O fato de os sujeitos educandos desta tese serem trabalhadores do campo, que já tiveram formação em Qualificação Profissional em Produção Rural Familiar no Ensino Fundamental por intermédio do Programa Saberes da Terra, cujos conhecimentos sobre a Agroecologia estiveram nos conteúdos curriculares (UNDIME, 2005), sinaliza que eles já chegaram ao curso do PROEJA portando na sua bagagem intelectual noções sobre os princípios agroecológicos e, nesse sentido, o desenvolvimento da formação em nível médio e técnico, por certo, facilitou a aprendizagem de novos conceitos e pressupostos da Agroecologia, assim como complementou outros antes adquiridos, como noções conceituais sobre direitos humanos, economia solidária e cooperativismo, desenvolvimento sustentável, entre outras constantes no referido PPP.
Com efeito, são apontados conceitos e/ou entendimentos de pesquisadores sobre a Agroecologia e seus princípios, que destacam as suas questões socioeconômicas, culturais e políticas, além do respeito ao meio ambiente, considerando a terra como um ser vivo que participa nas interações do homem com o meio ambiente.
As pesquisas em Agroecologia são realizadas ultimamente por diversos pesquisadores, governos, professores, estudantes, e muitos trabalhos são publicados no âmbito das Ciências Agrárias, Sociais, entre outros, porém, na sua relação com o ensino de Química, a produção é bem pequena.
A literatura da área das Ciências Agrárias revela que, nas últimas décadas, vários são os entendimentos sobre Agroecologia, com estudiosos da área se preocupando em difundi-los em trabalhos científicos por ocasião de encontros, seminários e congressos, a exemplo do Congresso Brasileiro de Agroecologia promovido pela Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), organizado e apoiado por órgãos de governos federal e estadual, universidades, associações rurais e instituições financeiras.
Entre os pesquisadores que mais discutem a Agroecologia, Altieri (2012) enfatiza que a compreensão da natureza dos agroecossistemas57
e dos princípios da sua funcionalidade é indispensável para o desenvolvimento de uma agricultura mais autossuficiente e sustentável. Segundo o autor, a ideia central da Agroecologia consiste no desenvolvimento de agroecossistemas em que a dependência de agroquímicos e energia externa seja mínima.
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Agroecossistemas “[...] são comunidades de plantas e animais interagindo com o seu ambiente físico e químico que foi modificado para produzir alimentos, fibras, combustíveis e outros produtos para consumo e utilização humana.” (ALTIERI, 2012, p. 105).
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Considerando que a Agroecologia é tanto ciência quanto um conjunto de práticas, sinaliza, porém, para a ideia de que a sua intenção é ir além das práticas agrícolas alternativas.
Mencionado pesquisador aponta que o conceito de sustentabilidade suscita discussão e produz consenso para que se proponham ajustes nos processos agrícolas convencionais. Esses ajustes têm a finalidade de tornar a agricultura viável e compatível de forma social e econômica, além de preservar o meio ambiente (ALTIERI, 2012).
Em atenção aos ajustes e à preservação do meio ambiente, a análise dos dados da técnica Grupo Focal, aplicada aos sujeitos educandos por ocasião da pesquisa empírica, apontou a compreensão de que foram levados em consideração, como parte dos conhecimentos adquiridos pelos educandos, quando houve o relato de que os conhecimentos da disciplina Sistema Agroflorestais contribuíram para que os agricultores não saíssem desmatando, pois isso traria impactos ambientais. Portanto, o fato sinaliza a conscientização dos educandos de que processos agrícolas convencionais, como o desmatamento aleatório, podem ser ajustados.
Para o autor, a Agroecologia como ciência é balizada tendo a aplicação da Ecologia, para que o estudo, o desenho e o manejo de agroecossistemas sustentáveis sejam conduzidos à diversificação agrícola mediante interações dos seus componentes, permitindo solo fértil, produtividade constante e com proteção das culturas. Nesse sentido, são princípios básicos da Agroecologia:
[...] A reciclagem de nutrientes e energia; a substituição de insumos externos; a melhoria da matéria orgânica e da atividade biológica do solo; a diversificação das espécies de plantas e dos recursos genéticos dos agroecossistemas no tempo e no espaço; a integração de culturas com a pecuária; e a otimização das interações e da produtividade do sistema agrícola como um todo [...]. (ALTIERI, 2012, p. 16).
