmente reúne na sua motivação o tabu da agressão ao corpo da vítima e, especialmente, a agressão à sua sexualidade, remete à questão sobre a presença ou não dos autores desses fatos descritos. Pois, não seria a ausência do autor (promotor da justiça popular) a peça central do drama do uso da violência para combater a violência? Dito de outro modo, não seria essa impossibilidade de precisar quem foram, quantos foram naquele momento, naquele lugar e(,) em tais condições que realizaram o linchamento daquela “vida infame”?
(daqueles que não se coadunam com a ordem posta, como por exemplo, os promotores da justiça popular e que portanto, transformam outras vidas em corpos dispensáveis) nos possibilita pensar na questão que Agamben (2007) coloca ao propor a tese da desconstrução da ordem jurídica, a partir do fato de que toda tentativa de racionalização/representação da coisa pela via da linguagem/conceituação mata “o real”.
Partindo dessa discussão, a substancialização (cf. HEIDEGGER, 1999) leva à morte da coisa escrita e descrita de acordo com Agamben (2007). Esse último ainda chama a atenção para o fato de que podemos entender que o capitalismo acenaria para a consolidação de uma passagem/substituição, na qual o mesmo assumiria uma posição subliminar de religião que espetaculariza a cisão Eu-Genius e, por outro lado, torna sacro/natural o que era profano, como por exemplo, os reality shows e a banalização dos
atos proibidos, apresentados agora como “shows da vida”, inclusive, as espetacularizações da violência.
Se na primeira fase da modernidade (mais ou menos do século XVI a começo do XVIII) construímos o sentimento de pudor, de outro modo, do século XX e durante o XXI, construímos e transformamos em mercadoria valorosa a banalização da vida, ou a
espetacularização do que antes era proibido24
O que percebemos é que todo esse processo tem levado a nossa sociedade à naturalização e a recorrentes processos de criação/ressignificação das coisas, dos conceitos. Assim como a estória da colcha de Penélope, costuramos e descosturamos continuamente o ideário da norma jurídica, seja no direito civil, seja no direito penal. Entretanto, se ficamos presos a esse círculo de repetição, ainda estamos ligados ao ideário da norma jurídica, em última instância, crédulos nos princípios ordenadores das práticas do Estado moderno.
. Comemos o fruto proibido e nos lambuzamos com a possibilidade do conhecimento, mais ainda da vulgarização da informação. Será que o preceito estava correto e de fato morremos?
Mas se, ao contrário, nos aproximarmos de Helena, a quela que ousou trair e desconstruir a norma posta, dizendo não às estruturas e agindo em causa própria, mesmo que essa causa, como nos linchamentos, tenha um fundo de cólera pública
A partir do momento em que “tomamos” o poder, (nesse caso, assumimos a dispersão e a usamos em nosso favor), o exercemos pessoal ou em grupo. Mesmo que de modo ilegal, temporário e “irracionalmente”, nós estamos construindo um
, ainda assim, ela configura-se um ato de revolta e subversão à ordem posta, pois que vai de encontro à média consensual vigente, que seria a da submissão e confiança na ação do Estado.
espaço de exceção à norma vigente
Estamos aqui assumindo os riscos e as vantagens de sermos os construtores do “nosso real”. Assim, a responsabilidade pela transvaloração, nos torna imoralistas. Comemos do fruto proibido e podemos experimentar a sensação de degustar as
.
24 “É verdade, eu tinha dito que a guerra do Golfo não iria acontecer. No nível dos fatos algo ocorreu.
Mas se foi a guerra, penso que não se trata exatamente da guerra [...] Ela não aconteceu realmente, não teve dramaturgia de guerra nem entradas e enfrentamentos. Houve a guerra eletrônica no espaço. Não teve guerra no solo, pois os iraquianos não combateram. Desapareceram. Houve uma espécie de cobertura tecnológica gigantesca”. (BAUDRILLARD, 1991, p. 167).
diferentes nuances da ciência/conhecimento das coisas; aquela vivência que foi vetada ao homem desde o Jardim do Éden. Essa é uma ação para aqueles que ousam desobedecer ao Senhor e descobrem que além do horizonte não há outro poseidon senão o da nossa consciência (preferimos aqui o conceito socialização, que também pode ser lido como disciplina e assujeitamento). Talvez aí resida o maior desafio humano, o de digladiar-se entre o Eu-Gênio e descobrir que estamos sempre construindo sentidos para nós e para o mundo e que na ciência, na política, nas artes ou na vida cotidiana, stricto sensu, o que mais caracteriza a nossa condição é o fato de sermos tal qual o poeta:
O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente. / E os que lêem o que escreve, / Na dor lida sentem bem, / Não as duas que ele teve, / Mas só a que eles não têm (PESSOA, 2006, p. 21).
Gostaríamos de provocar o pensamento também sobre a possibilidade de nos vermos como um fingidor e, assim, ousar também construir os nossos próprios caminhos, e caminhar menos nos seguros “tijolinhos laranjas”. Afinal, quem de nós sabe o que esse caminho pré-disposto pode nos reservar? Nem sempre nos deparamos com o coelho e as suas dicas para uma caminhada tranquila. podemos, também, dar de cara com a “Rainha de Copas” e encaminhados ao julgamento. Assim, como em Alice no País das Maravilhas, é melhor nos precavermos contra as armadilhas da tão segura estrada pré-fabricada. Às vezes, o melhor caminho é aquele dos tuaregs sem estradas prontas e sem deixar rastros, quem sabe o caminho da turba que lincha seja a metáfora mais próxima do que estamos querendo dizer neste momento.
Nietzsche (2006) diz que para haver arte e escrita (dizemos também direito e política). É preciso que haja embriaguez – a embriaguez da crueldade –, como na turba, e no seu poder de revolta e justiça, é preciso o uso da força. Assim, aqui interessa, o uso da força no linchamento, que destrói para Estabelecer a “ordem-provisória”, fazendo da desordem a lei, a exceção!
O que está sendo proposto agora é algo como idealizar o objeto, contudo, não se quer substancializar essa “coisa”, mas torná-la peculiar, tomá-la como típica, ideal. “Nesse estado, o ser humano transforma as coisas até espelharem o seu poder” (NIETZSCHE, 2006, p. 68).
Essa é uma proposta radical de estética da existência que deve ser construída pela força criativa, tanto na pena (na ponta do lápis, ou no toque do mouse
Gostaríamos de aqui deixar o “manifesto” de Reis (2006, p.150), acerca da modernidade e, de algum modo, também nos eximir da teimosia em discutir e apresentar suposições sobre “o que a realidade é”. O que buscamos com o texto que se segue é mais uma tentativa de catarse e um pedido de desculpas! Até por que para negar a dita ciência moderna, ela nos obriga a dialogar com o primado da ordem e seus princípios classificatórios.
de quem cria/apresenta um fato), quanto no “espetáculo” da violência (dos que promovem com celeridade, a justiça), pois enfim: “o que justifica o ser humano é sua realidade – ela o justificará eternamente.” (NIETZSCHE, 2006, p. 81).
Há a plena consciência da invenção do objeto – “práticas de Estado”, sociedade, lei e justiça popular, da mesma forma que os dados são, também, produtos de uma invenção. Nesse sentido, o uso do recorte teórico-metodológico reporta o “fato e os dados” a uma leitura que reúne o conceito de vontade de potência, vivida no linchamento, à perspectiva de que a violência é um ato fundante na religião e em todas as demais instituições que criamos. Também é violentadora a presente abordagem e não deve ser tomada como a verdade sobre o linchamento, mas como uma das versões possíveis.
Desse modo, esse trabalho está aberto a reformulações e à própria negação total, pois não fosse assim, estaríamos construindo um dogma e não a pretensão de um discurso, temporal e ideológico. Nesse momento, entendemos o linchamento pelo viés aqui exposto, não sabendo se no futuro ele ainda fará sentido. Logo:
Não: não quero nada. / Já disse que não quero nada. / Não me venham com conclusões! / A única conclusão é morrer. / Não me tragam estéticas! / Não me falem em moral! / Tirem-me daqui a metafísica! / Não apregoem sistemas completos / Não me enfileirem conquistas / Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) – / Das ciências, das artes, da civilização moderna! / Que mal fiz eu aos deuses todos? / Se têm a verdade, guardem-na para si (...) (PESSOA, 2006, p. 15).
Em outras palavras, o que se quer dizer é que o ato de “fazer ciência” na contemporaneidade, diferentemente do que foi na modernidade, que trabalhava com o
paradigma, segundo o qual verdade era sinônimo de comprovação empírica, nos aproxima de Nietzsche, que bradava contra os positivistas, os quais acreditavam que só existiam fatos, quando tudo é uma questão de interpretação. Com isto, aliamo-nos aos pós-estruturalistas, cuja preocupação central é a de proceder a uma desconstrução de sentido. É claro que ao desconstruir o sentido de qualquer coisa, estamos sempre lhe atribuindo outro sentido. E aqui se reconhece a falência de qualquer paradigma que se reduz a um sentido puramente epistemológico. Afinal, a dita ciência moderna sempre possuiu razões implícitas ou explícitas que a própria razão científica desconhecia, como, por exemplo, as relações de poder que infundem ao discurso uma legitimidade ou um status de verdade ou de erro.