Os agricultores e seus processos de experimentação desenvolvem técnicas por meio de seus conhecimentos empíricos que vão tecer os fundamentos da Agroecologia. O pesquisador aponta a capacidade das comunidades locais em avaliar, experimentar e expandir, por meio de pesquisa entre elas, o seu poder de inovação (ALTIERI, 2012).
Para a compreensão da origem da Agroecologia, Caporal e Costabeber (2002) exprimem que as Ciências e as sociedades brasileira e mundial estão passando, na atualidade, por processos de transformação para mostrar que “[...] os paradigmas convencionais que orientaram o desenvolvimento e a agricultura – e que foram hegemônicos nos últimos cinquenta anos – vêm sendo substituídos por orientações teóricas baseadas em novos valores éticos e socioambientais.” (CAPORAL; COSTABEBER, 2002, p. 4).
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Esses pesquisadores entendem que a Agroecologia surge num processo de mudança como “uma nova ciência, ou enfoque científico”, que servirá de apoio e sustentação para o entendimento de um novo desenvolvimento rural em que a agricultura será tratada de modo sustentável. Nessa direção, para os autores,
[...] Não se deve entender como agricultura baseada nos princípios da Agroecologia aquela agricultura que, simplesmente, não utiliza agrotóxicos ou fertilizantes químicos de síntese em seu processo produtivo. No limite, uma agricultura com esta característica pode corresponder a uma agricultura pobre, desprotegida, cujos agricultores não têm ou não tiveram acesso aos insumos modernos por impossibilidade econômica, por falta de informação ou por ausência de políticas públicas adequadas para este fim. (CAPORAL; COSTABEBER, 2002, p. 9).
Eles consideram que a simples substituição de insumos químicos industriais por adubos orgânicos mal aplicados pode levar a um efeito adverso e contaminante à planta. Desse modo, por se tratar de um processo no qual o homem intervém, a transição a uma agricultura sustentável busca uma mudança de atitudes e de valores dos agentes sociais em relação ao manejo e conservação dos recursos naturais, assim como maior racionalização econômico-produtiva, baseada nas características biofísicas de cada agroecossistema (CAPORAL; COSTABEBER, 2004).
Sobre esta última ponderação destacada pelos autores, ressalto, entre as características dos agroecossistemas, a falta das químicas, pois estas são também imprescindíveis para a compreensão dos fenômenos ocorrentes na natureza, haja vista levarem à compreensão das transformações e interações químicas necessárias que acontecem no meio natural.
Os autores afirmam ser necessário reaver conceitos e princípios para delimitar o novo campo de conhecimento que permita superar falsos entendimentos de que o vocábulo Agroecologia é sinônimo de agricultura ecológica, ou orgânica. Sustentam que o termo se refere a uma ciência e não a um estilo de agricultura, mas que também não significa um conjunto de práticas ou tecnologias agrícolas. E ainda argumentam que,
[...] como resultado da aplicação dos princípios da Agroecologia, pode-se alcançar estilos de agriculturas de base ecológica e, assim, obter produtos de qualidade biológica superior. Mas, para respeitar aqueles princípios, esta agricultura deve atender requisitos sociais, considerar aspectos culturais, preservar recursos ambientais, considerar a participação política e o empoderamento dos seus atores, além de permitir a obtenção de resultados econômicos favoráveis ao conjunto da sociedade, com uma perspectiva temporal de longo prazo, ou seja, uma agricultura sustentável. (CAPORAL; COSTABEBER, 2004, p. 15, grifos dos autores).
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As considerações dos autores apontam para uma educação ambiental com enfoque nos aspectos científicos, socioambientais e culturais, os quais, norteados pelos conhecimentos químicos, constituirão a base para a aplicação dos princípios da Agroecologia.
Em outro texto, os pesquisadores já registraram o significado do termo Agroecologia como uma ciência, ressaltando nas suas ponderações que, “É justamente o seu status de ciência, campo de conhecimento ou disciplina científica que justifica a Agroecologia como substantivo próprio e, portanto, com ‘A’ maiúsculo”. (CAPORAL; COSTABEBER, 2002, p. 4).
Ressaltando que pesquisadores ainda se preocupam com o conceito de Agroecologia, e denominações como Agricultura ecológica, Agricultura orgânica, Permacultura, entre outras, os autores reforçam que tais tipos de agricultura alternativa não seguem, necessariamente, as ideias básicas e os fundamentos da Agroecologia, pois elas se referem à aplicação de técnicas e métodos diferenciados, muitas vezes estabelecidos pelas regras e regulamentos que impõem limites ao uso de certos insumos e a liberdade ao emprego de outros, para se chegar à produção. Enfatizam ainda que,
[...] mais do que uma disciplina específica, a Agroecologia se constitui num campo de conhecimento que reúne várias “reflexões teóricas e avanços científicos, oriundos de distintas disciplinas” que têm contribuído para conformar o seu atual corpus teórico e metodológico (Guzmán Casado et al., 2000: 81). Por outro lado, como nos ensina Gliessman (2000), o enfoque agroecológico pode ser definido como “a aplicação dos princípios e conceitos da Ecologia no manejo e desenho de agroecossistemas sustentáveis”, num horizonte temporal, partindo do conhecimento
local que, integrando ao conhecimento científico, dará lugar à construção e expansão
de novos saberes socioambientais, alimentando assim, permanentemente, o processo de transição agroecológica. (CAPORAL; COSTABEBER, 2004, p. 12, grifo meu).
Na observação da frase “partindo do conhecimento local” revelam que “esse ‘partir’ quer significar um ponto de início de um processo dialógico entre profissionais com diferentes saberes, destinado à construção de novos conhecimentos”. (CAPORAL; COSTABEBER, 2004, p. 12).
Nessa consideração, penso que os momentos de planejamentos pedagógicos no curso Técnico em Agropecuária do PROEJA foram significativos quanto à elaboração do processo dialógico para a formação com base agroecológica, pois foram estes momentos, conforme analiso no sexto capítulo, que teceram o percurso formativo dos educandos.
De acordo, ainda, com Caporal e Costabeber (2004), no processo dialógico o conhecimento técnico-científico é fundamental, devendo ser compatível com os princípios e metodologias que podem levar a uma agricultura de base ecológica, já que a proposta da Agroecologia requer um salto de qualidade na transição a estilos de agriculturas sustentáveis.
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Assim, as orientações dos autores seguem além dos aspectos tecnológicos ou agronômicos da produção e incorporam dimensões diversas e complexas, como as econômicas, sociais, ambientais, culturais, políticas e éticas da sustentabilidade.
Em mais uma concepção, Moura Filho e Santos (2008, p. 12) apontam que a Agroecologia, como uma nova ciência,
[...] é balizada nos princípios e conceitos da Ecologia, no manejo de agrossistemas sustentáveis, integrando o conhecimento local com conhecimentos científicos, produzindo novos saberes socioambientais, que viabilizem o uso de insumos renováveis produzidos localmente, colaborando como o empoderamento das unidades produtivas, principalmente de agricultores familiares, dando assim, força ao processo de transição agroecológica.
Este entendimento corrobora o dos pesquisadores Caporal e Costabeber (2004), e Altieri (2012), quando consideram a Agroecologia como ciência que se baseia nos conceitos da Ecologia. Os autores apontam a integração entre os conhecimentos do cotidiano com os científicos e os saberes socioambientais na busca de práticas que facilitem a transição sustentável, contribuindo principalmente para a agricultura familiar.
Revelando o histórico da Agroecologia, Moura Filho e Santos (2008) esclarecem que ela inicialmente derivou da fusão gradual de duas ciências, a Agronomia e a Ecologia, a partir do final da 1ª Guerra Mundial, quando as preocupações com a qualidade dos alimentos surgiram na Europa. Ao se intensificarem essas preocupações, o homem criou modelos de produção em série, não apresentando variedades. Esses modelos foram influenciados pelas ideias da Revolução Industrial.
Após a 2ª Guerra Mundial, com países destruídos e com o objetivo de reconstruí- los, a indústria química e farmacêutica se empenhou em fornecer os produtos sintéticos para a agricultura, como adubos e agrotóxicos. Novas técnicas resultaram em crescimento da produção e grande euforia no setor agrícola. Surgia a Revolução Verde. A introdução das novas técnicas agrícolas prometia aumentar a produtividade agrícola e assim resolver o problema da fome em países como o Brasil.
Durante o passar dos anos, verificou-se que a Revolução Verde funcionava de forma ambígua no tocante ao desenvolvimento agrícola: contribuía com o aumento da produtividade pelo uso intenso de insumos indiferentes ao ambiente agrícola, mas aumentava a dependência tecnológica dos países subdesenvolvidos para com os desenvolvidos.
As crises econômicas socioambientais ocorrentes são consideradas consequência do modelo que promove aumento de produtividade e das exportações de produtos agrícolas em países subdesenvolvidos, mas aumenta também o êxodo rural, a monocultura, os
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latifúndios e a degradação ambiental. Deste modo, é imperioso que surjam críticas e alerta para esse tipo de modelo de desenvolvimento agrícola que trouxe consequências negativas para o homem e o meio ambiente (MOURA FILHO; SANTOS, 2008).
Os movimentos que pretendiam reaver os princípios naturais da agricultura foram surgindo em vários países do planeta por meio de cientistas pesquisadores como Altieri (1989, 2009, 2012), Caporal e Costabeber (2002, 2004), Gliessman (2008).
O conceito de agricultura orgânica ampliou-se a partir dos anos 1990, trazendo uma ideia de valorização social de agricultura “[...] com uma visão mais integrada e sustentável entre as áreas de produção e preservação, procurando resgatar o seu valor social e passando a ser conhecida como Agroecologia.” (MOURA FILHO; SANTOS, 2008, p. 11). Ainda para os autores, a Agroecologia surge como um campo de conhecimentos e princípios ecológicos, que colabora com a agricultura familiar, ao viabilizar os insumos renováveis que os próprios agricultores poderão produzir.
Sendo assim, uma exploração ecologicamente equilibrada deverá observar os aspectos cultural, social e econômico, formadores de uma base sustentável, ou seja, o trabalho em uma propriedade na perspectiva da agroecologia deve “considerar a complexidade de todo o sistema. Os agricultores e os técnicos devem enxergar a lavoura e a criação como elementos dentro da natureza, que não podem ser trabalhados isoladamente”. (MOURA FILHO; SANTOS, 2008, p. 13).
Consoante Sauer e Balestro (2009), há quase dois séculos, pensadores como Marx e Engels já consideravam que o homem é parte da natureza e, dessa forma “cabe-lhe a responsabilidade axiomática de protegê-la, preceito incorporado à conceituação teórica da agroecologia”. Registram ainda que, na atualidade, a Agronomia convencional “(salvo exceções)” se preocupa em atender a indústrias dos agrotóxicos, de fertilizantes de síntese química, deixando de lado a preocupação com o bem-estar da sociedade e com a proteção ao meio o ambiente. Com isso, o homem retrocede ao pensamento de valorizar a natureza.
De acordo com os autores, para contrapor a visão da Agronomia convencional, o termo Ecologia foi acrescentado ao eco pela necessidade da “indispensável proteção ambiental”, e, desse modo,
[...] ao incorporar-se o sufixo ecologia ao prefixo agro, na verdade pretendeu-se explicitar as relações dialéticas existentes na natureza, onde tudo depende do todo e, não há fenômeno sem causa e nada acontece isoladamente; qualquer parte está relacionada com todas as partes, é o conceito holístico, onde as partes se relacionam dialeticamente formando o todo, e nenhum fenômeno deve ser analisado se não em função e em relação ao todo. (SAUER; BALESTRO, 2009, p. 245).
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Essa manifestação corrobora o pensamento de que, na relação dialética existente na natureza, deve haver equilíbrio entre as plantas, solos, luz solar, água, nutrientes e outros organismos, formando um agroecossistema produtivo e saudável. A permanência desse equilíbrio pode ser conseguida pela Agroecologia. Se algum motivo, no entanto, ameaçar esse equilíbrio, “[...] então o objetivo do tratamento agroecológico é restabelecê-lo.” (ALTIERI, 2009, p. 24).
No restabelecimento do equilíbrio de um agroecossistema, os conhecimentos químicos devem interagir com os conhecimentos das outras ciências, buscando, assim, soluções compatíveis por via de metodologias que englobem vários saberes, como a interdisciplinaridade, a qual foi apontada e incentivada no PPP do curso Técnico em Agropecuária – Habilitação em Agroecologia como um dos princípios metodológicos para o desenvolvimento da formação dos sujeitos educandos desta tese, e apontada, juntamente com a Pedagogia da Alternância, como diferenciais significativos no processo educativo.
5.2 Pedagogia da Alternância e interdisciplinaridade: integração entre eixos temáticos e